Luiz de Aquino Alves Neto

Pessoas da vida da gente

Em pouco mais de trinta dias, alguns parentes e amigos deixaram mais pobre o meu convívio. Nesta jornada, o primeiro deles foi Odini de Carvalho, marido de minha prima Regina Célia Ríspoli; depois, Delermando Vaz, que deixou Eneida, minha amiga de inf… Não, não é de infância; Eneida é minha amiga de nascença, pois só uns poucos meses nos separam. E aí veio o Zé Reis, parceiro de inúmeras atividades em torno da SOAP e da APLAM – respectivamente, Sociedade dos Amigos de Pirenópolis e Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música.

E não acabou; poucos dias após o desenlace de Zé Reis, foi a vez do meu primo Luiz Augusto Machado, marido da Wanda. Cada caso desses abriu um vazio no coração e na esperança. Fica aquele mal-estar quando a lembrança nos induz a pensar “Vou perguntar isso a ele”, e em seguida damo-nos conta de que ele não nos responderá. Foi assim nos primeiros anos depois que minha mãe se foi; foi assim depois da viagem sem retorno de muitos outros. Está sendo assim novamente.

O remédio é aceitar. Até porque, vencida a metade da minha década de sexagenário, tenho a convicção de que desço a rampa. E como tristeza é péssima companhia, sobretudo para a velhice, decidi que preciso ocupar o vazio que me dão os que se vão com fatos e gente nova. Faço novos amigos, preencho a vida, escrevo coisas novas, curto festar de muitas naturezas.

Quinta-feira é dia de eu escrever a crônica dos domingos no DM. Nesta quinta, haveria festa – afinal, é aniversário do Gabriel, meu neto mais novo. Ele não está aqui, ao lado; satisfaço-me em imaginar o beijo que não lhe dei e mandar nos sonhos e outras naves da imaginação muitos mimos e carinhos, esperançoso de um futuro bonito e colorido para ele, que tem nome de anjo e que deve fazer jus a isso.

Outra alegria é em torno de meu pai, a poucas semanas de completar 89 aninhos de peraltices várias. Nativo de Pirenópolis, siô Israel, ou Véi Raé, ou tio Raé (como era chamado por jovens colegas de trabalho) mudou-se para Caldas Novas em janeiro de 1940. Logo, enturmou-se com José Pinto Neto (pai da Eneida, que citei no primeiro parágrafo), dedicando o tempo de folga ao violão e às serenatas – Zé Pinto ao saxofone, meu pai ao violão; depois, o bandolim substituiria o sax.

Em 1942, minha mãe – Élia Borgese, mineira de nascimento, carioca por vivência – chegaria a Caldas Novas, levada pelo tio Dedeco (pai da Regina, também citada no começo desta crônica); atraída pelos acordes e valsas do moço seresteiro, Dona Lilita (era o apelido dela) deu bola a ele e acabaram por se casar, gerando cinco filhos.

Em 1944, casaram-se; em setembro de 1945, nasci eu, primogênito e mais belo que os outros. Nestes quase 70 anos, a única perda na família foi minha mãe, desencarnada em 2004, a poucos meses dos 60 anos de casados. Eu deixei  a família aos dez anos de idade, fui morar com minha avó materna, no Rio de Janeiro; era plano de minha mãe desde o meu nascimento: enviar-me para os cuidados de Dona Ignez para que eu pudesse estudar.

Meu pai, empregado no comércio, tornou-se por uns poucos anos dono de seu próprio negócio; mas faliu e voltou ao “status” de empregado, mantendo-se digno e respeitado por sua honradez para com os compromissos e o modo singelo de ser, tanto ante as pessoas humildes quanto às  poderosas.

É complicado falar da gente; dos muito próximos, também. Dói muito falar dos que partem, e é prazeroso contar que, após 71 anos de vida na cidade, meu pai receberá – como se programou para a próxima quarta-feira, dia 8 –  o título de Cidadão Honorário de Caldas Novas. Meus conterrâneos, disse-me um deles, sequer imaginam que “o Raé  não nasceu aqui”.  Por isso, talvez, tanta demora... Ainda na década de 1990, minha mãe foi agraciada com a mesma honraria, mas nunca a recebeu; primeiro, ela esperava reunir os irmãos, que moram no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul; mas antes que isso acontecesse, ela adoeceu e veio a falecer.

Agora, o meu velho, o Véi Raé, recebe essa distinção!

Estou muito feliz por isso, e agradeço a iniciativa dos amigos e confrades da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas – especialmente a professora Marília Núbile e o presidente, dr. Albery Mariano. E, também, aos vereadores de minha terra, especialmente o presidente da Câmara, André Rocha, e o autor da proposta, Celso Guaíra.

Até por aí, Caldas Novas; quarta-feira, sem falta!

 

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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


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