Maria Lindgren

 Carta a Filhos No Dia Das Mães

            Meus queridos filhotes

Nunca ouvi falar em Dia dos Filhos. No entanto, deu-me um estalo: resolvi comemorar vocês no badalado Dia das Mães. Por acaso eu seria mãe, se não os tivesse tido? Acho, pois, uma injustiça inominável celebrar, com espalhafato, as mães  e deixar os filhos em esquecimento de morte. Quantos não cuidam e sustentam mães idosas ou doentes! Ou mesmo, salvam as mães mais jovens do desespero da solidão?!

 Ser mãe foi minha escolha. Persegui, com tenacidade, meu desejo. A tal tabela de controle da natalidade me serviu de guia, para aguardar o espermatozóide no dia mais fértil do ciclo. Bateu, valeu. Sem inseminação artificial, nem mãe de aluguel.

            Maternidade certa, amanheci em céu azul e cânticos de Aleluia. Corri ao quarto, assentei na vitrola nada estereofônica, acostumada a melodias suaves, um samba-enredo da Mangueira. Cabo de vassoura à guisa de estandarte, alma do samba incorporada, rebolei, rebolei, até os cinco, seis meses de gravidez, pelo menos.

A cada dia, mais barriga, mais regozijo. Em ritual diário, espremia o bico dos seios entumecidos, para ver se espirrava o milagre do leite. Um certo enjôo após as refeições, desejos de comer abio ou sapoti, frutas desaparecidas de minha despensa há muitos anos, desde minha infância de quintal. E só. Rosto plácido de mãe me achava bela!

O espelho mostrava o crescimento paulatino. Minha ingenuidade exibia ao marido o corpo diferente, em que só eu achava graça. Deitava cedo para o mês voar. E sonhava par de anjos entre nuvens brancas de céu perfeito, a segurar as alças de uma cestinha de Moisés, com anjos para mim. Pensava, como Drummond “ São anjos que se dignaram/ participar do banquete, alisar o tamborete, viver vida de menino. 

Espalhei  a notícia ao vento como milho jogado a galinhas esfomeadas: marido, avós, amigas. Minha mãe, logo se viu avó sorridente e condescendente, como devem ser os avós. Perguntou-me, em tempos de impossibilidade de descobrir os sexo dos nenéns durante a gestação: - Vai ser menino ou menina? Qualquer sexo servia, para meu orgulho ansiado. Vivi a gravidez, em fervor de Maria ao saber do seu Jesus Cristo. Só não sei se  Nossa Senhora também tinha azia, um tanto de cansaço e pernas inchadas, nos dias finais. As escrituras são lacônicas, vocês sabem.

Com você, meu filho, menos escândalo, mas os mesmos sentimentos: preparei o terreno, camponesa a revolver e plantar o fruto magnífico de minha terra. E colhi-o, com certeza.

A primeira filha mulher respondeu às preces a Deus da mãe, feminista moderada, que não desprezava o ladies first. Olhos puxados de japonesa, pele morena de indiana, cabelos castanho-escuro da maioria das brasileiras, descendentes de brasileiros típicos, indiferentes a outros ascendentes.

Nasceu cabeçuda. Queria sair logo, e eu, com egoísmo e pouca dilatação, não deixava. Você teimou, teimou e foi tirada por cesariana, afinal.

Na sua vez, filho, o médico não bobeou: cesariana direto. Foi bom. Eu detestava chavões de “parirás com dor os seus filhos”. Mais alourado, talvez pelo bisavô, escandinavo teimoso. Bebê lindo, de chamar atenção.

Depois de anos de lambição da primeira cria é que você veio: um machoman, desejado, programado, esperado. Mesmo com alguns pontapés a mais na barriga: homem é sempre mais turbulento, dizem. A mesma sensação de completude: as mães biológicas me entendem.

Por que esperei tanto? Porque queria capricho igual na segunda confecção. E ter saudade de cheirinho de bebê em toda a casa, da pele hipermacia e morna, do primeiro sorriso do qual nem Frankestein escapa. Sério: demorei porque sofri uma pneumonia idiota sua, minha filha. Você ficou tão depauperada... Fora, as mil diarréias de seu intestino que se movimentava sem escolher hora.

A menina  no jardim de infância, dava mais tempo para curtir o menino, sem medo do ciúme. Aliás, um baita chorão, viu, meu rapaz?! A ponto de engasgar e perder o fôlego. Cada susto!!! Sua mania de chorar me causou embaraços: vizinhos acorriam e perguntavam, alarmados: - Gente! O quê que você fez a esta criancinha? Bateu nele? Coitadinho!

E no dia em que, já bem crescido, você deu de correr descalço pela copa, escorregou no chão de ladrilho úmido e quebrou os dentes da frente acabados de despontar! Um horror! Logo comigo, que queria dentaduras perfeitas, sem sombra de cárie. Graças aos céus, o dentista era um primor de cuidado e habilidade: imitou seus dentes recém-natos à perfeição.

Você, filha, também tinha lá seus aborrecimentos: joelhos, em discreto genu valgo, botas terríveis a lhe impor suplício, palmilhas hediondas: tudo besteira do tempo de ortopedia da Idade da Pedra e nenhuma fisioterapia.

 “ Que coisa louca, que coisa linda, que maravilha que os filhos são.”, diz Vinicius de Morais. Eu concordo plenamente.

 É verdade que passei alguns anos sem poder ir ao banheiro direito, por causa de vocês, agarrados comigo, mesmo com vovó e babá por perto. Noite inteira de sono, nunca mais! Horas e horas no banho, qual Cleópatra em banheira de leite, idem. Me embelezar sem manchar ou quase furar os olhos com o lápis preto, então!

Mãe é isso: doida de pedra. Lembra, filhota, que estraguei sua noite de núpcias de tanto chorar? Ninguém acredita quando conto: fui dormir com você e seu marido. Ainda  bem que jovens avançados não precisam mais resolver “aquele”problema sexual! E agora, vocês adultos, se não os encontro em carne e osso, telefonemas diários. Inda mais, neste Rio de perigos reais iminentes.

Você se recorda, filho, do vexame de sua mãe no dia de sua formatura no curso de flauta doce? Em lugar de rir, solucei. A ponto da professora perguntar se era alguma dor muito forte.

E ao saber da sua mudança, filha, para os States, por conta da bolsa de estudos de seu marido?! Crise de coluna me arriou no leito. Um ano longe de mim, dose para leoa!

Momentos de prazer nem conto: desde o embrião até agora. Encheriam muitas e muitas páginas. Paro, pois, por aqui.

 Peço desculpas por não os homenagear melhor. Sou limitada. Faço a hosana que posso, através das palavras justas, verdadeiras, àqueles que me deram chance de receber as poéticas honrosas de Cora Coralina: “Tens o dom divino/ de ser mãe/ Em ti está presente a humanidade.” O que não é pouca coisa, não é mesmo?

Obrigada! Muito obrigada por me darem a oportunidade única de ser sua.

Mãe

o.

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