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Minha Mão Ao Outro Pesquisando escritos antigos, achei o texto abaixo, que suponho não ter sido publicado. E achei-o oportuno para estes dias em que Santa Catarina não nos sai dos olhos, da memória e das dores:
“Sai, cada dia, de ti mesmo,
e busca sentir a dor do vizinho, a Ao perdermos uma pessoa querida, dói-nos a dor da ausência prenunciada. Damos de nós a angústia, um sentido de solidão que nos assola e um teor de remorso pelo não-dito, pelo não-feito, pelo não-vivido sobre o amigo, irmão, filho ou pai. Mas Jesus nos deixou dito: “Que os mortos enterrem seus mortos”. A frase, como tantas outras da Divindade, chega-nos misteriosa, enigmática, mas aos que estudam a doutrina espírita explica-se: aos que passam para o plano espiritual, cabe o cuidado dos que lá estão; a nós, os que restamos em matéria na Terra, compete-nos o zelo pelos que aqui estão. Não por acaso, chegou-me, há poucos minutos, uma mensagem em texto bem escrito, ornada de cenas em fotos, dando conta da humanidade em miséria: 54,7% dos que estão vivos vivem em extrema miséria. E, todos os dias, morrem de fome e inanição cerca de vinte mil pessoas. A informação é insuspeita: vem da Agência Central de Inteligência, o órgão de informação e segurança dos Estados Unidos, e resultou de estudos (no ano de 2000) relacionados com a globalização da economia − um eufemismo cínico para a consolidação da hegemonia do capital estadunidense perante a humanidade. Se isso não bastasse, há um agravante: o custo para se manter essa globalização está integralmente atribuído aos mais pobres. Cumpre-nos a tomada de consciência, pois, sem ela, nenhuma ação acontecerá em favor da solidariedade ao próximo. Ao capital compete gerar emprego e renda com o intuito de minimizar a dor do outro; e ao indivíduo, ação de caridade a acatamento ao próximo. Fechar-se na armadura do conforto cego e da omissão cínica é ir de encontro à lei natural. * * * O texto acima tem uma data: 22/11/06. Ou seja, dois anos passados. O aniversário do meu pequenino texto coincidiu com o segundo dia de dilúvio em Santa Catarina. As chuvas ainda ocorrem por lá, mas em intensidade bem menor; é o momento de se contabilizarem as perdas, de pessoas e de bens. E os prejuízos morais e emocionais, como a perda daquelas coisinhas que se somam à memória para se chamar “a nossa história de vida” (pequenos objetos, livros, quadros, fotografias, escritos etc.). E o momento dessas análises chega junto com um sem-número de críticas. Como a de um amigo meu de infância, que cobra ações da parte de instituições e entidades ligadas ao social, como a União Brasileira de Escritores, os movimentos de Sem-Terras, dentre outros (estes foram nominalmente citados). Ouvi calado porque, conhecendo meu velho amigo, sei que não se dará por vencido: mas eu lhe digo, por estas linhas, que o silêncio das entidades estudantis se dá por nossa culpa. Nós, que fomos forjados em lutas sociais em grêmios e na resistência à ditadura militar, não precisamos ser provocados para dizer “presente”; mas criamos uma geração de omissos, de jovens egoístas cuja paisagem não vai muito além do próprio umbigo (grande parte deles ornados de pírcins). Como a belíssima moça que, na última quinta-feira, cobrou-me por furar a fila no banco. Disse-lhe a minha idade, e um senhor dois anos mais velho que eu declarou-se disposto a permanecer na fila, abrindo mão de seu direito legal; e a moça entender ser aquilo uma forma de apoio, “aconselhou-me” a nunca sair de casa para ir a bancos ou a qualquer lugar onde há filas, porque, segundo ela, “nem toda lei é justa”. Respondi à altura, principalmente quando ela disse que poderia mentir que estaria grávida para não ficar na fila, ou seja, para se beneficiar da lei, ela poderia mentir. Será que ela me achou com cara de jovem? Sugeri-lhe estudar cidadania. Essa moça, belíssima e muito jovem, talvez massageie a própria consciência depositando alguns reais em contas de assistência aos flagelados de Santa Catarina. Mas jamais sujaria as bem tratadas unhas dos belos pezinhos na lama que a Natureza usou na revanche às agressões humanas. Que Deus se apiede daquela moça e lhe permita vir a ser uma sexagenária. Talvez, então, ela venha a entender o que é viver em sociedade. Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com |