Luiz de Aquino Alves Neto

 Os Tons Da Saudade

Os leitores mais chegados, estes de família ou de amizade longeva, costumam indagar-me sobre um toque de saudosismo que vislumbram nos meus textos. É que passeio o olhar pelos cenários e viajo ao passado, como no caso das edificações que se tornam marcos da História. Mas, digam-me, como não se emocionar ante os prédios que abrigaram vultos e fatos? Como não sentir o efeito do tempo na memória da infância? E como não verter água dos olhos ao encontrar amigos que o tempo manteve afastados?

Dia destes, um recado e uma foto: Luiz Carlos Carlan, menino de Marechal Hermes, o mais bucólico dentre os bairros suburbanos do Rio, colega de Pedro II, chega para contar que vem a Goiânia logo após o Natal. No mesmo dia, Sueli Catão, de Juiz de Fora, intima-me: "Como perder o dia do encerramento do Jubileu?". Ela se referia ao Jubileu de Ouro da Seção Tijuca do Colégio Pedro II, tema que já badalei aqui algumas vezes.

Fui, é claro! E levei o Lucas. Devia-lhe esta viagem, para meandrar pedaços da Bela Cap, os mesmos que eu menino percorria há quase meio século. Almoço na Confeitaria Colombo, com resquícios de Olavo Bilac, Guimarães Passos e Emílio de Menezes. Gonçalves Dias, Uruguaiana, Ouvidor, Largo da Carioca, Rio Branco, Quitanda, Marechal Floriano...

Na Marechal Floriano, a bela e velha sede do Externato passa por restauro. Lucas encantou-se no Salão Nobre, no pátio que ostenta, ainda, o sino que anunciava as visitas do Imperador, fotografou o busto de Bernardo de Vasconcelos (o regente que criou o Colégio) e, parece-me, saiu de lá contaminado pelo vírus que me acomete desde o Exame de Admissão, em janeiro de 1958.

Dia seguinte, a Tijuca. Festa de encerramento do Jubileu. Sueli, Eni, Rosa, Belassiano, Lídia, Maris... Tanta gente, sei que estou deixando alguns de fora, perdoem-me! Virgília, Fátima, Ângela, Consuelo, Eliane... Os ex-professores, melhor homenageá-los na pessoa de Dona Elza, nonagenária, que nos rege no Hino Nacional e no Hino do Colégio Pedro II ("Vocês ainda sabem a letra?", desafiou ela; e nós "Professora, como iríamos esquecer algo que a senhora nos ensinou?").

Mas a saudade não pára por aí. Naquela noite, minha tia Wanda, a mais velha da irmandade de minha mãe, despediu-se do mundo. Silenciosa como foi sua vida de últimos anos, deixou-nos. Contive, ou me tentei, ao menos, num curto poema de despedida:

Mãe e forma

Que pouco este tempo, mulher! / Escassas as décadas / da tua vida entre nós.

Viveste anos / de fartura e pobreza, de paz e de sangue. / Houve o tempo de amar e parir –  e nascemos.

Aos teus olhos, Mãe, fomos pétalas / da mesma florada. Mas somos cores / de caleidoscópio, ventos / de tantas origens.

Somos o sangue teu / espargido nas ondas sem destino. / Como tu, geramos outros que, feito nós, / conquistam espaços e costumes.

Sonhamos, queremos, erramos, / fazemos e indagamos. Por crescermos, / somos distantes; os anos nos trazem de volta, / mas chegamos tarde, Mãe.

Doeu-nos o teu silêncio. Doeu-nos / a tua voz, que só há no passado. Mas sabíamos-te aqui. / Hoje, não mais teu corpo, pequenino e frágil. / E triste ficamos, por tua ausência.

Mas resta a lembrança, teu nome / e nosso amor, / que agora é saudade.

         Entendo que são dois tons de uma mesma cor: a saudade. Saudade doce que enleva os sentimentos, ao sentir a história e ao reencontrar pessoas; e saudade triste de olhar para o futuro com a certeza de que foi esta a última vista.

Felizmente, eu estava lá, com Teresinha e Ana Maria, e senti que, na ausência do Leonardo (os três filhos da minha tia), fiz-lhe a vez. No peito, um desejo que vale a prece: Descansa em paz; se possível, no convívio dos que te recebem, minha Tia!

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