Luiz de Aquino Alves Neto

 Ladeira Acima, Morro Abaixo...

Há poucas semanas, discorri em uma das minhas crônicas sobre a má educação de estudantes que buscam entrevistas pessoas para elaboração de seus trabalhos escolares e depois desaparecem, sem dar o retorno mínimo, qual seja uma cópia de seu trabalho para o arquivo do entrevistado. Por um lapso meu, ficou no ar a impressão de que o mau hábito é de jovens. Corrijo, pois, a injustiça contra as novas gerações, porque há pessoas nas faixas “superiores” da estratificação etária que agem de modo mais condenável, ainda.  Vou contar.

Antes de nada mais, devo recordar que não generalizo. Nem todo jovem é mal-educado, nem todo velho é “do bem”. Canalha também envelhece (e nem todo mal-educado é canalha, é bom que eu diga. E que se diga). Desde aquele distante ano de 1963, quando cheguei a Goiânia, estranho (ainda estranho, sim) o mau hábito local de se abusar de pessoas respeitáveis. Era meninos chamando adultos de “você” sem desfrutar da intimidade da pessoa; era qualquer um (mulher ou homem, jovem ou adulto) a pisar o pé de alguém e sequer se virar para pedir desculpas; era estudantes uniformizados a ocupar lugares nos bancos dos ônibus e não oferecer o privilégio a algum velho ou mulher grávida.

Da parte das moças, irritava-me ver o abuso que cometiam contra professores, especialmente os de cabelos brancos. Ou o hábito repugnante de se sentar e colocar os pés (com sapatos) nos assentos das poltronas; ou ainda (isso era genérico) de acenderem cigarros nos salões de cinemas tão-logo vislumbrassem o final do filme. Goiânia era a terra do “você-sabe-com-quem-está-falando?”, pois quem não era parente de deputado, secretário ou executivo dos poderes, era filho ou sobrinha de algum empresário de realce.

É só fazer os cálculos: os adolescentes de 1963 são hoje sessentões. Pais e avós que criaram seus filhos do modo como foram “educados”, somando ao jeito errôneo o modismo dos anos 70 de assegurar plena liberdade, sem o equivalente ensino de respeito ao próximo.

Já contei ene vezes... Vi pai e mãe pôr o indicador no nariz de  professor exigente e dizer “sou em quem paga seu salário”; depois, quando o filho mal-educado expunha os pais a saias-justas, vinha a desculpa esfarrapada de que “pagamos o colégio X e você não foi bem educado”. Como se esse lado da educação coubesse ao professor (que não pode reprimir porque quem lhe paga o salário quer o filho desfrutando de total liberdade).

Há cerca de quinze anos, um ex-colega de trabalho pediu-me um texto que seria a trilha para um documentário sobre Pirenópolis. Fiz. Fiz com carinho e poesia.  O homem fez um filme em VHS, deu-me uma cópia defeituosa; devolvi-a e pedi uma nova, que jamais me foi dada. Há poucos anos, num encontro casual, disse-me ele que havia copiado aquele filminho em DVD e que me enviaria um imediatamente. Claro que não acreditei, e ele realmente não me gratificou pelo trabalho intelectual.

Dias destes, por iniciativa de minha amiga Maria do Rosário Paranhos, chegou-me à mão um exemplar do misterioso DVD, contendo dois filmetos: um, com texto de Lorimá Gualberto, com 23 minutos; o outro, com o meu texto, de 17 minutos. 

Omito o nome do autor do filme. É que há quinze anos ele vende essa obra para turistas que visitam Pirenópolis. Jamais lhe cobrei senão um exemplar para meus arquivos. Mas foi necessário que uma amiga lhe comprasse o cartucho com o disco e me fizesse presente. Por esta e aquelas que já citei noutra crônica, estou contando até três antes de atender a pedidos dessa natureza.

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.

voltar