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Meus queridos filhotes
Nunca ouvi falar em Dia dos Filhos.
No entanto, deu-me um estalo: resolvi comemorar vocês no
badalado Dia das Mães. Por acaso eu seria mãe, se não os tivesse
tido? Acho, pois, uma injustiça inominável celebrar, com
espalhafato, as mães e deixar os filhos em esquecimento de
morte. Quantos não cuidam e sustentam mães idosas ou doentes! Ou
mesmo, salvam as mães mais jovens do desespero da solidão?!
Ser mãe foi minha escolha.
Persegui, com tenacidade, meu desejo. A tal tabela de controle
da natalidade me serviu de guia, para aguardar o espermatozóide
no dia mais fértil do ciclo. Bateu, valeu. Sem inseminação
artificial, nem mãe de aluguel.
Maternidade certa, amanheci em céu azul e cânticos
de Aleluia. Corri ao quarto, assentei na vitrola nada
estereofônica, acostumada a melodias suaves, um samba-enredo da
Mangueira. Cabo de vassoura à guisa de estandarte, alma do samba
incorporada, rebolei, rebolei, até os cinco, seis meses de
gravidez, pelo menos.
A cada dia, mais barriga, mais
regozijo. Em ritual diário, espremia o bico dos seios
entumecidos, para ver se espirrava o milagre do leite. Um certo
enjôo após as refeições, desejos de comer abio ou sapoti, frutas
desaparecidas de minha despensa há muitos anos, desde minha
infância de quintal. E só. Rosto plácido de mãe me achava bela!
O espelho mostrava o crescimento
paulatino. Minha ingenuidade exibia ao marido o corpo diferente,
em que só eu achava graça. Deitava cedo para o mês voar. E
sonhava par de anjos entre nuvens brancas de céu perfeito, a
segurar as alças de uma cestinha de Moisés, com anjos para mim.
Pensava, como Drummond “ São anjos que se dignaram/
participar do banquete, alisar o tamborete, viver vida de
menino.
Espalhei a notícia ao vento
como milho jogado a galinhas esfomeadas: marido, avós, amigas.
Minha mãe, logo se viu avó sorridente e condescendente, como
devem ser os avós. Perguntou-me, em tempos de impossibilidade de
descobrir os sexo dos nenéns durante a gestação: - Vai ser
menino ou menina? Qualquer sexo servia, para meu orgulho
ansiado. Vivi a gravidez, em fervor de Maria ao saber do seu
Jesus Cristo. Só não sei se Nossa Senhora também tinha azia, um
tanto de cansaço e pernas inchadas, nos dias finais. As
escrituras são lacônicas, vocês sabem.
Com você, meu filho, menos
escândalo, mas os mesmos sentimentos: preparei o terreno,
camponesa a revolver e plantar o fruto magnífico de minha terra.
E colhi-o, com certeza.
A primeira filha mulher
respondeu às preces a Deus da mãe, feminista moderada, que não
desprezava o ladies first. Olhos puxados de
japonesa, pele morena de indiana, cabelos castanho-escuro da
maioria das brasileiras, descendentes de brasileiros típicos,
indiferentes a outros ascendentes.
Nasceu cabeçuda. Queria sair
logo, e eu, com egoísmo e pouca dilatação, não deixava. Você
teimou, teimou e foi tirada por cesariana, afinal.
Na sua vez, filho, o médico não
bobeou: cesariana direto. Foi bom. Eu detestava chavões de
“parirás com dor os seus filhos”. Mais alourado, talvez pelo
bisavô, escandinavo teimoso. Bebê lindo, de chamar atenção.
Depois de anos de lambição da
primeira cria é que você veio: um machoman, desejado,
programado, esperado. Mesmo com alguns pontapés a mais na
barriga: homem é sempre mais turbulento, dizem. A mesma sensação
de completude: as mães biológicas me entendem.
Por que esperei tanto? Porque
queria capricho igual na segunda confecção. E ter saudade de
cheirinho de bebê em toda a casa, da pele hipermacia e morna, do
primeiro sorriso do qual nem Frankestein escapa. Sério: demorei
porque sofri uma pneumonia idiota sua, minha filha. Você ficou
tão depauperada... Fora, as mil diarréias de seu intestino que
se movimentava sem escolher hora.
A menina no jardim de infância,
dava mais tempo para curtir o menino, sem medo do ciúme. Aliás,
um baita chorão, viu, meu rapaz?! A ponto de engasgar e perder o
fôlego. Cada susto!!! Sua mania de chorar me causou embaraços:
vizinhos acorriam e perguntavam, alarmados: - Gente! O quê que
você fez a esta criancinha? Bateu nele? Coitadinho!
E no dia em que, já bem
crescido, você deu de correr descalço pela copa, escorregou no
chão de ladrilho úmido e quebrou os dentes da frente acabados de
despontar! Um horror! Logo comigo, que queria dentaduras
perfeitas, sem sombra de cárie. Graças aos céus, o dentista era
um primor de cuidado e habilidade: imitou seus dentes
recém-natos à perfeição.
Você, filha, também tinha lá
seus aborrecimentos: joelhos, em discreto genu valgo,
botas terríveis a lhe impor suplício, palmilhas hediondas: tudo
besteira do tempo de ortopedia da Idade da Pedra e nenhuma
fisioterapia.
“ Que coisa louca, que coisa
linda, que maravilha que os filhos são.”, diz Vinicius de
Morais. Eu concordo plenamente.
É verdade que passei alguns
anos sem poder ir ao banheiro direito, por causa de vocês,
agarrados comigo, mesmo com vovó e babá por perto. Noite inteira
de sono, nunca mais! Horas e horas no banho, qual Cleópatra em
banheira de leite, idem. Me embelezar sem manchar ou quase furar
os olhos com o lápis preto, então!
Mãe é isso: doida de pedra.
Lembra, filhota, que estraguei sua noite de núpcias de tanto
chorar? Ninguém acredita quando conto: fui dormir com você e seu
marido. Ainda bem que jovens avançados não precisam mais
resolver “aquele”problema sexual! E agora, vocês adultos, se não
os encontro em carne e osso, telefonemas diários. Inda mais,
neste Rio de perigos reais iminentes.
Você se recorda, filho, do vexame de sua mãe no dia de sua
formatura no curso de flauta doce? Em lugar de rir, solucei. A
ponto da professora perguntar se era alguma dor muito forte.
E
ao saber da sua mudança, filha, para os States, por conta da
bolsa de estudos de seu marido?! Crise de coluna me arriou no
leito. Um ano longe de mim, dose para leoa!
Momentos de prazer nem conto: desde o embrião até agora.
Encheriam muitas e muitas páginas. Paro, pois, por aqui.
Peço desculpas por não os homenagear melhor. Sou limitada. Faço
a hosana que posso, através das palavras justas, verdadeiras,
àqueles que me deram chance de receber as poéticas honrosas de
Cora Coralina: “Tens o dom divino/ de ser mãe/ Em ti está
presente a humanidade.” O que não é pouca coisa, não
é mesmo?
Obrigada! Muito obrigada por me darem a oportunidade única de
ser sua.
Mãe
o. |