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Trotes E Sentimento
O texto
abaixo, recortei-o de uma crônica da jornalista e fotografa, de talentos
indiscutíveis, Neusinha Gedoz , da cidade de Carlos Barbosa, RS (a
crônica de Neusinha, “Respeitar
é não fazer ao outro o que não gostaríamos que fizessem conosco”,
está em
http://neusinhagedoz.blogspot.com): “Pessoas e pessoas. Penso que existem dois tipos: as boas e as más. Conheço uma pessoa boa que me ensinou sobre “respeito à vida do outro”, não importa quem é o outro. Se é gente, bicho ou vegetal.
Meu sobrinho de onze anos matou, sem querer, um pássaro no sítio da
família. Ao pegar o corpinho da ave sem vida nas mãos começou a chorar um
choro tão emocionado que seu peito arfava, quase não dando conta de
respirar. Beijou sua cabecinha, conversava com ele, cavou um buraco em
terra macia, numa sombra, colocou o Canário bem colocadinho, tapou, fez
uma montanhazinha de terra, cruzou dois pedacinhos de paus, fez uma cruz
com uma borrachinha improvisada. Terminou a cerimônia colocando algumas
flores minúsculas perto da cruz e disse a seu pai: “pai, você me ajuda a
cuidar da esposa e dos filhinhos dele?” Assisti a cena com lágrimas nos
olhos e imaginei a dor que ele estava sentindo, já que chorava sem parar.
O que tem a ver
a história do pássaro com o trote universitário? Nada. E tudo ao mesmo
tempo”.
Fico triste em contar que esse trecho, por mim selecionado, vem após as
considerações da autora em torno dos trotes acadêmicos que vêm causando
mortes e lesões graves, corporais e psicológicas. Não preciso discorrer
sobre o quanto isso nos causa indignação (alguns locutores andam falando “indiguina”...
nada demais, já que alguns, ou os mesmos, quando querem dizer “opta”,
pronunciam “opita”; e, pelo tom, dão-me a impressão de pôr acento agudo na
silaba distorcida).
Ao ver que em Embu os veteranos de Veterinária obrigaram calouros a
ingerir bebidas alcoólicas em níveis superiores ao suportável e os fizeram
rolar numa lona cheia de fezes de animais e aves em decomposição; e que em
Leme (ambas as cidades no Estado de São Paulo, o nosso “primeiro-mundo”)
uma estudante de Pedagogia jogou creolina com gasolina no corpo de uma
jovem caloura (que, por sinal, está grávida), lembrei-me que, em 1971
(sim, há 38 anos), os veteranos da Universidade Católica de Goiás
escolheram por trote servir bebidas e refrigerantes aos calouros como que
numa festa comum. Mas anunciou-se, com antecedência, que lhes seriam
tomadas as roupas para doar a pessoas carentes.
Assim se fez, no primeiro trote coletivo em Goiás. Sem excessos, sem
violência, sem desrespeito. Quanto a Neusinha, que conheci nas afinidades
registradas em perfis da Internet, recebo-a com esses versos de
bem-esperar:
Bendita a que
chega
/
Em Nome da
Rosa, /
traz
palavras de peso
/
e medidas infindas, /
solenes e sólidas.
Bem-vinda a que
chega
/
trazendo um sorriso
/
de doce
domínio, / um olhar
de
envolver e palavras /
de
nunca esquecer.
Bem-vinda,
Neusinha,
/
bonita e gaúcha, / amante de
causos
/
e papos.
Feito eu.
E ainda sobre trotes... Bem, os veteranos adultos têm muito o que aprender
com o sobrinho da Neusinha, não?
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