Luiz de Aquino Alves Neto

Professor Gomes Filho, ano 100!

Era 20 de agosto, em 1910. Na capital do Estado, a cidade de Goiás, uma moça chamada Ana, moradora de um casarão incrustado na barranca do Rio Vermelho comemorava seu aniversário de vinte anos; em Pirenópolis, na Rua do Rosário, pertinho do Largo do Rosário, nascia o menino Joaquim.

Ana, ou Aninha, não imaginava, talvez sequer sonhasse, que cinquenta anos depois começaria a ser conhecida em todo o país devido a uma referência forte e positiva do poeta mais admirado da época (Carlos Drummond de Andrade). Mas Aninha, a da casa velha da ponte da Lapa, tornou-se, antes da fama, Cora Coralina, a poetisa que fazia doces. Gomes Filho, lá pelos 12 ou 13 anos de idade, deixou Pirenópolis a cavalo, pegou um trem na ponta da linha (Pires do Rio, talvez) e desembarcou em Uberaba, foi fazer exames e habilitar-se à escola regular.

Contou-me ele, lá pelos idos de 1978, que após a argüição ante um professor de Francês, este anotou em sua ficha: “Deuxième année” (segundo ano). Atrevido, o menino de Pirenópolis tomou a caneta da mão do mestre, riscou a expresssão “Deuxième” e substituiu-a por “Trosième” (terceiro). O mestre admirou a coragem do garoto e aquiesceu: Joaquim Gomes Filho matriculou-se no terceiro ano do Ginásio Diocesano.

Notabilizou-se pelo tirocínio, ou seja, a rapidez de raciocínio com que reagia às situações de momento. Essa capacidade mental, aliada ao gosto pela leitura e pelos estudos, fizeram dele, além de contador por formação, notável professor, com amplo domínio da Língua Portuguesa e sua gramática. Texto fluente e límpido, ideias claras e com bom fundamento filosófico, jornalista e político, dirigiu importantes escolas em Pirenópolis e Goiás. Por concurso, tornou-se Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Goiás, ao tempo em que os conselheiros eram chamados de ministros e aposentou-se em 1963, depois de ter exercido, mais de uma vez, a presidência do órgão.

Tinha também sólida formação católica e orgulhava-se das coisas culturais das cidades de Pirenópolis e Goiás. Certa vez, Pirenópolis em festa recebia obras do governo estadual e Gomes Filho foi convidado a saudar o governador Irapuan Costa Júnior, de quem foi professor. Discorria, de improviso, sobre as coisas de Pirenópolis, obviamente exaltando a história e os costumes locais quando notou, na Banda Fênix, formada diante do palanque, um menino, pequenino, portando uma requinta (instrumento parecido com a clarineta). Interrompeu e perguntou ao menino seu nome e idade. O guri respondeu e Gomes Filho exaltou a precocidade daquele instrumentista: “Como se vê, governador, esse menino tem apenas dez anos e já toca requinta na banda. Aqui, todos já nascemos requintados”.

Seu amigo José Sizenando Jaime, meu mestre no curso de Geografia da Universidade Católica, escreveu uma importante obra sobre a cultura popular dos pirenopolinos e dedica boa parte do livro aos trocadilhos inesperados de Gomes Filho. A propósito, e respeitando a cronologia, Gomes Filho, José S. Jaime e José Veiga formam, para mim, o trio de maior requinte dentre os nativos de Pirenópolis (Veiga nasceu no município vizinho, Corumbá de Goiás; mas, digam-me, como fazer diferença entre as duas cidades, distantes apenas 17 km por rodovia?).

Seguindo a Rua do Rosário em direção ao Largo, onde hoje há o coreto, lembrei-me do que me contou Gomes Filho sobre o local de seu nascimento: a  penúltima casa do lado esquerdo de quem chega ao Largo do Rosário, era ali que morava minha família. Pertencia a Chico de Sá, o dono da casa grande voltada para o largo onde, na época, existia a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, demolida em 1947. A casa seguinte foi construída pelo pai de Joaquim Gomes Filho, em terreno doado por Chico de Sá. Nela, o professor passou a infância até sair para o aprendizado das escolas e do mundo.

Desfrutei de seu convívio desde 1977, quando, com muita timidez, abordei-o no canteiro central da Avenida Goiás, em frente ao Grande Hotel (esquina com a Rua Três). Disse-lhe o meu nome e ele identificou-me como o neto mais velho do maestro Luiz de Aquino, seu amigo, falecido em fevereiro daquele ano. Falei do livro que estava escrevendo e pedi-lhe orientação, sendo imediatamente convidado a ir à sua casa, na Alameda das Rosas. Fiquei rico com esse convívio: ganhei, além de excelentes conselhos, uma meticulosa revisão em meus originais (a gráfica cuidou de estragar, e muito, o texto ao digitá-lo, com os recursos gráficos da época). De quebra, ganhei também um belo prefácio para o meu livro de estreia.

Haveria mais: era prefeito de Pirenópolis Altamir Mendonça. Ajudou-me com uma parcela do custo gráfico do livro e ofereceu-me também um coquetel de lançamento, no qual o professor Gomes Filho discursou de improviso e brilhantemente, como sempre.

Ah! Estou tocado de saudade... E de emoção, é claro! Afinal, dia 20 de agosto próximo, Pirenópolis precisa parar por uns instantes. É tempo de reverenciar um de seus mais importantes vultos, o contador, professor, jornalista, diretor de escolas, deputado, conselheiro, pai de quatro belas filhas e um tanto de netos e bisnetos. É tempo de convidar a família e os amigos sobreviventes (Jorge Braga há de produzir uma nova caricatura, estou certo). Vamos reunir pessoas para recordar e reverenciar o mestre.

Para mim, um ídolo!

Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras, escreve aos domingos neste espaço. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com/. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

 

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