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Visão Do Tempo Antes eram os cartões, e abarrotávamos os correios de envelopes. “Boas Festas, Feliz Natal”, era o dístico dominante, com desenhos de sinos e guirlandas de ramos de pinheiro. Ou as figuras óbvias de um velho que saía e um bebê que entrava, ostentando faixas do ano que se findava e do período vindouro. Havia o hábito das saudações pessoais, como hoje, nos encontros eventuais de ruas, praças e comércio. E havia, também, as queixas: “Abandonou os amigos? Não recebi seu cartão de Natal”. Nos meados da década de 1970, desisti de enviar cartões. O custo não era tão pequeno para um assalariado. Bancário recebia em dia, mas era mal remunerado (era?). Sobre isso, vale a frase do Edivaldo, comentando minha crônica da semana passada: “Éramos felizes e não sabíamos”. Era assim, sim. (Na crônica anterior, memorei, como agora, tempos de trinta e poucos anos atrás, dos natais bucólicos. Era antes dos xópins e dos computadores. Em tempo de Internet, ainda há quem use os correios para comunicação tão prosaica, de modo poético. Ao computador, realizamos pelo menos 90% das relações de amizade e até mesmo profissional. Sair de casa, hoje, só por poucas razões, pois a máquina serve para baratear o custo de muitas ações corriqueiras. O telefone, aos poucos, vai desaparecendo. São muitas as mensagens datadas, especialmente nesta semana alongada que engloba Natal e Ano-Novo (ainda tem hífen?). Alguns amigos chegam a repetir até cinco ou seis vezes as saudações de fim de ano. Claro, tudo é muito bem-vindo! E aí, vejo que predomina o velho hábito de se avaliar o ano findo e listar projetos e sonhos para os doze meses a vir. Muito prática, Rosana, minha amiga fazendeira, resume: “Fim de ano, para mim, é como fim de mês”. Certíssima, ela! O “reveion” há de ser uma grande festa, com fogos e bebida espumante, roupa nova e muita alegria. Gostamos de tudo isso – festa, fatiota (essa é antiga, hem?), cores, músicas, abraços e, se for o caso, um novo amor (ninguém é de ferro; ou: não nascemos para a solidão). Preocupa-me a saúde da Haydée – minha sogra luta pela vida, a menos de um mês de seus setenta e oito aninhos. Festejo o verde dos campos e dos jardins, namoro as cores das flores. Curto a boca do poço a lembrar ilustrações de contos de fadas. Não escrevi novos poemas em dezembro, não parei para o cinema, apenas curti canções já ouvidas e revivo, na memória, amores idos, porque a vida se faz de sonhos, mas sem desmerecer as lembranças. O presente é presente de Natal, de aniversário... Ou por alguma coisa realizada que justifique o merecimento. Festejo novas amizades, e alegro-me também ante as que se acabaram porque não valeram. Faço orações pelos vivos e envio energias aos que se foram. Mando sorrisos ao catador de papel que enfeita de cores seu carro de coleta; à distância, para não haver confronto, xingo o (a) motorista que abusa no trânsito, sonho acordado com a volta à paz nas ruas e com a inalcançável, ainda, justiça social em que ninguém precisará roubar para comer e, assim, não pôr sob ameaça a dignidade do próximo. Prometo-me não mais ver telejornais: não gosto da têmpera que norteou a guerra judicial pelo menino Sean (dizem Xã e até mesmo Xon), e muito menos da omissão nacional ante o conflito brasileiro-surinamês da noite do Natal, com muitas tentativas e um assassinato, muitos estupros e facadas. Notem que, nos dois casos, envolvendo ambientes sociais tão díspares, a causa é a mesma: migração internacional, invasão de espaços, choques culturais... Tudo por conta de se obter dinheiro pelo que parece ser a via mais fácil, segundo cada um. Acho que é esse o meu único plano: evitar más notícias. Aliás, evitar saber delas, já que continuarão acontecendo amanhã como ontem, aqui como acolá. Que Maria Luiza continue poetizando em texto e atos, que Wanda continue sorrindo, que os meus continuem felizes, como felizes quero que estejam todos, principalmente os meus desafetos: se estes estiverem alegres, não terão motivos para desejar-me o mal. Amém! Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com |