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Louvação ao Mestre Mário Rizério É da praxe. Ou melhor, é da tradição acadêmica. “Abrir vaga” é jargão fluente nas Academias de Letras, significa que um dos membros encantou-se, ou seja, atingiu o dia imprevisível em que sua cadeira será oferecida para que, em sufrágio entre os “imortais”(ouro jargão das academias brasileiras), um novo membro seja eleito. Ao tornar-se acadêmico, isto é, ao ser eleito, a ritualística seguinte é a solenidade de posse. Geralmente, e estatutariamente (no caso da Academia Goiana de Letras) cabe ao presidente escolher o acadêmico que discursará para que a Casa receba seu novo membro; na prática, novel acadêmico sugere ao presidente o nome de alguém entre os imortais e o presidente, com inegável gentileza, acata. Quando do desencarne de um imortal, o presidente convida um dos acadêmicos para proferir o panegírico ao morto. Panegírico é uma palavra erudita, pouco usual, mas costumeira nos sodalícios das letras. A escolha recai sempre sobre alguém que tenha demonstrado grande amizade ou afinidade com o imortal pranteado. E afinidade é uma palavra um tanto ampla, implica amizade, coincidência de gostos, de modo de vida, de perfil social e até mesmo moral. Há casos, obviamente, em que vários dos 39 membros remanescentes enquadram-se entre os que demonstram aptidão para a incumbência, e isso pode sugerir ciúmes ou melindres, mas tal não acontece – no geral, ocorre imediatamente um consenso e é bonito de se ver que, entre os mais cotados, uma espécie de eleição ou indicação informal resulta na indicação rápida de quem proferirá o discurso de homenagem. O ciúme, muitas vezes, costuma ocorrer quando da posse. Nestes casos, já presenciei alguns cotovelos ligeiramente feridos, para usar um jargão mais comum, freqüente além dos limites das medalhas e dos fardões. Na última quinta-feira, a Academia Goiana de Letras reuniu-se em torno da memória do escritor Mário Rizério Leite. Sou capaz de imaginar o velho mestre (que não teve paciência para esperar mais um ano e meio para que festejássemos seu centenário) registrando, numa página de suas últimas vontades, o nome de Leda Selma de Alencar para sintetizar os sentimentos de tantos quanto, vivos ou falecidos, com ele desfrutaram momentos ricos na Casa de Colemar, a sede da AGL na esquina da Rua Quinze com a Rua Vinte, no centro histórico de Goiânia. O escritor Mário Rizério, padrinho de uma das irmãs de Leda Selma, sabia bem dos dotes e riquezas literária de Leda Selma. E ela firmou atestado já nas primeiras linhas de seu discurso, ao falar do nascimento do velho mestre: “A lua, em quarto minguante, minguava de luz as noites, porém, uma outra luz, promanada do ventre de Deolinda Rizério de Moura Leite, brilhou: Mário, cujo fôlego, mostrado no chororô vigoroso, indicava uma criança saudável”. Nas linhas seguintes, que preencheram onze páginas em Arial corpo 14, Leda contou das vivências estudantis, como colegial interno (contemporâneo de Jorge Amado) e como acadêmico de medicina; pinçou fatos (difícil de ecolher, hem, Leda? Uma vida rica como a dele!...) e deu tons de rica aquarela na palheta que foi a vida de Mário Rizério, baiano de várias cidadanias, goianizado pela determinação e pela prática de médico, músico, escritor ficcionista, marido e pai de goianos (e, obviamente, feliz com os títulos nobres de avô e bisavô... de goianos!). A prática acadêmica pede liturgias, e uma delas é a Sessão Magna de Saudade; Mário Rizério sabia que vários imortais disputariam a honra de falar sobre sua vida, poucas semanas após a despedida de entre os vivos – mas coube a Leda, uma sobrinha honorária, de origem baiana como ele, e como ele também goianizada por razões semelhantes, a honraria. E se a alguém ficou uma pitadinha de ciúme, a fala de Leda Selma desfez o mau sentir, e ela concluiu o panegírico com nova evocação à Lua (o geógrafo em mim entende que o nome do satélite é substantivo próprio): “A lua, lindamente cheia, velou sua última noite. E, na manhã seguinte, 15 de maio de 2011, o sol, sem nenhuma alegria, fugiu pela janela do seu quarto, para anunciar que, aos 98 anos, Mário Rizério Leite havia se estrelizado. Sua bênção, meu mestre!”. Luiz de Aquino é jornalista e escritor |