Luiz de Aquino Alves Neto

Vestida de azul e branco…

O tempo era aquele, antes dos Beatles, da pílula anticoncepcional e do golpe militar. Vivíamos a efervescência do chamado pós-guerra, os costumes mudavam-se rapidamente, os tabus eram desafiados. Falava-se em “lua-de-mel experimental”, o que já chocava as vovós e os papais, mas logo falaríamos em amor-livre. A indústria farmacêutica anunciava uma pílula que, consumida diariamente por 28 dias, evitaria a gravidez. O assunto dominava as conversas entre os jovens e ganhava, discretamente, espaços na mídia.

Pasmem! No Rio de Janeiro, no meu bairro de Marechal Hermes, no subúrbio, nos últimos anos da década de 1950 e início dos anos de 1960, eu, na faixa dos 13 e 14 anos, presenciava, da sacada do sobrado onde morava com minha avó e tios, cenas que antecipavam o tal de amor-livre: eram casais em motonetas (as inesquecíveis Lambretta e Vespa), a moça sempre na garupa; paravam na rua lateral (nossa casa era na esquina) e ali mesmo, encostados na “montaria”, começam a beijar-se e a tocar-se; eu, meu irmão e um primo (ambos dois anos mais novos que eu) descíamos, silenciosamente, a escada; um portão de serviço, em armação de madeira e forrado de flandres, valia-nos como observatório, pois as lâminas do zinco ficaram furadinhas... Víamos as mãos atrevidas – quatro mãos de cada casal – invadirem zonas proibidas, como seios, nádegas e virilhas. As moças auxiliavam os parceiros a aplicar o preservativo e ali mesmo, protegidos da parca iluminação pública (mas não de nossos olhos infantes e curiosos), amavam-se livremente. No dia seguinte, cabia a nós, os meninos da casa, varrer das calçadas os restos do amor quase oculto...

Ah! Tenho uma bonita história, de uma moça, colega dos tempos de Ginásio no Colégio Pedro II, no Rio; concluindo o Ginásio, escolheu ser Normalista, ingressando no rigoroso Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em processo seletivo de elevado grau de dificuldade. As estudantes desse curso, em seus belos e elegantes uniformes, eram chamadas de Normalistas. Uma música, na voz de Nelson Gonçalves, ocupava as paradas de sucesso dos rádios: “Vestida de azul e branco / trazendo um sorriso franco / num rostinho encantador. / Minha linda normalista / rapidamente conquista / meu  coração sem amor”. (Música de Benedito Lacerda, com letra de David Nasser).

Como é natural, a moça arranjou um namorado – moço mais velho, com a vida já num caminho definido. Isso era 1962, 63. Durante as férias do final de 1963, minha amiga, filha única, descobriu-se grávida.

Imaginem o escândalo! A diretoria do Instituto chamou os pais da Normalista para estressantes reuniões; depois, novas reuniões, já com a presença do namorado da moça – a ela cabia apenas ouvir o que discutiam e acatar o que decidissem os outros. E a decisão foi, no entender de nós goianos matutos, uma forquilha: a menina deveria se casar ou seria expulsa do IERJ. O argumento era simples e fortíssimo: como uma Normalista pode educar crianças se pecou contra a castidade que deve nortear as moças de família? Que escola aceitaria uma professora que era mãe solteira? E que pais confiariam numa professora com esse desvio de conduta?

A paixão de vida da minha amiga era o ensino. Aceitou casar-se com o don-juan em questão, mas aquele foi um casamento para satisfazer caprichos da congregação de professores do IERJ. Pouco tempo depois de formada, separou-se do marido condicional e, quando as leis brasileiras permitiram o divórcio, legalizou a união com o homem que – depois de sozinha – ela escolheu como o companheiro da vida inteira. Já os professores sisudos e caretas do IERJ acabaram por amargar as transformações que abalaram o mundo naquela mesma década.

Essas lembranças mexem com meus conceitos... Calculo que as moças das garupas da “lambretas” são, hoje, vovós que já dobraram a marca dos 70 anos e vivem, certamente, a espantar-se com as posturas de seus netos e netas; e confiro, também, que aqueles professores moralistas que tentavam santificar as normalistas poderiam ter vivido o bastante para conferir os costumes de suas bisnetas.

Sim: aquele era um tempo em que virgindade feminina era virtude. Imaginem!

 

Luiz de Aquino é escritor e  jornalista.

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