Luiz de Aquino Alves Neto

 Meus Valores Intocáveis

Como a maioria dos mortais, sou dado a analogias.

Ouvi no rádio um juiz eleitoral em entrevista, revelando o que o populacho já sabe: existem dificuldades para se eleger bons representantes porque os partidos escolhem, antes, os candidatos. Para o Executivo, impõem-nos uns poucos nomes e ficamos sem opções. Guardadas as proporções, dá-se o mesmo para o Legislativo, e atualmente é moda a Justiça cassar mandatos de alguns eleitos por enquadrá-los entre os que a gente chama de “fichas sujas”.

Cuido muito do meu voto, seja para os cargos de Executivo ou os de Legislativo. Vereadores, deputados (estaduais e federais) e senadores, escolho-os com critério, levando em conta as qualidades pessoais e de cidadão. O mesmo faço quanto às associações e entidades a que sou filiado. Ao votar, é importante que nos vejamos na pessoa alvo da nossa seleção. Pequenos detalhes podem, pois, vir a ser referências graves.

Recentemente, importante figura na vida social de  Goiânia pediu-me voto. Senti-me ofendido: a pessoa quis me agradar, falou-me dos meus escritos e identificou-me com uma inexistente campanha pela “goianidade”. Não entendi... Ou melhor, entendi: a pessoa nunca leu o que já escrevi. Vai ver, recordou-se de quando, no decorrer dos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, manifestei-me contrário à divisão de Goiás em dois, dando origem ao Estado de Tocantins. Eu defendi, sempre, ampla redivisão territorial do Brasil, mas não concordei com a partilha pura e simples de Goiás. Por que, indaguei à época, não dividiam também Minas Gerais e a Bahia? Ainda hoje são extensões enormes em que os governos atuam pouco. O candidato, no caso, já se dizia tocantinense desde criancinha, mas continuou vivendo e atuando em Goiânia. Agora, pretende alistar-se em instituição de cunho eminentemente goiano.

Não, não, Leda Selma, não sou xenófobo! Você, por exemplo, é baiana de nascimento, orgulha-se de sua origem e curte ao menos uma semana de todos os janeiros em sua pequenina e amada Urandi. Mas vive Goiás, vive Goiânia, cresceu e se formou aqui, forjou-se excelente comedora de pequi e torcedora do Goiás Esporte Clube. Não te vi propalando nada contra Goiás e goianos, como aconteceu nos empenhos dos nossos nortenses quando da criação de Tocantins. Pouco depois de instalado o novo Estado, três ou quatro deputados goianos transferiram seus títulos eleitorais para Tocantins e tentaram eleger-se lá; não o conseguindo, voltaram à Assembléia Legislativa de Goiás e um deles chegou a presidir o Poder por um período-tampão.

Desculpem-me por não transigir, mas sou assim e não pretendo mudar. Outro exemplo: pelos idos de 1992, nos primeiros meses, um colega de trabalho no BEG mostrou-me um encarte da Revista Exame, na qual o jornalista Paulo Francis, que lançava um romance cujo nome não me lembro, era entrevistado. O famoso profissional, morador de Nova Iorque (não dou conta de escrever esse nome em duas línguas) queria que o Brasil vendesse a Amazônia, o Nordeste e o Centro-Oeste. Dizia ele que “Por muito menos, a Rússia vendeu o Alasca”. Para ser detalhista, em dado momento ele disse que, como era da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, nada conhecia de Brasil e que “Ceará, Nordeste e Goiás” não lhe interessavam.

Que triste, né?

Sou pela unidade territorial brasileira. Sou pela defesa intransigente das nossas riquezas e dos nosso valores (a isto, chamo de riqueza sem pecúnia). E evoco Fernando Pessoa, autor dessa frase linda: “Minha pátria é a Língua Portuguesa”. Estendo-a aos meus sentimentos e apego-me aos valores que trago quando penso, quando falo e quando escrevo. Presidi a União Brasileira de Escritores, de cujos quadros me afastei por razão pessoal, mas defendo-a com vigor, porque é a minha instituição de referência, antes de tornar-me membro efetivo da Academia Goiana de Letras. E defendo a AGL com a mesma energia, preferindo-a para os literatos do que para notáveis sem lastro qualitativo no ofício das letras.

Digo isso para dar uma faceta do meu perfil de pessoa, de animal da espécie. Corruptível? Posso ser, desde que a moeda não seja pecúnia nem item da lista de bens tributáveis. Meus valores são outros. Meu voto é consciente. Debalde encomendar injunções ou usar de confrarias calcadas em mistérios... conheço-as bem, também.  

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academmia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

voltar