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Ler é Mais Importante A julgar pelo que vejo nas revistas, nos jornais, na tevê e na Internet, nunca se falou tanto em estimular a leitura. Claro, isso é resultado de uma triste constatação: o nível de analfabetismo funcional está altíssimo e compromete gravemente a qualidade dos profissionais atuais. O que esperar, então, do futuro? A gente conhece, de sobra, pessoas que não apreendem (e, por isso, não aprendem) com a leitura; precisam ouvir. Então, lêem e relêem, mas sempre pedem que alguém leia e comente; só então começam a entender... Dia destes, ouvi de uma estudante de pós-graduação (em literatura) uma apreciação sobre determinado professor. Ela, com boa capacidade crítica, deu-me um perfil do mestre de quem falávamos. E discorreu, também, para ilustrar sua análise, sobre um trecho da aula da véspera. Para quem não é do meio, deve ser surpreendente contar que a análise literária segue os meandros de qualquer investigação. Portanto, o estudo crítico tem os mesmos graus de detalhes e de dificuldades de uma investigação criminal. Parênteses: será que a população brasileira, em sua expressiva maioria, sabe a razão pela qual uma operação da Polícia Federal se chamou "satiagraha"? Busque saber, caro leitor. Vai descobrir que alguém, na Polícia Federal, tem o hábito de ler. E então, a esta altura da leitura, meu leitor entenderá que estou dando importância exagerada ao meu ofício de escriba (e não há escriba que não seja leitor; se houver, será um profissional a menos da metade do que se lhe exige). Mas é importante que o leitor entenda, junto comigo, que ao defender a leitura exerço uma mistura que considero salutar: afinal, formei-me educador, e sou também jornalista, além de poeta e contador de causos. Mas é o educador quem mais se dedica a defender o hábito da leitura. Educação é o apelido que damos às técnicas de preparar a criança para ser um adulto "do bem", quero dizer um bom cidadão, um bom profissional – uma pessoa de boa qualidade, enfim. Nenhum profissional que se preze será bom se não ler. Conversar e ver tevê, ir ao cinema e ouvir músicas é muito bom, é construtivo e prazeroso; mas a leitura tem algo de mais importante: é o canal que mais rapidamente nos informa e forma. Além disso, a leitura, apesar dos preços dos livros no Brasil, ainda é lazer de baixo custo. Um livro de trinta reais nos dá quantas horas de aprendizado e prazer? Muitas, muitas horas. Mas os mesmos trinta reais, num passeio, não renderão tanto. A dúvida que o leitor levantará contra este escriba não está de todo errada. Todos nós, em nossas profissões, tentamos convencer nossa clientela de que nossos conselhos são importantíssimos, e muitas vezes deixamos parecer que são a coisa mais importante do mundo. Semana passada, não pude mais fugir: tive de solicitar uma consulta de emergência à minha dentista; ela me censurou por estar afastado do consultório há três anos. Deu-me várias orientações, reclamou que ando descuidado com a escovação etc. e tal, sugeriu-me consultar outros profissionais, especialistas. E repetiu, com insistência, a questão das escovações. – Olha, não tenho tempo para tudo isso, não – respondi-lhe severo. Ela se espantou com a minha resistência, minha "desobediência" (médicos e dentistas não são preparados para respostas contrárias às suas recomendações). – Mas você tem que ter tempo! Crie o tempo, se organize! – disse ela, taxativa. Eu fui enfático, também: – Diga-me, quantos livros você leu esta semana? A moça gaguejou. Como assim?, quis saber: – Ora, eu acho que não li nenhum este ano. Imaginem como fiz a festa! Peguei-a! Mas nada disse, apenas olhei com uma expressão de autoridade no olhar. – Eu sei que ler é importante. Mas a escovação... Interrompi-a: – Está vendo? As pessoas andam sem tempo. Vamos combinar assim: eu vou gastar mais tempo escovando os dentes; mas você vai gastar mais tempo para ler. A dentista sorriu e eu fiquei matutando... Como continuar lendo enquanto escovo os dentes? Mas volto à realidade e fico chateado comigo mesmo. Afinal, eu pago para levar aquela bronca e mudar de atitude. E ela? Não me pagou nada! Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com |