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Luar Sobre Ruas Tortas Gosto de poemas em livrinhos. Ou de livrinhos de poemas. Se o volume for de autor conhecido, a gente já o abre com a consciência do sabor a degustar; se não, concluirá rapidamente se valerá ou não a pena percorrer cada página. Livrões de poemas, só quando já sabemos bem o modo como nossos sentidos e sentimentos acolherão seu conteúdo. Existem muitos modos de se conceber um poema. Imaginem, leitores, os muitos modos vezes mil de se conceber um livro de poemas. Um deles – eu sei, já o vivi – é palmilhar as pedras dos caminhos de Pirenópolis. Ou da Cidade de Goiás, de Jaraguá, Corumbá, Santa Luzia, Pilar, Bonfim. Se deixarmos Goiás, temos Ouro Preto e Mariana, Salvador, Recife, João Pessoa... Lugares de onde extrair História no percurso das ruas. Há pouco mais de um século, Machado percorria o Rio e colheu das décadas e das ruas o feitio (ou feitiço) de seus poemas, contos e romances. João do Rio ensaiou sobre a influência das ruas em seus tipos (ou terá sido o contrário? Os tipos humanos são frutos das ruas em que vivem, ou emprestam suas essências para constituir “a alma encantadora das ruas”?). Sei que as ruas – sobretudo as ruas de pedras, aquelas concebidas para se andar a pé ou, para os de maiores posses, em cabriolés e landaus tracionados por vistosos cavalos – têm o poder de induzir poesia e sons de canções. Especialmente quando se faz noite. A noite sugere serenata. Serenata é a magia do ócio regado a “espírito” e enternecido por sons de semínimas e colcheias, de acordes e vibratos. Serenata é um modo solene e fácil de se vencer a timidez e declarar à amada o que se nos anda pela alma quando a alma se acha encantada de amor e esperanças muitas. Cassiano Ricardo escreveu um minúsculo poema chamado Serenata Sintética, e não sei de outro título a ser tão bem traduzido: “Lua morta / Rua torta / Tua porta”. Esses restritos três versos variam apenas na inicial de cada uma das duas palavras que forma cada um deles, mas que universo!... Trocadilho quase que perfeito, este! Três versos a fazer universo, como se nos bastasse apenas um... Lua morta... Morta? Dizia a ciência de antes, mas o que é a vida de um astro do Cosmo? Basta estar no céu, existir, e por se mostrar todas as noites de forma mutante sugere vida, sim! Rua torta, a Rua Direita de qualquer cidade colonial... Por que Direitas, tais ruas? Evidência de que o perfeito não é, necessariamente, retilíneo. Tua porta. Porta? Pode ser a janela, sim! Altas janelas em casarões de estilo, guilhotinas vidraçadas ou folhas de par a abrirem-se como o coração da amada... Uma luz mortiça insinua o sono repousante, interrompido com a delicadeza de alguém enamorado... A serenata tinha a função mágica da busca das bênçãos. Era um modo tímido e poético de se anunciar para o futuro. Ah, as serenatas! Muita saudade... As ruas são as mesmas, as que ganharam alma quando o nome era ainda Meia-Ponte. Mas corria meio século quando nasci, em Caldas Novas, e nasci ouvindo canções meia-pontenses (ou pirenopolinas) de serenatas, em sons de cordas doces de violão, ou trinados líricos de bandolim. A primeira realização foi cantar em serenata em Pirenópolis. Meu avô Luiz de Aquino liderava: tio (e padrinho) Ismael adornava a noite com sua clarineta, tio Zeco harmonizava com o cavaquinho. Não podia faltar Bidoro, exímio violonista! Esses, e muitos outros parentes e amigos, instrumentistas e cantores, foram-se. Restam-nos, para a voz, as tias Jerusa e Luizinha, e os violões de Luiz Antônio e Zé de Catirina. Certamente, outros estarão com eles, nessa sexta-feira, dia 30. Por coincidência, nesse dia, meu pai completa 88 aninhos. Estou absolutamente certo de que ele estará também nesse conjunto de seresteiros. Afinal, como não reviver uma serenata sobre ruas tortas, sob a lua morta e em busca de algumas portas? Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com |