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Na Lapa... “O Rio de Janeiro continua lindo” (Gilberto Gil, in Aquele abraço. 1969?) Digam o que disserem, filmem o que filmarem, a verdade é que, realmente, o Rio continua lindo. Apesar de viver, duas décadas depois, o horror de Medelín e Cali (Colômbia), com as batalhas entre bandidos e polícia, apesar do vertiginoso crescimento da frota de automóveis (mal nacional dos últimos tempos), apesar do caos na saúde pública, apesar da corrupção de sempre (agora, mais evidente porque nos é dado o direito à informação), apesar dos seres humanos: o Rio continua lindo. O Rio de Janeiro, disse recentemente Carlos Heitor Cony, não precisa da mão humana para ser belo. A natureza foi-lhe pródiga. Tão pródiga que até mesmo as mazelas tornam-se de belíssima plasticidade: barracos que parecem subir morros em procissão; a maior floresta urbana, fruto de reflorestamento dos tempos do Império; a arquitetura religiosa do Brasil Colônia e as edificações dos tempos do rei e dos imperadores, os aterros que deram chão sólido ao que era pântano, os arcos da Lapa, a Cidade Nova, o Jardim Botânico a zona portuária, a Esplanada do Castelo, o Aterro do Flamengo, os quartéis da Vila Militar e bucólico bairro de Marechal Hemes da minha infância... Resquícios (ainda que parcos) da Mata Atlântica precisam ser preservados (e restaurados). Inúmeros edifícios de época, nos últimos anos, são restaurados ou adaptados, e abrigam novos ambientes com nostalgia e conforto. Como se vê na Lapa de hoje. A Lapa acomoda-se no meio do velho centro do Rio: o Mangue (Cidade Nova), o Estácio, a Cinelândia, a Glória... Os Arcos da Lapa, antes chamados de Arcos da Carioca, são caminho dos bondes remanescentes que a modernidade precipitada do governador Carlos Lacerda condenou à saudade (à minha inclusive). Tivesse eu algum poder de influência, sugeriria aos governantes da cidade, que há cinquenta anos foi apelidada de Belacap (em contraposição ao epíteto de Novacap para Brasília), a reinserção dos bondes na paisagem, linhas na orla, ainda que os “elétricos” só circulassem nos feriados e finais de semana. Seria de bom grado ir-se da Glória ao Recreio num lerdo e prosaico bonde, ah!... Por ser 2009 o Ano da França no Brasil, os Arcos ganharam belíssima ilustração de olhares mestiços – uma das belezas cariocas advindas do tesão português ante as belezas exóticas dos nativos indígenas e dos migrantes involuntários escravos negros. Transpor os Arcos à noite é algo de encanto, uma magia só percebida pelos que têm alma boêmia e sensível ao samba e ao choro, legítimas traduções da essência carioca contagiante. Não se vive a Lapa num dia. Menos ainda, numa noite. A Lapa é histórica e imortal. Lapa de Madame Satã, dos anos moços de Mário Lago e Noel Rosa, de Pixinguinha e Ernesto Nazaré, Braguinha e Almirante. Certo, gente, deixo de citar um montão de nomes, mas não sou injusto, apenas me rendo à falta de espaço. Nos casarões da Rua do Lavradio, desde o Palácio Maçônico do Grande Oriente do Brasil até o mais simples dos bares, tudo é vida, e como tal, tudo se reveste de mistérios. E de sonhos. Numa esquina, sem música ambiente, paro para conversar e matar a sede. É noite fresca, meus sonhos viajam ao passado adolescente e cobram-me o intervalo perdido. Sorvo um chope “black”, novidade da Brahma que ainda não chegou a Goiás, e procuro um táxi. Tropeço em choros, esbarro em sambas, vislumbro amores nascentes e aconchegos costumeiros. Tenho de ir... Em poucas horas, retorno a Goiânia. Luiz de Aquino é
escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. . |