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Mudando A Escrita Amigos leitores, não estou gostando nada de ter que me readaptar à nova escrita da nossa língua. Não me alenta nem mesmo o argumento de que apenas 0,5% (é isso mesmo, meio por cento) das nossas palavras serão graficamente modificadas ,enquanto que, para os portugueses, o choque será de 1,6%, ou algo próximo. Basta lembrar que o vocabulário brasileiro é muito, muito maior que o dos irmãos lusos. O Português do Brasil contém os vocábulos indígenas, os africanos e ainda os neologismos naturalmente criados na junção das culturas, sem nos esquecermos dos inúmeros povos (e línguas) de imigrantes vários. A minha revolta maior fica por conta do trema. Adoro saber que nos conjuntos qui, que, gui e gue a gente sabe que o u se pronuncia quando há trema. Antigamente, inseria-se um h entre duas vogais para indicar ditongo (ahi, em lugar de aí; sahude, em vez de saúde etc.). Em 1943, um acordo entre o Brasil e Portugal definiu regras para a língua e a escrita, acordo esse que foi violado ininterruptamente, até mesmo (no que se refere ao Brasil) pelo poder público, que aceita inserções espúrias como o y, o w e o k, e ainda jogamos a culpa nos cartorários, que erravam por não saber ou por pretender descumprir as regras. Mas os juízes foram coniventes, convenhamos. Vai daí, temos Karlas e Weslleys em profusão por todos estes brasis de muitos sotaques e (quase) dialetos. Descumprir as regras da língua é um passo decisivo na formação do não-cidadão. Seja qual for a profissão do sujeito (e muito especialmente se a profissão for de nível superior), ele tem que saber a língua. Tem que saber falar e escrever. Claro, não precisa ser literato, mas não pode dar vexame. A nós, jornalistas e professores, então, não é permitido cometer erros mínimos, alguns até piegas. Professor que escreve “trousse” e teima em afirmar que o plural de lápis é “lápises” devia ser preso e só recuperaria a liberdade após dar provas incontestáveis de que acumulou conhecimentos para fazer jus ao título que ostentou indevidamente. Jornalistas não precisam ser poetas, nem contistas, mas têm que saber construir textos claros, inteligíveis, com acertos nas concordâncias e regências. Coisas como a ortografia pode ser conferida como o sofisticado auxílio dos dicionários eletrônicos (afinal, todos escrevemos com computador) e a regra dos hífens... Ah!, essa regra! Ela vem toda modificada e já estou pensando seriamente num curso de atualização, com urgência! Mas a língua não é o único fantasma para os profissionais do terceiro grau, não... Muitos profissionais desconhecem a essência fundamental de suas formações universitárias, como a bióloga da Agencia Municipal do Meio Ambiente que defende a derrubada de trinta e tantas árvores sob a alegação de que algumas estavam doentes (ainda bem que ela não atua na Vigilância Sanitária de Aparecida de Goiânia). A grande imprensa noticiou, recentemente, que em São Paulo, a maior cidade da América Latina, algumas faculdades formavam médicos que não davam conta de fazer diagnósticos simples. Policiais militares têm assassinado suspeitos e inocentes por total despreparo para a função (ou por medo). Nada disso é privilégio desta ou daquele região brasileira: é o trivial, infelizmente. E atribuo boa parte desse desmazelo ao total descaso para com a Educação, o que permitiu reformas no ensino no começo da década de 1940, de novo em 1961, outra vez em 1971, em 1996 mais uma vez e, fala-se, é preciso reformar novamente. Citei que houve um acordo ortográfico em 1943. Depois, em 1971, aconteceu a reforma que acabou com os acentos diferenciais, permitindo surgir pronúncias como “éstra”(em lugar de extra, com o som de ê) e “poça” (substituindo poça, que tem som aberto). Agora, vem mais essa preciosidade, sob o argumento de que é preciso padronizar a língua portuguesa em todo o mundo. Tudo bem. Vai ser difícil comer “linguissa” em vez de lingüiça. Mas ninguém vai convencer um brasileiro a injetar medicamento nas nádegas de um menino com o linguajar de Portugal (lá, diriam que se vai aplicar “uma pica no cu do puto”) Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com |