|
|
|
Festa do Livro, Pirenópolis Enquanto nasce o sol, viajo à memória e sonho manhãs de outras alvas. Há muito deixamos de olhar estrelas, inventar constelações, descobrir cometas e prever imprevisíveis. As possibilidades literárias permitem-nos metáforas e enchemos nossas vidas de novos conceitos, calçados em velhas verdades. Ou realidades. O cinema, indústria de arte criada e potencializada no Século XX dos “irmãos do norte”, elevou as pessoas à altura dos astros e estrelas. Confusão com as origens, já que toda estrela é astro. Cometas era como se referiam os avós de nossos avós aos caixeiros-viajantes dos anos de 1900. E a Lua, coitada, símbolo dos boêmios, era vista como o habitat dos loucos. E dos poetas lunáticos. Enquanto espero o sol, releio páginas e antevejo dias, os mais próximos. Especialmente os meados de março, com eventos literários de boa envergadura. Em Palmas, mais um Salão do Livro, este ano antecipado em dois meses para adaptar o calendário, já que a vida brasileira concentrará atenções na campanha eleitoral, festa sócio-política que mobilizará cento e muitos milhões de brasileiros. Em Pirenópolis, cuidaremos de livros e de letras. Esse empenho, estreado no ano passado, pretende firmar-se no cenário cultural de Goiás para que tenhamos a nossa festa de livros. A cidade dos velhos casarões e do Rio das Almas busca repetir Parati (Estado do Rio de Janeiro) . Para isso, sustenta-se na história com um atestado: a antiga Meia-Ponte do Rosário é o berço da imprensa no Centro-Oeste brasileiro (1830). Soma a esse feito a tradição das artes plásticas e da música e tem nomes indeléveis nas letras. O que não dizer de seu acervo folclórico e das ocorrências de filmes? Pirenópolis, diria o professor Gomes Filho, tem sempre alguém estudando ao violão ou treinando o sopro em metais e madeira, ao ritmo de pau-e-couro. Alguém mais instala um cavalete e seleciona cores na palheta. Uma pena fina e decidida molha-se ao tinteiro para nascer um poema (ou letra de música) e um mestre de banda desenha fusas e colcheias num pentagrama. Os jovens de 2010 estudam ao violão, sopram clarins e requintas e pintam com guache ou óleo sobre telas. As penas (de escrever) de ontem dão lugar ao discreto som das teclas de um computador e há quem se atreva a cometer arte pictórica com recursos cibernéticos. Mas continuam sendo música, literatura e arte. E arte ainda é o cuidado com que outros moços atuam nas cozinhas e garantem, também à sombra dos Pireneus e do Morro do Frota, os festivais gastronômicos que se consolidaram na terra de Jarbas Jaime. Essa Festa do Livro de Pirenópolis foi pensada e posta em prática pelo secretário da Cultura, Gedson Oliveira, e pelo prefeito Nivaldo Melo. Diferente, esta, de tudo o que marca o calendário local. Mas, sem dúvida, o fazer de letras na vetusta Meia-Ponte do comendador Joaquim Alves de Oliveira e do padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleuri ajunta a vida de muitas cores na arte em prosa e verso. Voltarei ao tema, é claro. Agora é hora de evocar as musas e os faunos, reverenciar Pan e Afrodite, saudar Eros e Baco. Sem sua licença, é arriscado dignificar as artes. Faço isso, pois, enquanto nasce o sol. Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com |