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O tempo era morno e úmido, naquele janeiro de 1940. E as distâncias refletiam sempre o longe, tudo era remoto e difícil. E tudo parecia muito simples, a pobreza não era triste. Era um tempo, aquele, muito diferente do que se viveu a partir da década de 1970. Havia uma guerra na Europa, mas seus reflexos eram como raios do sol, espalhavam-se por todo o mundo! O mundo era grande, diziam. Mas as pessoas, especialmente as pessoas de rincões esquecidos, como os sertões do Planalto Central, viam-no grande apenas para o alcance das pernas. Havia o rádio e o cinema; o rádio dava apenas palavras e fomentava a imaginação, e o cinema oferecia imagens e fantasias. O adolescente de Pirenópolis tinha pouca informação: eram notas e acordes para o violão, os metais e outros instrumentais da Banda Fênix. Sabia de Anápolis; e da “nova capital”, ainda em construção, um formigueiro de pessoas e poeira. Foi em Campinas, a cidade que deu berço a Goiânia, que o menino Israel permaneceu cerca de um mês a esperar a chance de uma viagem a Caldas Novas, onde dois de seus tios maternos já vivam – Luiz José e Aníbal Pereira. Um caminhão, a carona na carroceria, o destino, enfim! Um quarto nas dependências de fundos da casa de seu tio Aníbal. Emprego na tipografia de Mário Godoy – sem problemas, aprendera o ofício de tipógrafo com o escritor Eli Brasiliense, de cuja amizade pude usufruir mais de trinta anos após o aprendizado de meu pai. A tipografia e o cinema, e depois o outro emprego, na loja do mesmo tio. Nesse emprego, permaneceria por vinte e quatro anos e sua relação de bom empregado, de auxiliar devoto e de amigo leal espalhou-se pela cidade. E foi, para mim e meus irmãos, a herança de maior valia do que qualquer fortuna material – coisa que nunca foi propósito de nossas vidas simples. Era a Caldas Novas dos primeiros, os pioneiros que firmaram marcas ainda no Século XIX, como os descendentes de Martinho Coelho de Siqueira, descobridor das águas; e de Luiz Gonzaga de Menezes, o construtor da Igreja e doador do patrimônio a Nossa Senhora do Desterro, padroeira dos viajantes e dos emigrantes (“La Madonna delli emigrati”, no dizer dos italianos, que têm por ela grande veneração). Era a cidade dos Rodrigues da Cunha, dos Galvão, dos Lopes de Morais e de tantas outras famílias que marcaram a minha infância, leitos de inúmeros e inesquecíveis amigos. E Israel de Aquino Alves, meu pai, o adolescente que aqui chegou trazendo a minguada mala de roupas e um sofrido violão, não teve dificuldade em fazer amigos, apesar da timidez que lhe parecia marca de nascença. Não sei de histórias de muitos namoros, não. Sei que ele e minha mãe namoraram dois anos e casaram-se. E nascemos nós – eu primeiro, depois Edmar, e Eliane, e Ângelo; por fim, Auxiliadora. E crescemos todos entre uns poucos parentes e muitos amigos. Foi entre os filhos de seus amigos que fizemos nossos primeiros amigos, também. A cidade era pequena – a Avenida Coronel Bento de Godoy, duas paralelas e algumas transversais; no meio, a praça, que depois se chamou de Mestre Orlando (mas lembro-me dela como Praça da Matriz e Praça Presidente Vargas, nome que se perdeu certamente por medo das impertinências dos militares do golpe de 1964). Era a cidade das ruas de cascalho, porque o asfalto só viria em 1966. Era a cidade dos grandes quintais, verdadeiros pomares onde enchíamos nossas tardes, invadindo-os sem punição, atraídos pelas doces frutas de época. Os mesmos quintais onde, já crescidos, buscaríamos, sem licença, galinhas gordas para nossas ceias de madrugadas, regadas a cerveja e cachaça. Era um tempo sem endereços – nada de nomes de ruas e números de casas; as referências eram muito simples, bastava-nos dizer “a casa de Fulano” para, por referência, orientar quem precisava. Pegar frutas durante o dia ou galinhas na madrugada não era crime. Quando muito, razão de queixa e bronca, de reprimenda tolerável, mas tudo sempre perdoado com carinho. E era o tempo das serenatas. Em Caldas Novas, serenata era coisa de uns poucos, e entre estes poucos destacavam-se Israel e Zé Pinto. Foram eles que me fizeram cantor de serenata aos quatro anos de idade. Zé Pinto morreu mais cedo, meu pai ocupou-lhe a vaga na Academia de Letras e Artes de Caldas Novas. Talvez sua identidade como cidadão caldas-novense já estivesse firmada desde 1946, ano em que iniciou-se nos mistérios da Maçonaria, na condição de primeiro irmão a iniciar-se na nova loja do Grande Oriente do Estado de Goiás. Talvez por isso, e certamente por sua conduta de bom Maçom, recebeu há pouco tempo a mais alta condecoração da Irmandade, a Comenda Dom Pedro I, dignidade essa expedida pela histórica sede nacional da Rua do Lavradio, onde o primeiro Imperador dirigia os trabalhos na condição de Grão Mestre. Por sua atividade de músico, como disse linhas antes, foi eleito na vaga de José Pinto Neto para a nossa Academia; e, agora, é distinguido com a honraria deste diploma, o de Cidadão Honorário de Caldas Novas, pela nossa Câmara de Vereadores! Um título digno, porque vem coroar 71 anos de uma vida dedicada, regida por um indiscutível amor de que todos nós, seus filhos e parentes, bem como seus amigos, somos testemunhas. Antes, e ainda na década de 1990, minha mãe – Élia Borgese de Aquino Alves, ou simplesmente Dona Lilita – foi agraciada com esse mesmo título; ela adiou sempre o momento de recebê-lo, queria reunir seus irmãos, que moram longe. Mas adoeceu antes disso e faleceu sem recebê-lo. De nossa parte, entendo que se aqui fomos concebidos, aqui fomos gerados e nascemos, e ainda que a Caldas Novas oferecemos o nosso amor imortal, nossos pais são, sim, cidadãos da nossa terra natal. Mas, agora, o que temos é a manifestação direta e indiscutível dos nossos representantes, que atenderam a um pleito da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, a cujos confrades agradeço penhorado, muito especialmente aos acadêmicos professora Marília Núbile, dr. Alejandro Mejia e o presidente, dr. Albery Mariano, pela iniciativa. Meu carinho de agradecimento, ainda, aos vereadores de Caldas Novas, que represento nas pessoas do vereador Celso Guairá, autor da proposta, e do presidente deste Poder, vereador André Rocha.
(*) Fala minha durante a solenidade em que meu pai, Israel de Aquino Alves, recebeu o titulo de Cidadão Honorário em Caldas Novas.
Luiz de Aquino Luiz de Aquino é membro da Academia Goiana de Letras. |