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Marcos, É você?! Que coincidência a gente se encontrar logo
aqui, em Estocolmo!!! Você está um verdadeiro escandinavo. Até
clareou, rapaz!
- Também, pudera. Saí de São Paulo há muitos anos. Nem vejo sol
quase. E você? Como vai o nosso país tropical, a sua cidade?
Pelo bronzeado, vai bem. Eu nunca mais pude ir à Terra Brasilis.
Você sabe, muito trabalho!
- Olha, nosso país tá muito
legal. Não fica nada a dever à Suécia. Super-bem-organizado.
Cada governo melhor que o outro. Gente séria, você sabe. De São
Paulo, sua cidade, sei pouco. A minha, meu caro, merece o nome:
Maravilhosa. Em tudo. Os ricos, os remediados e os pobres se
entendem às mil maravilhas. Aliás, não existem grandes
diferenças sociais. Por isso, ninguém briga com ninguém. Não tem
gritaria, correria, barulhão..., como acontecia e acontece nas
megalópoles. O trânsito, então, que beleza! Organizado,
tranqüilo, poucos carros, transporte coletivo seguro, nenhum
assalto a passageiros. Você ouviu falar nas vans? Menino, nem te
conto: um achado. Pequenas camionetes, tudo bem inspecionado
pela prefeitura. Conforto e segurança máxima. As ruas do Rio,
meu caro, não têm um cisco: limpinhas e bem calçadas. Também, as
leis são duronas, mas cumpridas. Tem estacionamento subterrâneo
pra todo lado. Os veículos param no ato, quando um pedestre põe
o pé na rua. E os pedestres não abusam, respeitam os sinais. Tal
e qual o primeiro Mundo
- E a economia, o consumo?
- Nem te conto! Os empresários, os
comerciantes e os banqueiros têm um cuidado
danado com o desperdício, com o
consumo e com o lucro. Não temos mais intermediários, sabia?
Ficou tudo mais barato. Direto ao consumidor. Os patrões se
preocupam com os empregados. Oferecem participação nos lucros.
Como as cooperativas sonhadas por nós, socialistas, lembra? Eles
ficam sem graça de explorar os outros. A jornada dos empregados,
domésticos ou não, é de oito horas, folga nos finais de semana,
salário muito digno. Direitos trabalhistas cumpridos. Aliás,
ninguém mais tem empregado doméstico, com raras e honrosas
exceções. Muita tecnologia disponível, em perfeitas condições.
Todo mundo aprende a dividir tarefas de casa, desde criança.
Todas as famílias de mais dinheiro, sem exceção, incentivam as
artes, de qualquer meio social. E não é por benefício algum do
governo em troca. É por gosto. Seguimos os ingleses na compra de
alimentos e roupas: sobriedade total. Mesmo sem termos sofrido
as crises de guerra. Compramos tudo à vista: nada de prestações.
E os cartões de crédito praticamente acabaram. Só se usa cartão
para despesas excepcionais. Não fazem falta praticamente
nenhuma.
- E como vai a Educação
Pública?
- Tá um brinco, cara. As
crianças e os adolescentes todos freqüentam uma escola pública
bem aparelhada, cheia de computador, de excelente qualidade. É
sustentada tanto pelo governo municipal, como pelo estadual ou
federal. Sem nenhuma diferença. As crianças aprendem a ler e
escrever desde os quatro, cinco anos. Os maiores aprendem em
aulas de grupo, em salas com televisão e computador. Mesmo os
alunos especiais, com algum problema físico vão à escola, junto
com os outros. Numa boa. É claro que mestres e diretores são bem
pagos e preparados. Ser professor é hoje uma das ambições
maiores dos nossos jovens. Saem do ensino médio direto para uma
universidade, pública também. É a tal universidade aberta.
Estudam uns quatro anos e depois, profissão garantida.
- Mas, tem emprego pra todo
mundo?
- Tem muito emprego. Dá pra
todos, sim. Não é o meu caso. Você sabe, eu sou escritor. Vivo
de direitos autorais e bem. As leis de proteção à autoria são
levadas muito a sério. Na existe plágio. E cada vez se lê e
publica mais. Em papel ou internet. Desemprego só quando alguém
prefere ficar na praia sem fazer nadinha. Liberdade, acima de
tudo.(risos)
- E a saúde, Marcos? A saúde
pública vai bem? Não viu a Inglaterra?! Tinha um bom sistema
público e desde a tal da Thatcher piorou tudo.
Adeus, Welfare State! Nunca mais deu
certo. Ainda bem que estou na Suécia, país pequeno, muito
desenvolvido...
- A saúde vai muito bem. Na
minha cidade não tem problema. Os centros de saúde desafogam os
hospitais, atendem a uma quantidade fixa de famílias, mandam
médicos e agentes de saúde às casas de quem não pode se
locomover, por algum motivo. Funcionam vinte quatro horas por
dia. Médicos, enfermeiros e auxiliares, estão satisfeitos com o
salário que recebem. Não falta material de trabalho, nem
remédios. Temos ótimos centros de recuperação de pessoas com
sérios problemas físicos e mentais. Os hospitais públicos
mudaram tanto!!! Nunca têm fila, nem espera por atendimento.
Marcam consulta pelo telefone e funciona. As emergências são
atendidas na hora. De uns tempos para cá, então! Imagina que os
doentes mentais são acompanhados fora do hospital, com o maior
cuidado, sem ter que se internar por dá cá aquela palha. Como
fez a Itália há muito tempo, lembra? A idéia do hospital-dia se
espalhou e o atendimento tá cada dia mais moderno.
Olha, Marcos, pra te dar um
exemplo: uma vez, um visitante americano perguntou a um morador
bem vestido da cidade: - O senhor tem Plano de Saúde? O homem o
olhou espantado: - O quê que é Plano de Saúde?
-
Não é possível!!! Que coisa louca!!!
- É que como os serviços de
prevenção funcionam numa ótima, os postos de saúde e hospitais
têm vaga para toda a população. Os dentistas também são
gratuitos e excelentes. Cada posto, cada escola, tem um ou mais
dentista público. Até psicólogo tem nos postos e nas escolas.
- E o salário mínimo, melhorou?
- Muito. Os pobres são poucos.
Recebem um salário mínimo, não me lembro agora de quanto. Deve
ser melhor do que nos Estados Unidos. Só sei que cobre
plenamente as despesas de moradia, alimentação, vestuário. Tem
uma música que talvez você não conheça, que acho que fala: “A
gente não quer só comida/ a gente quer comida, diversão e arte?”
Parece que o governo ouviu e tem muita diversão grátis. Não
é só carnaval e futebol. Tem cervejinha bem gelada e
caipirinha, nos milhões de botecos baratos da cidade; cinemas e
teatros, tudo a preço de banana. Parques, museus aos montes. E,
mais que tudo, o sossego das praias.
- Eu li não sei onde que a praia
não tá legal.Ta muito poluída.
- Nada disso, cara. A praia do
Rio é demais! Areia branquinha, mar de água pura, sem poluição.
Igual aos anos 30, 40 do século passado. Tratamento de esgoto,
meu filho! Os prédios perto da orla são forçados a ter um
sistema especial de despoluição de lixo e dejetos. Não há esgoto
que chegue à praia. Deus me livre!O governo municipal oferece
barracas e cadeiras a todos os que pretendem se amorenar ao sol
do verão. Tem também barraquinhas grátis, que se encarregam de
matar a sede de água, refrigerante ou cerveja, e aquela vontade
de saborear empadinhas, sanduíches, biscoitos, de gosto
apurado. É tudo pago pela prefeitura.
- Gente, que bom! Pena eu ser de São Paulo e, mesmo que volte
pro Brasil, vai ser pra lá, por causa da minha família. Quanta
coisa boa vou perder!
- Mas, deixa eu contar mais. No
tempo em que a cidade era capital do país, lembra, algumas
pessoas preferiram morar nos morros da cidade. É claro que o
governo tratou de organizar condomínios para os pobres, como os
dos ricos nas serras de antigamente. Cheios de árvores e
vegetação, para não prejudicar a Mata Atlântica. Casas e
pequenos edifícios confortáveis, tudo construído, pintado e
arborizado às custas do governo. As ladeiras são sopa de subir.
Daí que o transporte no metrô, que cobre a cidade inteira, ou em
ônibus de tamanho médio, mais as famosas vans, nunca os deixa na
mão. O pessoal que mora nos morros da orla, além da vista para o
mar, sentem uma brisa tão gostosa, mesmo no verão de 30 graus no
máximo, que dispensam ventilador ou ar condicionado. Os que não
gostam de morar no alto, receberam casas, nas demais áreas bem
urbanizadas de toda a cidade. Eu disse CASAS. Não a porcaria de
outros governos. Você sabe, tem muita gente que escolhe morar no
subúrbio. Por gosto. Também, a Zona Norte e Oeste – lugares de
calor um pouco mais forte – estão cheias de árvores e flores. E
os rios não têm poluição. O lixo tem coleta seletiva e é
retirado diariamente. A Baía de Guanabara está uma coisa linda
de limpa! E a Lagoa, idem.
- Ainda bem, Daniel. Era uma
pena a cidade, a Baía tão largadas. Afinal, o Rio é local de
turismo.
- Deixa eu te contar,
então. Os turistas ficam literalmente de boca aberta com
o que vêem em termos de boa-vontade, organização, segurança.
Ninguém tem medo de andar nas ruas. Bandido, se é que existe,
não aparece nunca. Nem sai nada nos jornais e na televisão. Quem
tem jóias de ouro pode usar, numa boa.
-
Mas, meu amigo, qual é o segredo? Como é que vocês conseguiram
tudo isso?
- Fácil, amigão: honestidade a toda
prova e trabalho sem conchavo dos políticos eleitos. Temos
ótimos candidatos sempre. Por isso é que você sente a educação
da sociedade por toda parte. Até nos presídios, sempre
reformados, para caber o número exato de presos. São tratados
com vigilância, sim, mas muita decência. Na verdade, os presos
são poucos. Certamente, há um ou outro que escapole. Você sabe,
o ser humano não é perfeito: ladrões “de galinha”, em geral
garotos pra provar que são machos; um vendedorzinho de maconha,
que cobra além do preço estipulado pelas autoridades. Só
maconha, viu? E crime passional, que este não acaba jamais:
l´amour, toujour l´amour (risos).
-
E os tiroteios do Rio, que saíam nos jornais daqui, acabaram?
-
Claro. Ouço falar que ainda há cidades em que o tiroteio entre
gangues e entre polícia e bandidos imita os mafiosos italianos.
Na Maravilhosa, cara, viver em harmonia é o nosso lema. De
manhã, a gente acorda sorrindo. Depois, um bom café da manhã, e
lá vamos nós, cantando para o trabalho. Não cantando pneu de
carro. (risos). Não importa o tipo de serviço que se faça,
satisfação garantida.
- Gente! Que paraíso! Assim que eu me aposentar, fico uns tempos
em São Paulo e vou pra lá. Ora, se vou! Quando é que você me
leva para te visitar?
- Breve, amigo, muito em breve.
Acho que daqui a uns cem anos. No máximo, duzentos.
Maria
Lindgren |