Luiz de Aquino Alves Neto

Reviver o Centro et cetera

Saudade das noites de sexta-feira banhadas a chorinho na calçada do Grande Hotel. Isso é saudade nova, mas já dói. Saudade do iluminado e colorido Centro de Goiânia, ao tempo em que as lojas mantinham à mostra suas vitrinas de tantas coisas, antes do advento dos xópins. Saudade de muita gente e até saudade de mim naqueles anos verdes de esperança e felizes ante tanta inocência.

De repente, o Brasil das maiores cidades começou a falar coisas comuns. Muitas coisas comum a todas, mas, para mim, a mais expressiva delas é a “revitalização do centro”. Isso vale para quase todas as capitais brasileiras e para um grande número de cidades de maior porte. É que os tais centros, núcleos pioneiros da formação urbana, esvaziaram para dar lugar à expansão dos comércios e serviços. As famílias foram morar longe.

Parênteses: alguns leitores virão dizer que, nestas linhas, exerço minha inegável nostalgia. Pode ser. Mas em lugar de massagear as lembranças como alguns atletas estimulam adrenalina, pretendo mesmo é propor soluções. Ou, ao menos, remendos duráveis (e, creio eu, saudáveis).

No meio desta semana, curti umas horas poucas em conversa solta com o amigo Luiz Ungarelli, goianiense nativo, dos tempos em que o Ateneu Dom Bosco ficava fora do asfalto. O bar, no Setor Oeste, é daqueles em que lamentamos apenas não haver um mar para completar a paisagem. E por sobre os telhados despontava, a uma distância de três minutos a pé, a solenidade de um edifício da Rua 85. Todo vazio, o prédio. Vazio de se pagar o IPTU à toa... E assim está há alguns anos.

Lembrei-lhe que no Centro da cidade, o nosso carinhoso Centro Histórico, muitas são as casas e até mesmo alguns grandes edifícios totalmente vazios. Vou citar apenas dois: a velha sede do Banco do Estado de Goiás que, desde a aquisição do BEG pelo Banto Itaú, é ocupado apenas no espaço térreo, talvez a sobreloja e o  subsolo. O outro, na Avenida Goiás com a Rua Dois, já foi a sede regional da Caixa Econômica Federal e encontra-se, há mais de dez anos, totalmente desocupado.

No meu entender, revitalizar o Centro equivale a reocupar espaços com moradias. E as noites, com atrações artísticas, trariam de volta o glamour de outras épocas. Se novas moradias houver no Centro, virão também lojas de subsistência. E havendo arte e entretenimento, as noites retomarão suas luzes e cores. E, havendo mais pessoas de bem, obviamente haverá mais segurança etc. e tal...

Ungarelli lembra que o poder público comete um equívoco ao buscar assentar famílias em locais remotos. Isso implica vias de acesso, rede de ônibus, de energia, de água e esgoto, escolas e postos de saúde e segurança. Sairia mais barato desapropriar alguns quarteirões centrais, estrategicamente escolhidos, e criar a ocupação familiar novamente em zona já estruturada.

Concordo: os colégios estaduais da região Central da cidade estão à míngua e com poucos alunos – até mesmo o tradicional e secular Lyceu tem pequena população estudantil e o Colégio Rui Brasil, no Setor Oeste, já foi fechado. Edifícios como os dois citados – o do antigo BEG e o da CEF – são perfeitamente adaptáveis para moradia de estudantes ou de casais sem filhos, por exemplo.

Uma coisa puxa outra e vem-nos à lembrança a Avenida T-8, ou melhor, a passagem sobre o Córrego Vaca Brava. Naquele ponto, que une o Setor Bueno ao Jardim América,  as pistas se estreitam e a avenida se torna perigosa e feia. As propriedades junto à passagem bem podem ser desapropriadas parcialmente,  apenas na medida do alargamento das pistas sobre o córrego, abrigando também a calçada para pedestres. Isso se faz sem desembolso, negociando-se o gabarito de construção (a administração municipal tem toda informação e poder necessários para isso), sem prejuízo para os proprietários. O resultado será a valorização dos referidos imóveis.

Nestes tempos em que a frota de veículos aumentou assustadoramente, nesta cidade em que o sistema de transporte público deixa muito a desejar (até porque, parece-nos, escapa em grande parte da competência da municipalidade, com o envolvimento do poder estadual e as decisões da iniciativa privada), muito há que se fazer para se evitar o deslocamento de pessoas, e viver no centro facilitaria muito esse esforço. E não nos esqueçamos de que alguns dos nossos córregos, como o Botafogo (além dele, expande-se muito rapidamente o Jardim Goiás), o Capim Puba, Cascavel e o Vaca Brava, como exemplos, exigem mais pontes.

Espero eu, e comigo não só os goianienses, mas toda a comunidade da região metropolitana, que possamos, brevemente, voltar a curtir o chorinho, o samba, a bossa-nova e riquíssima MPB goianiense nas calçadas e casas de xous do Centro (viva o Goiânia Ouro!). E o futuro agradecerá, certamente!.

 Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.
             E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

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