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O Professor E A Informática Nos últimos dias, tenho invadido prateleiras das estantes. Busco textos e referências, poemas mal lembrados, autorias duvidosas na memória que mistura nomes e dados. As mãos ficam ásperas e quase ocres, pois o pó das ruas e das construções imiscui-se nas lombadas e páginas, ferem o papel e as narinas. E os livros, quase todos, retêm papéis vários, improvisados marcadores de páginas. Uns são cartões de visitas obsoletos; outros, meras anotações de números, telefones e contas várias. Outros, nomes para não esquecer – mas de quem são esses nomes? Contracheques (holerites, amigos paulistanos) das décadas de 1980 e 90; receitas médicas dos primeiros anos maduros; nomes femininos com inevitáveis endereços, coisas dos tempos joviais; recibo de depósito bancário... Não se fecham num enredo compreensível senão para mim, que os guardei por aí, mas são dados inegáveis de uma história de vida – a minha, claro! Encontrar velhos registros remeteu-me a outros alfarrábios (ah, jovens! Pesquisem... Não vou facilitar nada, não). Vi-me jovem professor, no limiar da década de 1960, manhã de domingo, em casa, cuidando de “passar notas” no diário de classe, a que também chamavam “decúria”; imagino que por associação de ideias, pois decúria quer dizer grupo de dez alunos; no nosso caso, cada diário de classe teria, pois, quatro decúrias (ou mais). Recordar aquele trabalho enfadonho de “passar notas” e acrescentar comentários veio-me à mente, porém, por outro tipo de associação de ideias: é que, num dado momento de sábado, recebi ligação de uma amiga professora. Conversamos brevemente e convidei-a para um café com prosa. “Ah, gostaria muito! Mas estou às voltas com os diários”. Estiquei a prosa. Fiquei pasmado ao constatar que, em 2010, nos primeiros dias do último bimestre letivo, o professorado de 1.024 reais mensais ainda é obrigado a dedicar horas e horas de folga, momentos que deveriam reverter-se no convívio com a família, instantes de boa leitura ou de lazer, de estudos ou de um cinema, essas horas, que se alongam pelas manhãs e tardes de um sábado, e bem ainda pelo domingo adentro, são trabalho antiquado, braçal mesmo, e, pior ainda, sem a paga equivalente. Ofício de mestres! Ah, como me atraía, desde os primeiros anos na escola, aquele sonho! Queria subir ao tablado, sentar-me atrás daquela mesa, pôr-me de pé ante o quadro de giz (que ainda se chamava quadro-negro), fazer argüições... De novo uma palavra em desuso: argüições! Notem que a escrevi duas vezes com trema. Como os moços não a conhecem, é preciso recorrer ao sinal assassinado pela recente reforma ortográfica: ar-güi-ção. Trema! O trema já me dá saudades. Argüição lembra-me sabatina, que era uma prova oral aplicada nos sábados de antigamente. Por extensão, a palavra passou a significar prova – uma prova de menor conteúdo, como um teste auxiliar no sistema de avaliação. Atualmente, a palavra sabatina tem sido aplicada para as argüições que o Congresso e os parlamentos estaduais e municipais aplicam a pessoas indicadas para alguns cargos, como uma avaliação de sua capacidade. E foi usada, também, pela imprensa em dados momentos da última campanha eleitoral, isto é, o primeiro turno das eleições, quando jornalistas e intelectuais convidados interrogavam candidatos a presidente e governadores. Assisti a duas ou três dessas tais sabatinas, e três dos candidatos ao governo de Goiás tomaram bomba em Língua Portuguesa. Mania de antigo professor, essa minha! Admito erros triviais de linguagem, seja na escrita, seja na oral; mas não dá para ouvir uma professora engolindo sílabas das palavras e preposições da regência, além de atropelar a concordância. O que dizer, então, dos que nunca fizeram da escola o seu habitat? Para estes, bastaram ler-e-escrever e realizar as quatro operações fundamentais – o que, agora, se faz com uma calculadora eletrônica, a cinco reais no camelô da esquina. Ziraldo, em suas palestras sobre Educação, costuma usar aquela velha figura: qualquer profissional que comesse a maçã da madrasta da Branca de Neve em 1510, , se acordasse hoje, levaria um susto: a carroça seria um trem ou um caminhão; uma galera, um suntuoso transatlântico; o judeu da banca de empréstimo e penhor, acordaria como um sofisticado executivo de banco; um esculápio com ventosas e sanguessugas, ver-se-ia numa moderníssima sala de cirurgia, tudo isso absolutamente informatizado. Um professor, ao despertar de um cochilo numa sala de aula de cinco séculos passados, simplesmente perguntaria à turma: “Onde foi mesmo que eu parei?”. Na quarta-feira, estive no Lyceu, em visita a professores amigos. Em meio a outras notícias, a professora (a que atualizava os diários), deu-me conta de que a Secretaria da Educação, finalmente, decidiu informatizar o registro de notas e outras ocorrências típicas do ofício do magistério. Enfim! Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. |