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Professores E "Ensinantes" Programa Mais Você, da Ana Maria Braga... Bons temas, boas entrevistas com gente famosa em que, como quem não quer nada, a apresentadora mostra o lado "gente" dos notáveis. E a gente, que é gente comum, encanta-se de saber que os famosos têm as mesmas carências e necessidades, as mesmas preocupações que nos afligem. Esses programas de tevê, mais que as matérias escritas em revistas e jornais, mostram-nos a realidade da diversificação social no país. Não falo dos estratos sociais, da pirâmide da renda nem das camadas de poder, mas dos tons culturais das regiões e sub-regiões do Brasil. E entre o fogão e as falas, temperos e cheiros, as palavras mandioca, macaxeira e aipim surgiram, nesta ordem, para contar a todo o Brasil do que se tratava. Palavras, palavras, palavras... Vendo aquele movimento todo, avalio o país continental que é nosso berço e sua riqueza idiomática. Ah!, esta Língua Portuguesa do Brasil, um dos maiores vocabulários de todo o mundo... E ainda que não pareça necessário, estendemos alguns substantivos a funções assemelhadas. Como chamar de carteiro todo e qualquer funcionário dos Correios, tão simpática nos é a função. Ou chamar de professor a todo o que ensina algo. Médico... Não, este não. Médicos são só os que se formaram em medicina; nada de estender o título a dentistas, farmacêuticos e fisioterapeutas. Pois é, taí: em se tratando de professor, o título virou apelido. Vamos ver: nas ruas, no comércio etc., é comum as pessoas mais simples, como camelôs, feirantes e vigias de carro nos chamarem de "doutor". Escuto a palavra com cuidado: olho bem para quem a diz a mim e mantenho-me em defensiva, pois sempre adivinho a ironia na fala da pessoa... Pois o mesmo acontece com a palavra professor. Antes de se criarem as faculdades de filosofia no Brasil, era professor todo aquele que, sabendo alguma coisa, postava-se entre uma turma de estudantes e o quadro-negro e expunha o que sabia. Mas aí surgiram as escolas de universidades que ensinavam conteúdos (para ensinar, há que se ter conteúdo) e disciplinas didáticas (para ensinar, há que se ter didática). Mas a figura do "ensinante" ganhou o apelido genérico de "professor". Estranhamente, muito poucos apresentam-se nos vestibulares com o propósito "quero ser professor". Eu fui um desses: queria, sim, ser professor e estudei para isso. Sempre me orgulhei muito do título que adquiri pelas vias regulares e legais. E entendo que professor não é só a pessoa que se põe em pose de ensinar: há que ter obtido grau de licenciatura. Os demais, ainda que em nível universitário, não são professores. São instrutores. Ou "ensinantes". Mas professores, por tradição nacional, exercem algo que sempre chamamos de "sacerdócio do ensino" (a categoria que melhor simboliza isso é a das normalistas, as tradicionais professorinhas de primário, formadas em estabelecimentos chamados de "instituto de educação" ou "escola normal"). Muitas ainda existem delas, em várias camadas... E surgiram os professores de licenciatura, os que se formavam para lecionar nos ginásios e colégios. Infelizmente, ainda hoje, muitos são os que conseguem furar o bloqueio das escolas e tornam-se "professores" sem licenciatura. Nas universidades, então... Estas acolhem os formados que não se adaptam (ou receiam) o mercado de trabalho; cursam mestrado e doutorado e vão ser "ensinantes", usando o título de "professor" sem jamais terem assistido uma aula ou aberto um compêndio sobre Educação. Estes não deviam ser chamados de professores, não.
Engraçado é que, nas mais variadas gamas das atividades acadêmicas,
tornam-se mestres e doutores, mas ignoram com solenidade a língua pátria
e cometem falas condenáveis até por bons alunos de oitavo ano
fundamental. São os que, no meio acadêmico, já são chamados de "doutores
peões". Ou, ainda, de "professores". Infelizmente. |