Luiz de Aquino Alves Neto

Perdoe-nos África!

Os complexos de comunicação, em qualquer lugar do mundo, costumam exercer de fato o papel de “formador de opinião”. Não gosto dessa expressão. E muitas vezes preciso dizer às pessoas que “me acusam” disso aí: entendo que seria desrespeitoso acreditar que, pelo mero fato de ganhar a vida produzindo textos e(ou) análises do quotidiano, nós “formamos opiniões”.

A gente observa e repete fatos, desde as questões do cidadão comum até o modo de ser dos tais líderes políticos. Nós, jornalistas e escritores, pomos nas letras as informações que devemos repassar, bem como as nossas ideias sobre vários assuntos. Quem “forma opinião” é o leitor, que recebe informações e as processa.

Vejo aí, nos canais de informação, tanto na mídia escrita quando na eletrônica, algumas palavras sofrendo um processo desagradável de má interpretação. Por exemplo, aquilo de chamar de “herois” os aventureiros do inútil; refiro-me, é claro, aos participantes desses dispensáveis programas de tevê a que chamam reáliti xou.

Ah! Os coleguinhas do esporte também chamam de herois os jogadores que atingem melhor desempenho num jogo. Mas não veem heroísmo algum em quem produz, sob sacrifício de sua integridade física e risco da própria saúde, nos setores industriais, de segurança e da coleta de lixo, por exemplo. A estes, um apresentador de tevê agrediu de modo mesquinho, porque dois garis desejavam “feliz ano-novo” aos telespectadores.

Agora, os noticiários trazem a mais recente intenção oficial nacional: a concessão de uma “aposentadoria digna” aos “herois” do futebol, ou seja, aos que se tornaram campeões mundiais pela Seleção Canarinho e que, hoje, estão em situação de pobreza. Mas, estranhamente, nenhum governante, de Maluf (que deu fusquinhas aos “herois” de 1970) a Lula (que quer dar a bolsa-esporte), parou para considerar que a Nação deve muito aos professores, que têm formação superior e ganham algo em torno de dois salários mínimos para formar (eles, sim, são formadores de cidadãos) nossos filhos.

Não bastasse tudo isso, o presidente Lula da Silva é multado por praticar propaganda eleitoral indevida em programa partidário. Isso é ruim, isso envergonha a Nação. O presidente, como principal mandatário, devia, isto sim, desvincular-se do partido tão-logo eleito, de modo a exercer a Presidência da República com isenção de paixões.

Um presidente assim mereceria, de fato, ser chamado de estadista. Poderia, talvez, comparar-se a Nelson Mandela. Mas o presidente Lula tem comparado a candidata Dilma a Mandela. Que disparate, gente! Concordo com uma repórter de rádio que afirmou: “A ex-ministra Dilma não fez história ainda sequer dentro de seu próprio partido”. Infelizmente, isso é verdade. E o presidente abandona a dignidade do mais elevado cargo público da Pátria para nivelar-se (por baixo) com a sordidez das acusações mesquinhas. E ainda é condenado pela Justiça ao pagamento de multa...

Isso é feio. É ruim. É triste.

Vai daí, entendo que este é um ano atípico. Um ano de eleições nos âmbitos estaduais e federal do nosso País, mas um ano de campanhas sujas. A gente sente, desde já, o mal-estar reinante nas mensagens dos principais candidatos à sucessão de Lula da Silva e isso já indica que, nos ambientes estaduais, a prática há de se repetir.

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

 E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com
 

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