Luiz de Aquino Alves Neto

Nomes da África

 Começo com um poema emprestado:

NEGRA

 

negra a melanina

o pigmento

a raça resistente e bela

 

negra a força dos pelos

crina e a cabeleira

a noite e a lua nova

 

negra a profundeza do mar

a pupila dos olhos

a menina

 

negro é o infinito

o imenso universo

o segundo

 

negra a morte

o fim de tudo

o princípio

 

negra eu

desejo e mistério

ébano luminoso

 

branca eu

acaso genético

coração Zumbi

 

negro o pensamento

onde se formam as cores

e de onde vem a luz.

 

Lílian Maial, carioca de boa cepa, concebeu esse poema e, no rodapé da página, reforça (como se fosse necessário): "Pelo Dia da Consciência Negra e o fim do racismo subliminar que ainda sobrevive entre os homens". E mais: "O homem não pode falar de amor, enquanto gritar diferenças" (são frases dela própria). Pelo poema e pelos adereços, desnecessário é apresentar Lílian Maial; mas quem a quiser bem conhecer, pesquise-a no Google. Ela é uma das mais atuantes poetas brasileiras. Morena e bela, tem olhos azuis feito um abuso; mas beleza de olhos não está na cor da íris, e, sim, na essência da alma. Por isso Lílian é bonita. Quem duvidar, que leia seus contos e poemas.

Falar de consciência negra não é apenas exibir a pele e ostentar orgulho, mas conhecer-se sob a luz da História. E a História, que se faz à luz da Filosofia, não estimula preconceitos: ensina-nos o caminho da prática do respeito.

Respeito foi o que não se praticou na História da colônia Brasil e do Brasil livre (?), império escravista. Mas nós, filhos desta história, temos de começar, em algum momento, a corrigir o rumo da nossa viagem ao futuro.

Esta Nação, que em breve será duzentos milhões de pessoas, tem em si a forte marca do sangue africano. Vestimos e comemos heranças culturais que fazem do Brasil um país singular, e temos na arte a diferenciação de cores e sons que não se repetem lá fora senão pela nossa própria criatividade.

Mas a História nos conta, em entrelinhas, horrores maiores que os das algemas, troncos e pelourinhos. O pretexto cristão impediu aos imigrantes involuntários de pele negra o exercício regular de sua religiosidade, mas o negro reagiu com o sincretismo.

Não bastasse essa violência, nossos antepassados brancos tiraram-lhes também os nomes e impuseram-lhes o que os religiosos católicos obrigaram: Conceição, Joaquim, Maria, José, Antônio, João, Clara (ironia ou sacanagem?), Teresinha, Pedro, Cipriano, Rita... Sempre um nome "cristão", como se aquelas fossem atitudes cristãs.

É óbvio que essa crueldade não foi uma prática luso-brasileira, não; foi uma unanimidade entre todos os que escravizaram negros africanos. Nos Estados Unidos e no Caribe, também, desapareceram os nomes originais das levas de incontáveis seres trazidos para o trabalho escravo.

O estranho é que, no caso brasileiro, repetem-se com certa postura de exótico, nomes de origem indígena: Tainá, Moacir, Jaci, Guaraci e muitos outros; e nomes de tribos tornaram-se sobrenomes. Mas tal não se fez com os negros: a eles, emprestou-se o sobrenome do senhor seu dono. Não que isso signifique uma atitude benevolente, mas uma marca de propriedade. É como se, em lugar da combinação de letras e algarismos, as placas de automóveis tivessem nossos nomes.

O triste é que, mesmo durante o regime da escravidão, já era impossível corrigir essa agressão. Como em todo crime de estelionato, agiam com rapidez e eficiência para apagar vestígios.

Nesse caso, pior do que nos demais, o poder público era cúmplice.

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