Luiz de Aquino Alves Neto

Sarau no Goiânia Ouro

Goiânia já teve um ambiente mais propício aos poetas. Éramos ativos, inquietos, cobradores. Éramos presença sempre. E aí, alguns se mudaram, outros faleceram e nós, os sobreviventes, parece que esmorecemos, morremos em vida, fechamo-nos em nosso mundinho doméstico sem mais ousar. Mas já fomos muito ousados, sim, antes de envelhecermos. Além disso, a sociedade mudou e o nosso modo de contestar pode ser, hoje, "démodé". Mas ainda existem jovens. E muitos poetas entre os jovens. Lamento não vê-los em bandos inquietos e, ao seu modo, ativos e felizes. Poetas têm a missão intransferível de transformar o mundo. Poeta omisso não existe.

Um moço de Brasília, o poeta Roberley Antônio, lidera um site na Internet e um movimento poético: "Memento Mori". Ele costuma promover saraus poéticos no Distrito Federal e, instigado pela musicista e poetisa (e ativista cultural incansável) Fátima Paraguassu, resolveu cutucar Goiânia. Ele veio, no último sábado, realizar um primeiro encontro de Poesia Goiânia – Brasília. Pedimos espaço e Carlos Brandão nos atendeu, aprovado pelo secretário Doracino Naves e secundado pelo competente Itamar Teixeira. Usamos o espaço do bar do centro cultural Goiânia Ouro.

Infelizmente, e a despeito das realizações da administração municipal, um funcionário da casa ameaçou pôr tudo a perder. O moço, Rafael, pareceu não querer seguir a linha que começa em Iris Rezende, passando por Kleber Adorno e Doracino Naves e chega a Carlos Brandão o grande realizador, decidiu, em dado momento, avisar a coordenação do sarau: "Às nove horas (da noite) vou cortar o som de vocês para não atrapalhar o teatro".

Fiquei sabendo. E algum hormônio em mim se agitou, primeiro induzindo-me a abandonar o local. Mas não podia... Fátima e Roberley contavam comigo; poetas locais e visitantes, dentre estes a humanista Vânia Moreira Diniz, que é referência em todo o país, não deviam ser abandonados por mim. Decidi, numa segunda opção, apenas dizer que não mostraria nada de meu em favor do tempo que o moço da portaria do teatro queria impor. Mas ao subir ao palco, escolhi a terceira decisão: li um poema de Cora Coralina, a homenageada; mostrei quatro poemas meus; e arrematei contando um caso da vida de Cora – tudo isso precedido por um desabafo nervoso, contestador e desafiador: na minha presença, ninguém cala a poesia; e as artes, entre si, sempre foram solidárias. Duvido que teatrólogos, atores e cineastas tivessem qualquer interesse em boicotar um evento de música e poesia.

Ao contrário do que pretendia o desavisado funcionário do Goiânia Ouro, os poetas brasilienses e goianienses apegaram-se ainda mais ao seu sarau. E o esticamos até um pouco além das 23 horas. Lamentei algumas ausências: Leda Selma, Delermando Vieira e Maria Helena Chein. Mas os presentes fizeram bonito.

Para mim e para os demais de Goiânia, nós que conhecemos o trabalho que se faz na esfera da cultura no município, ficou patente que a falha, lamentável, ficou por conta exclusiva desse moço, Rafael. Roberley sentiu: o sarau, em Goiânia,custou-lhe o dobro dos gastos, pois houve esse deslocamento; o custo adicional era previsto, mas o desgaste poderia ter sido evitado. Disse-me ele: "Senti-me tratado como representante de uma arte de segundo plano".

Não é bem assim, Roberley. O moço que nos incomodou é, certamente, alguém distante do ofício das letras. Na ausência de seus chefes, ele decidiu exercer uma autoridade que não possui, porque autoridade é conhecimento; quem não conhece, não tem autoridade. Ele é, possivelmente, um desses que não consegue ler além de três linhas. Mas continuaremos, sim. Faremos outros saraus, em Brasília e aqui, impondo nossa ação e mostrando do que somos capazes.

Afinal, a poesia nunca esmorece.

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com
 

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