Questiono sempre as
pessoas que se dizem incrédulas,
essas que se recusam a admitir que
não somos apenas um ajuntamento de
água e elementos químicos. Fosse
assim tão simples, porque esses
ingredientes não permanecem sempre
iguais em seu estado natural, feito
mercadorias na prateleira dos
armazéns? Ah, dirão, é que há a
química... Permanecer em estado
natural é do campo da física; mas
esses elementos, quando se juntam,
interagem e geram novas coisas...
Ah, tá bom! Entendi.
E as idéias? E o raciocínio? Nesse
momento, qualquer resposta radical
materialista torna-se exemplo nítido
de preguiça mental. E ao
materialista fica, então, muito bem
aplicado, esse próprio conceito:
matéria.
Falava para uma platéia de estudantes, na última quarta-feira, no Colégio Pedro II, Unidade Tijuca. Entre um e outro poema, contei-lhes casos do meu tempo de estudante, de professores notáveis, do costumes e atitudes. Eram alunos de uma ampla faixa, isto é, de sexto ano até os que se preparam para o vestibular, três estrelinhas no emblema. Rimos juntos e aprendemos juntos: eles, ao me ouvirem; eu, apenas por conviver. Conviver com os moços é algo que não se define facilmente. Alguém me disse, há bem uns vinte anos, que até os quarenta anos, aprendemos com os mais velhos; depois disso, aprendemos com os mais novos.
Num intervalo de
cinqüenta anos, que é a diferença
entre mim e os mais novos daqueles
meninos, tudo muda. De tudo o que
tenho lembrança, entendi que o que
mais me marcava era a
timidez ante os mais velhos. Ou
mesmo entre meninos que não me eram
familiares. Essa timidez
desapareceu: o menino de hoje é
livre e solto, diz o que quer sem
peias, sem meias palavras. “Gostei
muito de seus poemas. A partir de
hoje, você é meu ídolo”, disse um
garoto do sexto ano. Comoveu-me, o
menino. Uma garotinha, também do
sexto ano e já com alguns poemas na
bagagem que sedimenta, talvez, a
poetisa das próximas décadas, a uma
observação minha sobre a decantada
onda de violência que assola o Rio
(e, enfatizei eu, toda a
humanidade), comentou com sabedoria:
“Violência existe em todo lugar e em
todos os tempos”. Também era do
sexto ano (e percebi que eram
aqueles, os do sexto ano, os que
mais se manifestavam).
Eu não quis contar
nada de novo a eles, no campo da
violência do bicho homem contra o
homem; isso está nos jornais e nas
tevês, está diante de nossos olhos
além da vidraça da janela do ônibus,
ou da moldura das nossas janelas;
não disse nada, também, sobre a
violência do ser humano contra a
Natureza (afinal, Carlos Minc me
antecedeu). Falei de poesia, de
esperança, de fé nas pessoas e na
capacidade humana de vencer
desafios. Temos o péssimo defeito de
cobrar perfeição e lamentar falhas;
mas a perfeição é um sonho utópico
que jamais aconteceu na história da
humanidade.
Agora, algumas horas
após esse encontro, ainda destrincho
as palavras e cenas, tento separar
pequenas peças, rejuntar tudo e
processar o meu aprendizado. Eles,
naquela idade, não se preocupam com
isso, pois têm tempo. E, com ele (o
tempo), muito o que ver, ouvir, ler,
pensar... O que eles vivem agora são
sedimentos de uma formação; em mim,
tudo isso vira saudade imediatamente
após.
Mas
não é só saudade, não... Fica um
sentimento profundo de gratidão: ao
menino que fui ontem, aos mestres do
meu tempo e a esses garotos e
garotas de uniforme. E, entre eles,
aqueles professores alegres e
valorosos (agora, novos amigos).


