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Olhar Para Dentro E Longe Acabo, penso eu, de atravessar uma fase delicada em minha vida: a de olhar o passado através das peças de agora. Explico: é isso de olhar a estátua do Bandeirante Anhangüera num pedestal de palmeira imperial e recordá-lo na humildade do monólito de apenas três metros (tempo em que um pleibói que se tornou, depois, deputado, no verdor da adolescência, usava defecar na bateia do monumento, nas madrugadas solitárias de mil novecentos e sessenta e poucos); é isso de visualizar o Grande Hotel e lembrá-lo em atividade, as paredes térreas abertas e cheias de pequeninas lojas como livraria, agência de viagem, lanchonete, joalheria, butique... Claro, claro... Falo de Goiânia, meu habitat, como poderia me referir ao Rio de Janeiro, minha adolescência. Diverte-me perambular pelo calçadão de Copacabana recordando o tempo em que a areia, em sua localização natural, ocupava as pistas dos automóveis; ou adentrar o velho casarão 80 da Avenida Marechal Floriano e lembrar a época em que ainda a chamávamos de Rua Larga, a mesma do Palácio do Itamarati (sem aquele pernóstico Y que inventaram para a corporação diplomática em Brasília), do Ministério da Guerra (de então), da Light e, inevitavelmente, do Colégio Pedro II. Aqui, olho com tristeza o Liceu. Braço goianiense do secular colégio da antiga capital, a Cidade de Goiás que, com carinho, chamamos ainda de Vila Boa ou, com intimidade que incomoda alguns, Goiás Velho. A História de Goiás, desde 1846, não se escreve sem o ambiente do segundo colégio mais antigo do País. Mas, Deus meu!, que tristeza! Porque os governantes não respeitam o passado, hem? Porque os professores não interferem com enérgica autoridade para restaurar aquela dignidade? Nos anos de 1960, antes e após o golpe, era orgulho nosso perambular pela cidade com a calça, a camisa ou mesmo o uniforme completo do velho Liceu. Mas... Olhar o passado não é saudosismo doloroso, não. É acreditar no futuro. As vistas ao passado são a única forma de vislumbrar o que virá. Disse-me Kleber Adorno que olhamos o futuro com os olhos da razão, e o passado, com os da emoção. Pode ser que sim... Mas nosso passado é matemático, é imutável: é como foi; enquanto isso, o futuro é nosso sonhar. Logo, emoção e razão confundem-se como que numa festa, os lados direito e esquerdo dos nossos miolos pensantes a integrar-se, a interagir-se. Em Curitiba, ao participar da inauguração da Biblioteca Cora Coralina, numa escola de Ensino Fundamental do Município, demorei meus olhares e pensamentos para a garotada ali, uniformizada e interessada, olhando com curiosidade para o vovô-eu a falar de Cora e de Goiás, de infância e de ler-e-estudar. Lembrei-me da medida estranha do magistrado que determinou o relaxamento do uso de uniformes nas escolas públicas de Goiás (já falei sobre isso; ninguém me convence de que o uniforme não seja indispensável). Aquelas crianças, como as da Escola Pedro Siríaco, na Vila Concórdia, ou os da Escola Castelo Branco, no Jardim Guanabara, são veículo entre mim sexagenário e o menino tímido de cinqüenta anos passados. E aí, não me escapam as meninas Lucélia, torturada pela suposta mãe adotiva (na realidade, uma dedicada feitora de escravos dotada de crueldade incrível) e Isabela, assassinada com idêntica crueldade, supostamente pela madrasta e o próprio pai. Não: não precisamos estabelecer relações de paternidade ou criação entre algozes e vítimas. Basta que sejamos seres humanos, numa concepção que nos inspiram o Cristianismo, o Judaísmo, o Budismo e outros modos filosóficos: pensar é exercer filosofia; e pensar errado é negar-se a condição humana. E aí, incomoda-me a bestialidade de alguns dos que consideramos da nossa raça e... Será, mesmo, que essa delicada fase passou, para mim? Espero que... |