Luiz de Aquino Alves Neto

Privatizem a Educação!

Alinho-me com os defensores da educação pública e gratuita, em todos os níveis, desde sempre, quero dizer, desde que cursei a Escola Pública (nome que se dava ao Grupo Escolar no Distrito Federal do Rio de Janeiro), o Colégio Pedro II e o Liceu de Goiânia (no meu tempo, apelidado oficialmente de Colégio Estadual de Goiânia).

A Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Goiás – hoje, Pontifícia Universidade Católica de Goiás – foi uma escolha livre, orientada pelos meus professores de Liceu. Naquele momento, e ainda que a Faculdade de Filosofia (hoje, com as devidas mudanças, Faculdade de  Educação) da Universidade Federal de Goiás estivesse do outro lado da Praça Universitária, havia, sim, a nítida preferência pela metodologia dos padres jesuítas que dirigiam aquele centro de formação de professores para o Ensino Secundário (ginasial e colegial).

Naquele tempo, as décadas de 1960 e 1970, professor era profissional respeitado. Naquele tempo, estudar em escola pública, sobretudo nos níveis primário e secundário (tudo o que antecede a universidade) era nobre – a escola privada era para o aluno relapso (aquele que não conseguia passar em exames de admissão e de seleção).

Aí, veio a famigerada Lei nº 5.692. A ditadura dava um golpe de misericórdia no ensino, que não ia lá muito bem, mas piorou o bastante para depreciar de vez o ensino público. Quem lucrou com isso? Ganha um pirulito quem marcar um X ao lado de “Donos de escolas particulares”. Incluam-se aí as redes religiosas – católicas e protestantes – e os barões do ensino. Um cursinho de São Paulo espalhou-se pelo Brasil afora (ou adentro, tanto faz), instituindo no sistema de ensino as franquias, tal como ensinavam fabricantes internacionais de refrigerantes e outras marcas menos populares.

Dói no coração de qualquer ex-aluno do Lyceu de Goiânia (agora, com Y; mas a gente escrevia Liceu) ver o prédio histórico e seus muros agredidos, sempre sujos de lama e marcas de pichadores. O prédio da Rua 15, construído por Mauro Borges e inaugurado por Ribas Júnior, é o que mais sofre: até os quadros-de-giz são pichados.

Recentemente, participei de momentos literários em três colégios de Goiânia – o estadual Waldemar Mundim, no Jardim Guanabara; e os municipais Geralda de Aquino, na Cidade Jardim, e Trajano de Sá Guimarães, no Parque Amazônia. Três escolas muito diferentes do Lyceu... Na Trajano e na Waldemar Mundim, não vi a marca dos vândalos; na Geralda de Aquino, aonde fui numa noite, não tive tempo para observar esse detalhe, mas se o tem é de menor escala, não me feriu os olhos (nem o coração).

O Estado tenta escapar da pecha de péssimo gestor de ensino investindo em colégios cedidos para a gestão da Polícia Militar. Nada contra, pois instituições como SESI e SESC mantêm excelentes escolas (meu filho Lucas cursou o que chamo de antigos ginasial e colegial no SESC Cidadania; estou muito feliz por isso, e nesta última semana ele e seus colegas despediram-se do colégio do Jardim América com indisfarçáveis emoções ); congregações católicas e denominações protestantes já são tradicionais no ensino brasileiro. Mas das polícias militares – e não restrinjo isso apenas a Goiás – esperamos segurança; mantenha ela seus colégio, mas é absolutamente necessário que a Educação seja gerenciada e aplicada pelo sistema de Educação – Ministério da Educação e Secretarias estaduais e municipais do ramo.

Mas – repito – o Estado (nos três níveis) tem se mostrado incompetente ou, ao menos, muito despreparado para cumprir o dever de casa. Sendo assim, e usando o argumento do sistema de telefonia, entre outros, que o Estado brasileiro desista de gerir escolas; privatize tudo e crie uma versão para os ensinos pré-escolar, fundamental e médio de modo a assegurar a presença de todas as classes sócio-econômicas no sistema nacional de ensino.

Há mais de 50 anos acompanho as lutas pela qualidade de ensino. Existem ilhas de excelência até mesmo na rede pública (vi o empenho e a alegria de estudantes e professores das escolas Waldemar Mundim, Geralda de Aquino e Trajano de Sá Guimarães, entre outras a que tenho comparecido), mas existem a perseguição pessoal e(ou) política aos que tentam oferecer algo de diferente em alguns educandários (que triste! Neste particular, tenho de citar o meu Lyceu).

O que tenho visto é um certo bem-estar do professorado da rede privada e a incontrolável angústia que predomina entre os mestres da rede pública.

Então, senhores políticos descompromissados com o futuro: assumam sua intolerância para com o certo e saiam do armário dos covardes: privatizem! E, de preferência, nos setores de cultura e educação, confiem nas instituições classistas fora do sistema oficial, como SESI e SESC. Professores são formados nas mesmas escolas, seja para o ensino público, seja para a rede privada. Mas o poder público, no que tange à Educação, está falido. E professor só é desvalorizado se empregado da rede pública.

 Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da AGL...

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