Luiz de Aquino Alves Neto

 Paisagens E Janelas

Quem mora em apartamento, mas já viveu em casa, sabe o quanto é difícil acostumar-se com a frieza dos edifícios. A gente vive numa proximidade física inversamente proporcional à proximidade daquilo que, quando se mora em casa, se chama vizinho. Imaginem! As pessoas a uma distância tão próxima que muitas vezes sabemos do que se passa em suas casas apenas por ouvir. Ouvimos suas músicas preferidas e as turras das crianças e adolescentes, a algaravia dos jovens, as discussões entre pais e mães, as broncas de sogras, as fofocas das empregadas; sentimos os cheiros de suas comidas, percebemos os olhares de paixão de suas filhas moças, a angústia pelas notas baixas, mas não somos vizinhos: somos, sim, solenes estranhos que se atrevem a cruzar com eles nos corredores e no saguão, bem como a lhes dar bons-dias nos elevadores.

Goiânia, até os anos 60, ainda era uma cidade de casas. Apartamento, aqui, era raridade. Aliás, ao entrevistar o advogado Wagner de Barros para o "Onde anda?" (uma série de entrevistas para o DM, em 1994, que acabou se tornando o meu livro Deu no jornal), ouvi dele que o primeiro apartamento da nova capital foi construído sob a batuta de seu pai, o gerente do Banco do Brasil Benedito Borges Barros. Tratava-se da residência do gerente na nova sede da agência local do banco, na esquina da Avenida Goiás com a Rua 1, no centro, prédio hoje ocupado pelo Banco do Estado. As pessoas da cidade, contou-me ele, visitavam a família para conhecer um apartamento. Isso, lá pelos anos 40.

A vida moderna é assim, infelizmente. É bom que Goiânia ainda conserve muito de casas, muito de bairros formados daquilo que os arquitetos e outros técnicos chamam de habitações individuais – as casas. Família morando em casa tem vizinho, e vizinho é quase um parente. Cora Coralina, já idosa, para escapar das constrangedoras festas pelo seu aniversário (20 de agosto), institui na sua Goiás Velho (tem gente que não gosta que se fale assim; eu gosto, tem um sabor de visita ao nosso Goiás bucólico) o Dia do Vizinho. Os vilaboenses gostam de festejar o aniversário da poeta maior trocando doces, salgados e quitandas por sobre os muros ou de porta em porta.

Apartamento obstrui a paisagem. Aqui em casa, no oitavo andar, desfrutávamos, há seis anos, da paisagem de 180º – a outra metade já nos era tomada. Aos poucos, outros prédios foram surgindo e em pouco nada nos restará senão a visão panorâmica de infindáveis janelas. Janelas indiscretas, como naquele antigo filme com James Stewart.

Na falta do verde e das ruas esquadrinhadas, divirto-me à janela vendo janelas. Vejo janelas pela sacada e pelas janelas de frente, e vejo sacadas e fundos de apartamentos pelas janelas do fundo. Vejo um vizinho sem camisa ao computador, possivelmente navegando pela Internet. Donas de casa na lida, filhas mocinhas ajudando, empregadas cometendo erros censuráveis porque a patroa trabalha fora...

O morador de um quinto andar, possível vivente sozinho, todo nu, prepara sua comida ao fogão, sem temer queimar o precioso ou inválido – mas de qualquer forma, sensível, e tão ao alcance das panelas.

No prédio em frente, ao pôr do sol, pelo menos duas moradoras praticam esporte em aparelhos domésticos – uma na bicicleta, outra na esteira.

Ao fundo, na sacada, um moço fuma, deixando evidente que respeita a família e não polui o ambiente com o excesso de fumaça. Quando acaba, pressiona o toco do cigarro em algo que imagino um cinzeiro; vai lá dentro e volta com uma menininha de pouco mais de um ano ao colo. Abraça-a com ternura, beija-lhe a fronte. Afaga-a como um menino envolve seu brinquedo preferido.

Salto a imaginação para o futuro e vejo a menininha de cabelos pretos já moça, chegando da faculdade, mãos dadas com um amigo ou namorado. O pai, cabelos brancos, sentado na sacada, fuma. Ele já terá descoberto que seu brinquedo da mocidade agora é gente grande também.

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.
E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

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