Luiz de Aquino Alves Neto

O Predador Do Amor (II)

          Não há, ainda – mas não duvido que surja logo, logo – algo da chamada tecnologia capaz de pesquisar e medir as palavras mais usadas quando não estamos nos comunicando no “estrito cumprimento do dever”. Não estranhem as aspas, é que no estrito cumprimento do dever, em qualquer das profissões, manipulamos jargões e frases feitas tal um pedreiro com sua trolha, um mecânico com as chaves ou um militar de Pinochet com suas armas na abnegada missão de eliminar adversários – coisas que, disseram em algum momento do passado, especialistas brasileiros ensinaram aos “irmãos de fardas” do país irmão, depois que os “nossos” aprenderam com rambos de outro país, o dos “irmãos do norte”.

Fora do espaço e do palavreado profissional, nossa língua portuguesa é outra. A língua, pois, é feita e dita como ditam o momento e as emoções. No bate-papo descontraído num percurso de automóvel ou de ônibus, nos restaurantes, em família ou à porta da igreja antes dos ofícios religiosos, à beira das piscinas ou em torno do tanque, falamos do que sentimos, do que nos aflige e do que nos encanta. Já notei que, principalmente entre jovens, a palavra que as mulheres mais dizem é “ele”.

Mulheres e homens falam de roupa, de preços, de futebol, do sexo oposto, da vida alheia, da novela global, de filhos, de programa mundo-cão na tevê, de política, de economia e, inevitavelmente, de amor. Difícil é ouvir de alguém uma boa definição de amor. Amor ao próximo, amor aos pais, amor aos filhos, amor ao amigo, amor, amor, amor... Paixão!

Sim, o amor de que mais se fala não é amor, é paixão. O amor pela via do sexo, o amor de conquistas e traições. Sim, porque amor entre amigos, amor ao desconhecido, amor entre familiares e colegas – estas são as formas de amor sem sentimento de propriedade. O amor com tesão, este é possessivo, egoísta, dominador e jamais acontece sem o ingrediente da mentira. Mente-se para se fingir bonito, bom, tolerante, parceiro, carinhoso, leal. A intimidade poderá mostrar a face oculta que, nos tempos de conquista, adormecia. Feito político em campanha.

Dias atrás, num carro parado à porta do meu prédio, a mulher ao volante chorava. O homem no banco do lado olhava para o céu, como se nada houvesse. Pensei nos dias de conquista: presença, presentes, flores, passeios, carícias, viagens, hormônios a mil! Alguém me disse, no tempo da minha adolescência, que o amor (paixão) era como chiclete: gostoso apenas enquanto durava o sabor de açúcar; depois, era mastigar a goma insossa. É verdade: nada como o casamento para pôr fim à paixão. O casamento é o predador natural do amor. Uma poeta daqui da terrinha costuma dizer que as mulheres têm no casamento um sonho, mas o sonho só vai até a subida do altar: “Ao descer, começou o pesadelo”.

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

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