Luiz de Aquino Alves Neto

 Juventude E Consciência

Divirto-me com o modismo. E não me refiro apenas ao que se veste, ao que se tem à disposição para se consumir, ao comprimento das saias ou a expansão dos decotes. Gosto muito de apreciar as gírias e as expressões da moda. Ultimamente, os jovens dizem “demorou!” ante algo que lhes agrade, ou que é esperado. Chato é o modismo pseudo-intelectual, quase sempre advindo do meio acadêmico. Já falei neles... Há uns trinta anos, era o tal de “a nível de”; hoje, o “politicamente correto” que exige saudações ao modo de “a todos e todas” ou o gerúndio, antecedido de um, dois ou até três verbos totalmente desnecessários. Mas o tal de “enquanto”, ah! Esse consegue ser mais desagradável do que “onde” em lugar de “em que” ou “quando.”

Crianças e jovens têm praticamente o mesmo modo de ser e de pensar em qualquer lugar do mundo. E em todos os tempos. Se antes eram os estilingues e os carrinhos de lata, as bonecas de papelão ou de pano e as miniaturas de móveis, hoje são os jogos de computador e a tevê. Os carrinhos de hoje são de outras matérias, bem como as bonecas, e menina nenhuma quer mais brincar de casinha. Isso muda. Mas o que permanece é o brinquedo como meio de aprendizado e ocupação, o gosto pelo inédito, a crença de que “comigo isso não acontece” (claro, quando “isso” quer dizer “coisa ruim).

Hoje, temos jovens executivos, jovens empreendedores, adolescentes ingressando nas faculdades (antes, havia a barreira dos dezoito anos para a vida acadêmica). Hoje, vemos jovens na vida pública, vereadores e deputados, mas Goiás, em 1945, teve um secretário da Fazenda com apenas vinte e dois anos (Randal do Espírito Santo Ferreira). Assis Chateaubriand, no começo do Século XX, emancipou-se, por sua iniciativa, aos treze anos e deu começo a uma vida cheia de altos e baixos, mas rica de iniciativas e realizações.

Semana passada, uma moça, com o namorado ao lado, ambos com idade em torno dos 25 anos, indignou-se porque cheguei primeiro à fila, na padaria.  “Só não vou apelar porque é véi”, disse ela ao rapaz, que se manteve calado. Em seguida, saiu de perto. Permaneci na fila, esperando a minha vez, e cedi-a ao moço que acompanhava a moça (mal- educada e loira falsa), pois minha mulher voltou para pegar alguma outra mercadoria. Ao ver o companheiro pagando a conta, a bela loira veio, rapidamente. Preferi não discutir, afinal eu sequer fiz uso do meu direito de ser atendido com preferência, fato que foi observado pela funcionária-caixa.

A atitude da moça ao lado do rapaz, que não sei se marido, noivo, namorado ou amigo, remeteu-me ao jovem deputado paranaense Fernando Carli Filho, que abusou de alucinantes (pelo menos álcool, mas disseram que ele usou também cocaína). O jovem parlamentar já infringira a Lei ao acumular mais de cem pontos por infrações de trânsito, tendo sua carteira de habilitação apreendida há quase um ano. Ainda assim, e protegido certamente pelo poder do nome de família, e aliando a isso sua condição de deputado, dirigiu embriagado, em alta velocidade, chocou-se com outro carro, causando a morte de dois moços ainda mais novos que ele (que tem vinte e seis anos) e encontra-se agora em tratamento delicado, todo machucado, num hospital da capital paulista.

Ora, só por ser deputado, dele a sociedade espera muito mais do que não dirigir enquanto não cumprir a punição pelos pontos excedidos. Ele não devia era cometer infrações de trânsito, isso sim.Tinha de dar exemplos positivos e influir na conduta dos jovens como ele. Mas preferiu fazer uso dos poderes estranhos que a prática ruim lhe concede.

Não há muita diferença entre ele e a moça da padaria. É uma jovem bonita, bem vestida e mal-educada. Ela, ao referir-se a mim como “véi”, naquele tom, sequer me associou aos seus pais e avós. Ou seja, infringiu o Mandamento de “honrar pai e mãe”. Daí até burlar a lei, embriagar-se e dirigir em alta velocidade e distribuir a dor entre famílias é um pequeno passo.

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras (poetaluizdeaquino@gmail.com).

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