|
|
|
Tanta Poesia Em Tempo Ágil (Lido na sessão de 25/10/07 da Academia Goiana de Letras) Noite de segunda-feira, 8 de outubro. Desembarco no Aeroporto Tom Jobim; como sempre, com a melodia e a letra de alguma canção maravilhosa do Maestro Antônio Brasileiro na cabeça. A demora na fila de espera para estacionar o avião; a demora na chegada das bagagens à esteira; a demora, a demora... Religo o celular. Um recado: "Sarau poesia erótica, Bar do Adão, Botafogo, Rua Dona Mariana..." – sei onde fica. Chego a Copacabana, deixo a bagagem na portaria do prédio da minha sempre hospitaleira Tia Miriam, aproveito o mesmo táxi e retorno a Botafogo. Irreverência e performance. Não sou performático... Isso é coisa para o Gabriel Nascente e o Marcos Caiado. Mas contam da minha presença (coisa do poeta Luiz Fernando Proa, é certo) e atrelam-me à Academia Goiana de Letras; Cairo Trindade, o poeta que, ao lado da mulher Denises (assim mesmo, no plural) dirige o evento, anuncia-me com certo tom de estranheza: "Bem, ele é de Academia, mas há de compartilhar conosco...". Rimos todos e surpreendi os poetas com meu modo de ser não-acadêmico (ou, ao menos, contrário ao conceito do que têm eles por "acadêmico"). Foi Luiz Proa quem me avisou: "Amanhã, terça-feira, a partir das seis e meia (noitinha, é claro), tem sarau no Teatro Gláucio Gil". Sei onde fica, também; pertinho da morada da minha tia. Fui lá. Conheci poetas, encontrei Sergio Pietroluongo, localizei ex-alunos do Colégio Pedro II ao responder à organizadora a razão de minha estada por lá. Quarta-feira, o dia dos meus saraus. Falei para platéias de estudantes, no Colégio Pedro II, Unidade Tijuca. Entre um e outro poema, contei-lhes casos do meu tempo de estudante, de professores notáveis, de costumes e atitudes. Eram alunos de uma ampla faixa, isto é, de sexto ano até os que se preparam para o vestibular, três estrelinhas no emblema. Rimos juntos e aprendemos juntos: eles, ao me ouvirem; eu, apenas por conviver. Conviver com os moços é algo que não se define facilmente. Alguém me disse, há bem uns vinte anos, que até os quarenta anos, aprendemos com os mais velhos; depois disso, aprendemos com os mais novos. Num intervalo de cinqüenta anos, que é a diferença entre mim e os mais novos daqueles meninos, tudo muda. De tudo o que tenho lembrança, entendi que o que mais me marcava era a timidez ante os mais velhos. Ou mesmo entre meninos que não me eram familiares. Essa timidez desapareceu: o menino de hoje é livre e solto, diz o que quer sem peias, sem meias palavras. "Gostei muito de seus poemas. A partir de hoje, você é meu ídolo", disse um garoto do sexto ano. Comoveu-me, o menino. Uma garotinha, também do sexto ano e já com alguns poemas na bagagem que sedimenta, talvez, a poetisa das próximas décadas, a uma observação minha sobre a decantada onda de violência que assola o Rio (e, enfatizei eu, toda a humanidade), comentou com sabedoria: "Violência existe em todo lugar e em todos os tempos". Também era do sexto ano (e percebi que eram aqueles, os do sexto ano, os que mais se manifestavam). Eu não quis contar nada de novo a eles, no campo da violência do bicho homem contra o homem; isso está nos jornais e nas tevês, está diante de nossos olhos além da vidraça da janela do ônibus, ou da moldura das nossas janelas; não disse nada, também, sobre a violência do ser humano contra a Natureza (afinal, Carlos Minc me antecedeu). Falei de poesia, de esperança, de fé nas pessoas e na capacidade humana de vencer desafios. Temos o péssimo defeito de cobrar perfeição e lamentar falhas; mas a perfeição é um sonho utópico que jamais aconteceu na história da humanidade. Agora, algumas horas após esse encontro, ainda destrincho as palavras e cenas, tento separar pequenas peças, rejuntar tudo e processar o meu aprendizado. Eles, naquela idade, não se preocupam com isso, pois têm tempo. E, com ele (o tempo), muito o que ver, ouvir, ler, pensar... O que eles vivem agora são sedimentos de uma formação; em mim, tudo isso vira saudade imediatamente após. Mas não é só saudade, não... Fica um sentimento profundo de gratidão: ao menino que fui ontem, aos mestres do meu tempo e a esses garotos e garotas de uniforme. E, entre eles, aqueles professores alegres e valorosos (agora, novos amigos). Chegamos, então, à quinta-feira, dia 11, véspera de feriado nacional. Ouço, numa mesa-redonda, na Academia Brasileira de Letras, os acadêmicos Antonio Olinto, Antônio Carlos Secchin e Ivan Junqueira, mais o professor Ivo Barbieri, em homenagem aos 150 anos de nascimento do poeta fluminense (e membro fundador da ABL) Alberto de Oliveira. No sábado, novo sarau de poesia. Dessa vez, no Barteliê, um apartamento-bar em Ipanema, em endereço que diz muito à poesia e à bossa-nova: Rua Vinícius de Morais, esquina com Nascimento Silva. Pude, finalmente, conhecer pessoalmente a poetisa Chris Hermann, carioca residente na Alemanha, com quem forcei uma parceira, ao não resistir ao encanto de um poema seu. E salvei novos contatos, entre eles Clauky Saba e Soraya Vieira, além do maestro Cláudio Mendes, que teceu notas, tons e acordes em torno de um dos meus poemas, com o "auxílio luxuoso" (com licença de Luiz Melodia) de Clauky. Ah, inesquecíveis: a sempre presença de Luiz Proa, poeta e ativista cultural, filmando e fotografando tudo... E o também visitante Carlos Gurgel, poeta potiguar. Ah, mas havia mais... Havia, na segunda-feira, 15, data consagrada aos professores, uma outra festa; agora, de Antonio Olinto, o imortal da ABL e amigo de Goiás que, a meu convite (e com o apoio da Prefeitura de Goiânia), prestigiou a inauguração, no SESC da Rua Dezenove, em Goiânia, o Espaço Literário José J. Veiga. E o palco dessa festa foi uma belíssima unidade do SESC no Rio de Janeiro, na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo. O palacete de arquitetura mourisca abriga, desde aquela noite, a exposição de máscaras africanas da coleção de Antonio Olinto e Zora Seljan. Momento bom de rever Antonio Olinto, Ivan Junqueira, Gilberto Mendonça Teles (mas não nos encontramos, naquela multidão), Elizabeth Almeida, Edir Meireles, Astrid Cabral... Semana rica de fatos e pessoas. Tal como eu gosto, tal como qualquer mortal gosta: viver o que nos dá prazer e conviver com os que amamos. |