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Na Moldura Do Beijo Segundo o que me contam por aí, já atravesso o segundo ano na casa da velhice. Não gosto, nunca gostei!, dos eufemismos que inventaram para nós: terceiridade, melhoridade... Sou mesmo é um velhinho-calouro, com muitos ranços da tal "idade madura", que se estende, teoricamente, até o último dia dos 59 anos. Então, já me encantam o gris dos cabelos e as rugas na pele. E gosto demais de dizer palavras como "gris" e "cãs" (que um revisor "corrigiu" para "cães" num poema meu, atrapalhando definitivamente a compreensão do verso). Vejam aí, os que não o sabem: os dicionários contam bem o que são "gris" e "cãs". Esse preâmbulo maluco é só para me situar nesse Dia das Mães de amanhã, segundo domingo de maio, dia 13, ano de Nosso Senhor Jesus de 2007. A minha velhinha se foi há três anos. E eu, que tive outras mães, além da que me pôs no mundo, ainda guardo alegrias para este domingo. A segunda, na ordem do tempo meu, foi minha avó Inês, mãe de Dona Lilita; junto com a Vó, as tias-mães: Tia Vanda, Tia Norma, Tia Leda e Tia Miriam (irmãs de Dona Lilita). Vó Inês se foi mais cedo, em 1971, aos 77 anos de vida (das irmãs, a única a morrer tão jovem; todas as outras passaram dos 90 anos e Tia Sinhá, a primeira a nascer, foi a que mais viveu: 101 anos). Mães demais! Mães dos meus primos, mães minhas por empréstimos. Tia Leda morreu quase menina, pouco além dos 30 anos; Tia Norma, surda de nascença, vive hoje mais alheia ao mundo, ainda, porque uma isquemia lhe toma quase que todo o cérebro; Tia Vanda também não tem mais consciência da vida à sua volta. Nada a lamentar: nascemos com a certeza da morte; e crescemos com as informações de que muitas coisas podem nos complicar a vida. Fica-me a caçula: Tia Miriam sempre me foi a mais próxima, talvez pelo menor intervalo de anos. Eram todas muito belas, as filhas da Vó Inês e do Vô Chico. Dona Lilita, aos 80 anos, morreu ainda muito bonita; Tia Miriam ostenta, aos setenta, o brilho de menina nos olhos e, neste Domingo das Mães, seus filhos de carne (André Luiz, Cláudio e José Henrique) verão neles o brilho de sua primeira maternidade, aos 17 anos. Daqui, deste ar seco e frio no prenúncio de inverno no Planalto de Goiás, meus olhos, com menos brilho, umedecem-se ao lembrá-la na distância. De todas aquelas mães que, nos meus dez anos de idade, tentavam suprir Dona Lilita distante, era de Tia Miriam que vinham os mais-carinhos, a mais-compreensão, o apoio, o estímulo, os raros aplausos. É que as mais velhas, receosas do meu insucesso e dos riscos a serem explicados, reprimiam-me; Tia Miriam sorria e me fazia não recuar. Desde aquele 1956 e até dezembro do ano passado, faltava um toque pequenino e ingênuo: que a Lília, colega de Colégio, notasse o carinho com que, em pontos miúdos, o emblema do Pedro II estava pregado à minha camisa. "Foi minha tia", disse-lhe eu; e Lília, com a sabedoria de mãe, de filha e amiga, pôs para fora sua experiência de mulher amorosa para definir: "Ah, eu sabia! Amor de tia é muito diferente". É, sim. E isso marcou tanto que é a segunda vez que conto isso pro escrito. Aquela costura é um símbolo, tanto quanto o é o escudo do Colégio. Um símbolo pequenino, mas que reproduz estes mais de 60 anos de amor que Tia Miriam nos dá, espargindo-o com abundância, mas sem nos sufocar por ele. Não tenho inveja dos meus primos, não; como sinto, também, que eles não se enciúmam pelo amor que eu e os demais primos recebemos de sua mãe. Com as mortes de Vó Inês, Tia Leda e Dona Lilita, e com a inconsciência das outras duas tias, sei que o amor das outras transferiu-se para aquele coraçãozinho sempre feliz. Daqui, Tia Miriam, envio-lhe um presente simples, possível a todos os que têm em si um pouquinho dessa capacidade amar: duas lágrimas a moldurar um beijo. É só... |