Luiz de Aquino Alves Neto

Marieta, Catalão E A Saudade

Como era viver sem o telefone celular, hem? E a Internet? Ou, muito menos, sem computador? Essas perguntas não são exclusividades minhas, mas ouvi-as algumas vezes de jovens na faixa dos dezoito aos vinte e poucos anos. Gosto de ouvi-las. Recordo de mim nessa idade, lá pelos tempos de 1958 a 61, quero dizer, o meu tempo de ginasial. Como seria viver sem o rádio? E sem jornais?

Era o tempo em que alguns jornais, na Capital Federal de então, circulavam com duas edições diárias. Aliás, as edições vespertinas, que chegavam às ruas entre as dezesseis e dezoito horas, eram disputadíssimas. Posso estar enganado, mas sempre entendi que eram mais procuradas que as edições matutinas.

Em 1984, não consigo precisar se outubro ou novembro, viajei a Catalão, integrando uma comitiva de escritores, a convite de um dos escribas da terra. Na véspera, chegara eu de Rubiataba, onde, ao lado de uns vinte escribas e artistas de pincéis e de música, participei de um festival. Dias corridos, pois. A viagem a Catalão envolveu grupo menor, em dois ou três veículos. Numa camionete de cabina dupla, viajei com Marieta Teles Machado e Bernardo Élis. Demoramos mais de três horas na estrada, com direito a paradas para lanche e alívio fisiológico. Por três dias, fizemos visitas a personalidades locais, escolas, um clube, uma loja de livros e revistas etc..

Aos mais curiosos, os que quiserem identificar melhor os dias dessa viagem, informo que acontecia por lá uma folia folclórica, algo como congada. Não precisei a identidade dessa festa, mas recordo-me que um dos nossos anfitriões, diretor da Fosfago, contou-me que a prática fora trazida no começo do Século XX. Algum fazendeiro ou político, ou de ambas as práticas, trouxera alguns negos, entre eles ex-escravos, do Triângulo Mineiro, hábeis dançarinos, percussionistas e cantores que fixaram a dança no município, dando origem à prática por ali, expandindo a tradição. Aquele folguedo (nossa! Acho que nunca escrevi essa palavra) interessou-nos a todos, mas muito especialmente a Marieta e Bariani Ortencio. Beca (apelido carinhoso de Marieta) não cabia em si, queria ver, ouvir e curtir tudo, acompanhava os cordões, perguntava, queria saber das letras e cantar junto...

Engraçado... A memória é algo fascinante! “Recordar é viver”, escreveu o autor de uma saudosa marchinha de carnaval. Mas recordar não é reviver. A memória tem cores próprias e uma “leitura” diferente. Não é a repetição de fatos, não tem a exatidão do ocorrido. É um filminho reduzido, apenas. E como é bom! As lembranças dessa viagem são muitas, mas vou resumir.

Imagino ter sido o último dos eventos a visita a um colégio católico, imponente, solene como as velhas escolas, grande como deveria ser, ainda, o respeito à Educação. Era um auditório, uma mesa com flores e toalha branca, majestosa, estava no palco. Distribuímos livros. A diretora, uma mulher bonita e loira, concentrava-se não nos discursos e declamações, mas numa leitura.

Ao final, e como quem agradecesse a nossa presença (cansativa, imagino eu), ela mostrou o meu livro “Sinais da Madrugada” e leu, para o público, o poema “As flores”, cujos últimos versos são: “As flores, querida, / são o recado / que a gente tentou mandar / e não soube dizer”. Leu isso distribuindo as flores da mesa aos poetas presentes.

A diretora era Maria do Rosário Paranhos, que reencontrei no ano passado. Fica-me evidente que uma amizade, ao consolidar-se, pode bem ter raízes que se plantam mais firmes no coração que na fragilidade da lembrança.

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com

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