|
|
|
Nossos Vultos Esquecidos A relação dos verbos esquisitos é longa e assola nossos ouvidos e mentes, causando estranheza e, às vezes, revolta.Não consigo “vivenciar”, mas viver; “experimentalizar”, mas experimentar; “inicializar”, mas iniciar. E por aí vai o modismo que, há trinta anos, usou e abusou do “a nível de” e, nessa esteira, vemos o verbo “colocar” transformar-se em “falar”, o termo “onde” estende sua função, que era de lugar, para a de tempo. E ainda temos a expressão “enquanto”, que se referia a tempo determinado, para significar uma qualidade. Os “moderninhos” vêm com o argumento de que a língua é dinâmica etc. e tal. Concordo plenamente: as línguas são dinâmicas e interativas etc. e tal. Como a própria vida. Vimos, com freqüência, usos antigos voltarem à moda, bem como novidades da tecnologia e do intercâmbio cultural exercerem suas influências. Mas o ser humano é um acidente geográfico; e a espécie humana, um acidente histórico. Memória é imprescindível. Sem memória, não há inteligência; e sem inteligência, nada de criatividade e, por fim, nada de transformações. Recordo e reverencio uma das minhas professoras de Geografia no ginásio, Dona Umbelina. Recentemente, em visita que lhe fiz após um intervalo superior a quatro décadas, ouvi ainda muito de novos ensinamentos. Dentre eles, essa pérola: “A memória é a mãe da inteligência”. Ela defende um interessante ponto de vista, quanto à educação das crianças: “Temos que botar a garotada para decorar datas, nomes de rios e de capitais, a tabuada, as categorias gramaticais... Primeiro, a decoreba; depois o aprendizado. E a inteligência se desenvolve”. Gosto de ver a imprensa nas ruas, perguntando as razões dos feriados; raramente alguém do populacho responde certo, porque falta história. As sociedades antigas já cuidavam da história, instituindo monumentos; os “moderninhos” não querem nada disso, dizem que “isso é coisa de gente velha” ou que “quem gosta de passado é museu”. Com isso, criam terríveis preconceitos a denotar total ignorância, jogando no limbo as palavras “velho” e “museu”. Ora, velhice é o que todos nós almejamos (ou nos matarmos jovens) e museu quer dizer “casa das Musas”. Entristeceu-me notar que a imprensa goianiense não deu a atenção devida ao músico e radialista Antônio Humberto, falecido há quinze dias. Omitiu-se o fato, de modo a não dar valor a uma vida intensa de arte e profissionalismo, uma vida de bons exemplos. Somos muitos os da minha geração que dançamos à musica de Marquinhos e Seu Conjunto, do qual Antônio Humberto era um dos “crooners”. E quantos não eram os ouvintes do seu Show (xou) da Tarde, pelas potentes ondas da Rádio Brasil Central? Na mesma linha de esquecimento, a novela sobre a estátua de Pedro Ludovico emplaca dezessete anos de jogo-de-empurra. O fundador de Goiânia já é bastante homenageado, tudo bem! Mas alguém encomendou a Neuza Morais a obra e, depois, ficou sem saber o que fazer dela. Eventualmente, algum prefeito ou governador, desde o começo dessa “via sacra”, tocava no assunto para esquecê-lo no momento seguinte. Neuza, a escultora que se tornou símbolo dos artistas locais, ao lado de Belkiss Spenziere, morreu em 2004, desgostosa, triste e decepcionada. Só depois disso o poder público decidiu-se por mandar fundir a estátua. Agora, recebo de Marina Emília de Morais, cunhada de Neuza, cópia de correspondência da Fundiart – Fundição Artística Ltda (de Piracicaba) dando conta de que fundirá, sem ônus, um busto de Neuza e uma placa para serem acoplados ao pedestal da estátua eqüestre do fundador de Goiânia. Certamente, Júlio Valente, escultor que aprendeu com Neuza as técnicas da estatuária, cuidará da obra (vale lembrar que, há quatro anos, cobrei dos discípulos de Neuza essa iniciativa).
Resta-nos cobrar ainda mais. Cobrar dos
poderes públicos, estadual e municipal, providências para finalizar este
assunto. No fundo, penso que tudo poderia ter se encerrado em tempo
hábil, não fosse o descaso de uns poucos. |