
Textos em Prosa
Milene Arder & Ivan Leal
A Realidade de um Sonho
Já estávamos há vários e intermináveis dias, a viajar por entre montanhas e vales, numa sucessão cansativa de repetições geográficas. Não que não fossem belas e interessantes, mas pela insistência da vegetação, em ser a mesma o tempo todo, nos levava, às vezes, a cochilar ou a ensaiar monólogos ocos, assim como tédios em goles.
Era pequena e simples, a cidade, segundo descrição da pessoa que nos contratara. No máximo, umas três mil almas, o que nos trazia à mente, uma simples vila do velho oeste, com direito a ventanias quentes, bolas de capim correndo ao vento, e uma densa e permanente nuvem de poeira envolvendo a tudo e a todos, sem contar com o cheiro de cavalos e seus subprodutos orgânicos espontâneos.
A imaginação viajava com mais rapidez que a realidade !
Mais adiante, a paisagem mudava um pouco. As, outrora montanhas, transformavam-se lentamente em pequenas colinas arredondadas, cobertas de um verde muito aceso e brilhante, e aqui e ali, alguns carneiros e cabritos, anunciando, com certeza, proximidades de naturais da terra.
Lá, ao longe, pequenas peças brancas na linha do horizonte, acenavam casas, não muitas.
O ar puro, chocava-se com minhas previsões, que não só falharam em parte, como também no todo.!
A estrada já se despedia e começávamos a penetrar os primeiros quilômetros, já na zona urbana, e o que nos chamou a atenção é que , depois de tantas paragens monótonas, observamos a delicadeza de pequenos jardins de micro-flores, como aquelas que vicejam nas escarpas geladas, nos montes mais altos do globo.
Não tínhamos dúvidas, que mãos delicadas, com certeza, consertavam os desânimos permanentes e os alheamentos preguiçosos, da tal mãe-natureza...
Era um cenário um tanto estranho... misto de simplicidade e poesia, naquela arte que se afigurava, ante nossos olhos, já cansados pela maratona da jornada.
De repente, como surgindo do nada, apareceram , o que se poderia chamar de "anfitriões"...
Três jovens, transportados por um carro de formas estranhamente geométricas. Não tinha rodas; simplesmente deslizava pelo chão, como se houvesse trilhos, só que invisíveis... Não se ouvia o mínimo ruído.
Chegaram, silenciosamente e seus gestos eram de saudação. Formavam um perfeito trio de seres bonitos, nos quais não se definia ser do sexo masculino ou feminino. Dava pra perceber-lhes a beleza e a pureza deslumbrantes, de feições cuja ternura e suavidade nos encantou a todos.
Nada precisava ser dito. Era desnecessário o uso da comunicação verbal, pois seus gestos eram perfeitamente compreensíveis.
Teríamos dormido na viagem e seria um sonho?
Tudo ali era de rara magia...
Fomos então transportados para as dependências de um salão, amplo e cheio de luzes, só que naturais, como pequeninos sóis a refulgir de cada recanto num colorido suave que sensivelmente se transformava em música à medida que nos aproximávamos.
Notei, então, nos outros, que todo o cansaço da viagem havia desaparecido. Até nossas vestes, rasgadas e sujas, haviam sido transformadas, como que por encanto, em leves túnicas, esvoaçantes e claras , tomando as tonalidades das pequenas luzes.
Nada entendia... Sentia-me como um peregrino, no deserto infinito, a ver miragens, causadas pela sede implacável do sol escaldante que me torturava, a ponte de causar-me aquela magnífica visão.
De repente, um som magnífico espalhou-se no ar... Pareciam trompetes e tocavam num lamento doce a invadir-me a lama , aquietando-me o coração...
Que enigmático lugar... Ali tudo acontecia de maneira harmoniosa, com uma exatidão, quase calculada, nas mudanças, tanto dos sons como dos cenários. Como se o “dono” do espetáculo não quisesse tornar-se cansativo para a “platéia”.
Num
misto de inebriada e assustada, aguardei o próximo minuto com certa apreensão.
Creio que tinha medo que tudo aquilo fosse apenas um sonho ou eu houvesse
morrido, sem dar-me conta.
Morrido???
Num
lampejo, como se um raio atravessasse a sala, imagens começaram a surgir em
minha mente confusa. Repentinamente, lembrei-me...
O
menino, saindo da confeitaria atrás do seu cachorrinho, não viu o carro.
Tentei uma freada, mas vi que à velocidade que vinha talvez fosse pior. Não
houve jeito, Para não atropelar o menininho, precipitei-me calçada acima,
perdi o controle e o carro bateu violentamente num poste de eletricidade. Apenas
me lembrava do barulho , mas não tinha nenhuma impressão de dor, ou qualquer
tipo de sofrimento.
E
ali estava eu agora, em algum lugar constatando
que, realmente, a vida física tinha seqüência.
Começou
a invadir-me um sentimento de alegria e o entusiasmo de estar “do outro
lado” tomou conta de mim. Qual seria a minha aparência agora? Queria tanto
encontrar algo que me refletisse... e mostrasse o meu rosto translúcido, onde
aparecesse toda a bondade que eu tinha no coração.
Afinal,
deixei o mundo terreno, para não ceifar a vida de um ente ainda jovenzinho e
com tantas coisas a fazer na vida... Ganharia por isso alguma recompensa. Tinha
certeza...
Estava nestas reflexões, quando surgiu uma criança, precisamente um menino, e perguntou:
Espantada,
com aquela presença inesperada, olhei em volta. Queria tanto uma explicação
sobre aquilo. Tanto esforço em manobrar o carro e afasta-lo da criança... E de
nada serviu? Ele, também tinha...
-
Puxa... Que bom que você está com uma aparência tranqüila... Fiquei com
certo receio de não cumprir direitinho a minha missão.
-
Missão... Que missão? Perguntei,
perplexa, sem entender nada do que ele dizia.
-
A de ir buscar você. Mas, eu não sabia como fazer. Então ocorreu-me aquela
encenação de atravessar a rua, atrás do cachorrinho. Tinha a certeza de que a
sua bondade iria prevalecer, por eu ser uma criança. E deu certo!
-
Quer dizer, então, que eu vim na hora certinha, que deveria ser?
-
Sim...Deus tem caminhos diversos. Quase todos incompreensíveis para nós. É
que vemos tudo por um ângulo muito pessoal. Por isso, não entendemos as coisas
quando elas acontecem e sofremos, sem necessidade.
-
E como você, tão pequeno, é incumbido de missão tão importante?
-
Não sou tão pequeno assim. Estou na forma de criança porque foi o jeito de
chamar a sua atenção. E você ficou tão desnorteada para não me tirar a
vida, que se esqueceu da sua. Nem pestanejou, ao tomar a decisão de jogar o
carro, sem saber o que tinha pela frente.
Estava
atenta ao que o menininho me dizia e só então me dei conta de que, passado
algum tempo, ele tomava a forma de um homem, já maduro, cabelos todos brancos,
um semblante tão bonito, olhar meigo... Deus Meu! Conheço aquele olhar, aquele
porte de um Rei... Vovô, é você? Claro que sim! Eu o reconheceria em qualquer
lugar, da Terra ou do Céu. Sabia que iria me buscar, quando chegasse a hora.
Tinha quase a certeza disso.
De
mãos dadas, saímos para explorar o meu NOVO LAR...
Ivan Leal e Milene
Arder
21/11/2000