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Professor: profissão de risco A violência nas escolas continua sendo ignorada pelas autoridades. Ao que parece, as altas cúpulas da Educação e da Segurança não conseguem despertar, nos parlamentares, a sensibilidade capaz de buscar medidas que alcancem a paz nas escolas para que, no futuro, num “dia feliz”, possamos dar início à tão sonhada Era da Educação no Brasil. Somente no decorrer desta última semana, há sete dias da minha crônica mais recente (“Fé na vida e na Pessoa”), vi na tevê reportagem que nos mostra o quanto alguns países asiáticos avançaram, em poucas décadas, em tecnologia e qualidade de vida. E vi também que o Brasil, apesar de alguns festejarem “um avanço” na avaliação do ensino público, continua num humilhante 53º lugar, num grupo de 64 países avaliados. E vi também o programa Profissão Repórter, da TV Globo, a mostrar o clima de terror que se impõe contra professores e funcionários das escolas. Os algozes são adolescentes, na maioria. Mas há crianças agressivas, também, além de jovens adultos, como o que, poucas horas antes de o programa de Caco Barcelos ir ao ar, matou o professor que “lhe deu” nota baixa (nota alta é mérito do aluno; nota baixa, perseguição do professor). Ao ser preso, na manhã seguinte, o assassino disse que “se sentia perseguido” pelo professor. Há alunos, em escolas públicas e privadas, que agem em bloco para irritar um professor; quando o mestre cai na trama, é filmado por celulares e acontece a reclamação no Ministério Público ou em órgãos superiores da Educação. Uma garotinha de oito anos sugeriu, numa escola municipal de Goiânia, que a professora “limpasse o quadro com o c*”. Sem perder a postura, a professora chamou o pai da criança, que atendeu de pronto (coisa rara, é bom que eu diga); ao ouvir o caso, o pai pôs-se a rir. Exigir uniformes e respeito aos horários faz de diretores, professores e funcionários inimigos que se tornam ameaçados e agredidos por crianças que se mostram hábeis na verbalização de impropérios e adolescentes que atacam de várias formas: um tapa ou soco, o arremesso de uma carteira, e até o uso de facas, revólveres, estiletes e lâminas de barbear. Traficantes que atuam em torno das escolas, disfarçados de vendedores de guloseimas ou lavadores de automóveis, invadem pátios de escolas para obter água e usam os muros para inscrever avisos, como preço do serviço etc.). E aliciam estudantes para distribuir drogas. Alguns importantes órgãos de gestão e fiscalização do ensino acolhem, sem a investigação racional, acusações contra dirigentes bem intencionados. Qualquer estudante com objetivos de mera contestação, ou pais que preferem o conflito à conversa e almejam resultados políticos (desde a eleição de diretores e secretários até a corrida por uma cadeira na Câmara de Vereadores) manipulam a Educação para atingir seus objetivos. E os dirigentes, com os salários que todos sabem ridículos, assoberbados com os afazeres, ainda têm de perder tempo para defender-se de acusações levianas formuladas por maus alunos ou, pior ainda, por supostos líderes estudantis que, com o tempo dedicado “à causa”, já seriam doutores acadêmicos, se os partidos que detêm o controle de entidades estudantis (?) lhes permitissem de fato estudar. É fato que há professores ruins, mas são tantos ou menos que o índice de policiais corruptos; a diferença é que não se tem medida coercitiva contra o mau professor. É mau professor o que não tem conteúdo nem competência didática e (ou) pedagógica; é mau professor o que se vale da posição para assediar alunos (atitude anti-ética que se mistura, muitas vezes, com o crime de pedofilia); é mau professor quem faz da cátedra um púlpito eleitoral de qualquer natureza, sobretudo de política partidária. A escola pública brasileira assemelha-se, hoje, a um “Complexo do Alemão” espalhado. Já passa da hora de uma ação eficaz para sanear o sistema. E, ao mesmo tempo, é indispensável que se cuide, já, de reavaliar a remuneração e as condições de trabalho dos profissionais da Educação. Os professores devem ter a chance de viver com um só emprego. Merecem, para tanto, ser incluídos na PEC 300 – essa que propõe a remuneração digna para policiais e bombeiros militares de todo o país: quatro mil reais para professor; para mestre, sete mil reais. Enfim, meu recado ao pai que riu ao saber que a filhinha de oito anos mandou a professora “limpar o quadro com o c*”: – Cuidado, moço! Daqui a uns quinze anos, sua filha poderá matar uma professora, em lugar de ofender com palavras. Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. |