Luiz de Aquino Alves Neto

Tríduo Momesco

Estranhamente, Goiânia já foi melhor durante o carnaval. A cidade ficava pacífica por demais, o trânsito quase que desaparecia, as ruas ganhavam uma paz como as das noites nos cemitérios. Este ano, penso que muita gente deixou de viajar. Os índices de acidentes, alarmantes; os preços nos locais de destino (predominantemente as cidades do interior, os tais pólos turísticos) dignos da exploração do turista (em vez do turismo); as notícias escandalosas sobre a febre amarela... Sim, deve ter sido tudo isso.

Em Caldas Novas, a Prefeitura divulgou que havia 150 mil turistas na cidade... Executivo de hotel contesta: “Mentira! Não tem dez mil”. Menos mortos nas estradas, ao menos.
Quarta-feira de cinzas é sempre igual... Aquilo de dormir até tarde, de amargar na boca a bile processada em desigual, o corpo cansado e a mente limpa. Afinal, houve o carnaval, que hoje tem duração variada, de acordo com o lugar onde acontece ou a disposição do folião. Houve um tempo em que era chamado “entrudo”. Palavra feia... E lembro-me de ouvir algum locutor (certamente, um locutor esportivo) chamá-lo de “tríduo momesco”.

A uma amiga pernambucana, pergunto à guisa de bom-dia, minutos após o meio-dia: “Acordando agora?”. Não, não... ela não gosta de carnaval. É o que me diz, mas concluo que o não-gostar está mais ligado a ditames religiosos pentecostais do que propriamente às escolhas dela. Digo-lhe que já gostei muito, mas que a idade vai nos afastando. O carnaval é uma festa grandiosa, cheia de arte, desde a música até a plasticidade de formas e alegorias e cores. Não deve ser orgia grupal, como se vê em muitos lugares. Curiosamente, no Rio de Janeiro a festa volta a ser o que sempre devia ser: uma festa. Gosto de ver o calor e a alegria do frevo no Recife, a adaptação do Boi Bumba em Manaus... Salvador aparece (penso eu) como sério apelo turístico, uma fonte de emprego e renda, sem perda de seu pendor artístico. Mas é ingênuo pensar que nesses quatro dias não ocorra violência e, para desespero (ou desencanto) dos moralistas de fachada, nem excesso de sexo.

Bem, vou resumir. Ou tentar. Carnaval, apesar de tudo, ainda consegue ser mais inocente que uma hora na casa do BBB. Sexo é bom. É o meio de perpetuação de todas as espécies vivas. No nosso caso, Deus nos premiou com o prazer, mas deturpamos tudo. Um flerte, uma paquera, um toque ou mesmo um beijo fortuito fazem parte das alegrias da vida e vivemos, todos nós, em função da reprodução. Daí coisas maravilhosamente inexplicáveis, apenas sentidas, como amor aos pais e aos filhos e o investimento total de nossas vidas inteiras em prol das gerações futuras, como educação, patrimônio, moral, religião etc.

Por isso nos embelezamos; cuidamos da saúde, da pele, do bem-estar psicológico, da vaidade, inventamos a moda... mostramo-nos belos para o sexo oposto. Mas pôr a própria carne num varal, como açougue de feira... Aí, não! Adoro sexo; mas a dois, e com sentimentos superiores ao desejo apenas. Fui claro?

Parece que sim. Como disse, minha amiga é apegada a princípios religiosos, e a religião, sustentada em princípios de moral judaico-cristã, restringe-nos com a idéia de pecado. Eu sou dos que recusam a idéia de pecado; mas sei que a religião é um embasamento sólido na formação do cidadão. Só que... Alguém há de me explicar a razão pela qual grande parte dos que se dizem ateus são justamente os que nos dão melhores exemplos de comportamento cristão. Ou melhor: o que é ser ateu? Deve ser apenas a auto-definição dos que se recusam a admitir um Criador nos moldes das exigências dogmáticas.

Seria Jesus ateu?
 

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