Luiz de Aquino Alves Neto

Razões de mestre

 

Pessoa amiga, com quem, quase todos os dias, troco frases de informação e amizade, veio-me com essa:

–  Tomei uma decisão: vou mesmo requerer minha aposentadoria – escreveu-me via MSN; e continua –  Juro, não suporto mais o nível dos meus colegas. É um tal de "vamos estar fazendo”; estou ‘meia’ gripada” e ainda  “nós, ‘enquanto’ educadores...”.

Ah, que pena! Queria guardar surpresa e contar somente no final o ambiente em que ocorrem esses diálogos, mas não consegui. A minha lingual coçou e entreguei as pérolas de linguagem dos professores. Sim, senhores: essas falas são de professores universitários!

Há décadas venho contando absurdos anotados no meio do ensino de todos os níveis. Há uns doze ou treze anos, Lucas, meu filho (na época, recém alfabetizado; lia tudo o que  lhe aparecia em letras). Na escola, onde cursava a pré-escola, implicou por ver, num cartaz, a palavra “água” escrita sem acento. Cobrou da coordenadora, que quis alegar “liberdade poética” (na minha frente!) mas não convenceu; recolheu o cartaz e aplicou o acento faltoso.

Tenho o caso de uma professora de Português, da década de 1980, que passou uma tarefa para casa pedindo o plural de várias palavras, entre elas lápis, pires e tênis (já contei isso em crônicas anteriores). A aluninha, filha de conhecida minha, consultou a mãe e esta ensinou: bastava aplicar o plural nos artigos, assim: os lápis, os pires  os tênis. A professora, no pedestal de sua autoridade, riscou com caneta vermelha e corrigiu: “lápises, píreses e tênises”. E ante a cobrança da atônita mãe, esclareceu: “Nós, goianos, temos a mania de não falar corretamente os plurais, por isso a senhora estranha”.

Meu amigo diz-me que não se sente sábio: “Mas essas coisas eu aprendi no ginásio’’. Pois é! Acabaram com o ginásio... Conheço ene professores de Letras que não conseguem entender o que é regência. Concordância, então, passa longe... Jornalistas de rádio, tevê e impressos vêm transformando objeto indireto em direto por não saberem onde entra ou não uma preposição : “Aquela pessoa que você gosta”, costumam dizer. A peneira da OAB, para liberar a carteira de advogado, ainda que venha a ser considerada inconstitucional, tem sua razão de ser. Se incluírem provas de Língua Portuguesa e estenderem esses exames para as demais profissões, teremos quase todas as universidades fechadas.

Falta leitura desde os primeiros anos do aprendizado. Falta a vaidade do bem-saber. E saber não é só conhecimento técnico profissional, mas graduados em nível superior precisam – e devem – saber mais do que o mero exercício de suas profissões. As escolas básica e média precisam incluir mais esporte e arte em seus currículos. E, paralelamente, é indispensável instituir-se de volta o respeito aos professores e a prática – parece-me que em desuso – das inspeções escolares. É preciso re-estabelecer o uso sistemático do uniforme nas escolas públicas – prática removida por ação de um juiz ou promotor, falta-me a informação precisa. É preciso combater, urgentemente, as pichações, que causam prejuízos enormes ao poder público e facilitam e até estimulam o banditismo. A escola pública é tolerante com atos criminosos.

É que, faltando com as práticas do bem-falar e do bem-escrever, a escola não propicia o bem-aprender. E o resultado é esse: bacharéis que não sabem redigir petições, professores que falam errado, jornalistas que comunicam mal e médicos que se tornam contumazes na prática do erro, levando pacientes a deformidades e até mesmo a óbitos.

E meu amigo conta ainda:

– Nós aqui temos professores que lutam por uma universidade "enganjada" em causas sociais. Há aqueles que "arrecardam" brinquedos para o natal dos pobres...

E me dá mais pérolas professorais:

– Será “se” eu... (no lugar de "Será que eu”... Maior confusão com o uso das duas integrantes).

E finaliza com a frase que o convenceu a aposentar-se:

– Hoje tem “menas” gente na sala dos professores, por quê?

Lembrei-me de outro amigo, também profissional de letras, que, pinçando preciosidades lingüísticas no falar comum, explica assim o seu feliz emagrecimento após mudança de hábitos alimentares:

– Emagreci, sim, olhem o meu perfil: estou “com menas” barriga e “com menas” bunda.

 

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da AGL.

 

voltar