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Quero O Fim Dos Carimbos Qualquer brasileiro no patamar dos 60 anos ou mais, premiado com tal longevidade apesar do trânsito, das rodovias ruins, da violência das ruas, da ocasional medicina ruim, da ditadura militar, dos abusos policiais (sob qualquer regime) e dos grupos de extermínio (desgraçadamente defendidos por uma minoria descarada e cínica) e de tantos outros obstáculos (como as epidemias e as endemias, os suicídios e os crimes passionais) há de lembrar-se do tempo em que uma família tinha muito poucas contas a pagar nos finais dos meses. A água era de cisterna, filtrada e (ou) fervida, conforme a necessidade e a conveniência; a energia elétrica mantinha as lâmpadas (poucas), o rádio e, em algumas casas, uma geladeira; telefone era artigo de luxo nas grandes cidades e inexistente nas pequenas; eram poucos os impostos e quase não se comprova a prestação. Havia a saudosa caderneta do armazém e a da padaria. Vida simples, se comparada com a de hoje. Uma casa ou apartamento de dez anos atrás não dispõe de tomadas suficientes para os aparelhos de tevê e devedê, som e computador (com os indispensáveis periféricos). Na cozinha, alem da geladeira, temos o frízer, o forno elétrico, o de micro-ondas, a batedeira, o liquidificador e outros mais, e temos ainda a máquina de lavar louças, a de lavar roupas, a secadora etc. e tal. Com isso tudo, multiplicam-se as contas a pagar: cartões de crédito, cheque especial, carnê do carro e de móveis, carnê da escola regular e da academia de ginástica, do curso de línguas, do preparatório para concurso, as contas dos telefones (o fixo e os celulares), o condomínio, os impostos parcelados e tanta coisa mais! Triste é pensar que a cada conta, ao final do ano, temos nada menos que doze recibos a serem guardados por pelo menos cinco anos. Ou seja, cada item nos exige um arquivo de sessenta comprovantes. Isso sem falar no volume de papéis que temos de mostrar em qualquer lugar, seja escola ou banco, empresa do seguro de saúde e mais etc. e tal. E as cópias autenticadas? E as tais de firmas reconhecidas? Houve um temo, há cerca de 25 anos, isto é, no tempo de João Figueiredo, o general presidente, em que a imprensa divulgou uma palavra talvez nova: desburocratização. E tinha um sinônimo Helio Beltrão, nomeado ministro para desburocratizar. Ele sugeriu o fim do reconhecimento de firma para um mundaréu de papéis, bem como das caras e nunca confiáveis autenticações de fotocópias. Bastou entrar Sarney para que o “lóbi” dos cartórios fizesse recrudescer a burocracia a plano vapor, e só agora, no segundo mandato de Lula Inácio se tem um aceno pela simplificação das coisas. Tomara! Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.co |