Maria Lindgren

 A Arara

            A arara, ave da família das Psittacidae, como o papagaio, o periquito e outras mais, só consegue falar uma imitação de palavras e aos berros, já se sabe. Todos os dias, invariavelmente às seis da manhã, o prédio todo ouvia: Joéu, Joéu, Joéu...: nome do dono da casa. O homem, palavrões prontos, pulava em fúria, queria estrangular a ave, propriedade de sua mulher.

Nunca o fez. Temia o escândalo que o bicho falante encenaria. Pior que porco na matança. Problema certo para ele, síndico eleito, bem escolhido.

Prédio metido a chique é um trabalhão. Em rua sossegada, sem saída, no Leblon, então...! Qualquer barulhinho... danou-se. Reclamação aos potes: por fax, por email, em pessoa.

Até por causa de uma moradora fogosa do apartamento de cima, ao deixar a luxúria se manifestar em gemidos altos, o síndico foi chamado. O homem tinha, pois, que dar  bom exemplo. Nada de escândalos.

No belo apartamento do terceiro andar, uma senhora de nome complicado – Mitzi -, de aparência normal, ainda bonita, bem posta na vida, sem grandes perturbações familiares, vivia o silêncio quase absoluto de viúva sem filhos, mãe idosa e empregadas discretas.

 As raras visitas para o chá britânico das cinco sussurravam, à imitação dos ingleses de boa estirpe. Pessoas de alta classe e baixa excitação. Ruído mesmo, só durante os poucos aniversários festejados  ou nas festas habituais do calendário. Mesmo assim, a senhora insinuava vozes baixas a quantos dela se lembravam.

A vida de Mitzi, no entanto, nem sempre fora assim tranqüila. Dera-lhe contragostos e aventuras, sem dúvida. O marido contraíra doença inexplicável e falecera sem ái. Em silêncio, pois. Com mais de sessenta anos, não cabia a Mitzi se lamuriar muito, nem alto. Deixou descerem algumas pequenas lágrimas, enxugou-as após os funerais, e só.

 A relação matrimonial de quarenta anos, transformara-se na habitual e esperada convivência de irmãos pacíficos, sem brigas, ressentimentos ou competições. Os arroubos sexuais mais barulhentos duraram uns dez anos, no máximo. Foram dissolvendo-se com naturalidade. Mitzi aproveitara-os bem com o marido e, por que não admitir,  com um ou outro admirador, sem conseqüência.

Agora, vivia seu cerco de porcelanas finas, pratarias e jóias, presentes do marido abastado e apaixonado, de um ou outro gentleman admirador, com recato e muito sossego..

Nunca necessitara, nem desejara outra carreira, se não a de inspecionar o lar sem filhos, ler enquanto fazia soar, em surdina, seus Mozarts, Chopins e Debussys.

 Sinais mudos de tédio anunciados ao longe, Mitzi, moça ou senhora de menos de sessenta, viajava. Com marido ou amiga de posses. Passatempo predileto. Passava seis meses ininterruptos no Brasil, seis outros em passeios pela Europa ou, como concessão, a: Nova York ou Boston.

 Paris jamais lhe negaceara braços acolhedores: ótimas compras, teatros, jantares... À exceção de um único dia difícil, em que o marido, deixado no Brasil, tivera que  operar, de urgência, a vesícula. Cônscia de seus deveres conjugais, pegou um táxi, esbaforida, e rumou para a missa do Sacre Coeur. Tinham-lhe dito que era a igreja mais milagreira de Paris. Verdade: o esposo se restabeleceu logo, logo. Pelo menos, foi o Mitzi pensou, para não ter que interromper a viagem e poder afastar a nuvem cinza a lhe enevoar os intentos.

No próprio país, saía aos fins de semana para as montanhas de Itatiaia ou, por favor ao marido, às praias de Búzios, de um tempo privilegiado de poucos turistas.

A pouco e pouco, qual monstro do filme Alien e seus tentáculos viscosos e viciados, a idade a agarrava, obrigava Mitzi a diminuir os passeios, aquietar-se. Atacaram-lhe as hérnias de disco que a obrigavam a sair uma vez por semana, pelo menos, para massagem, acupuntura e outros tratamentos.

Os sons típicos da cidade ou da casa deixavam-na em exasperação de pessoa  deprimida latente.

Não herdara da mãe a pendência para  nenhum tipo de arte silenciosa. A mãe sabia costurar bem e, se não era pintora famosa; pintava flores em porcelana para presentear as amigas.

Mitzi lia um pouco mais que o comum das brasileiras, é verdade. Mas não se sentia atraída pela escrita, nem mesmo pelas artes plásticas, que lhe poderiam oferecer prazer sem som. Mesmo a música mais suave começava a irrita-la, sobretudo, ao sentir a dor impiedosa. O mexe-mexe da arrumação de casa, a respiração ofegante da mãe, o mastigar das pessoas à hora das refeições, tudo a deixava exasperada.

De positivo, somente seu sono de pedra, por longas horas. Jamais se levantava antes das dez da manhã. Portanto, seus ouvidos nunca eram molestados ao dormir.

E é aí que entra a arara da vizinha e seus estridulantes apelos pelo Joel, às seis da manhã. Enquanto a mãe de Mitzi, surda de um dos ouvidos, chorava de aflição na cabeça por conta dos gritos da arara, a filha ressonava.

À tarde, talvez por consideração à Mitzi, a arara não emudecia em sua confortável gaiola. Comia, bebia e dormitava, como qualquer dama de muita idade.

Num dia extremamente nublado, no entanto, a ave trocou de horário matinal: dormiu demais. Em lugar das seis da manhã, acordou o dono às dez. Atrasou o homem para o trabalho. Foi aí que Mitzi escutou o “Joéu” repetido, quase angustiado.

Encantou-se, quando deveria horrorizar-se. Passou a acordar com o despertador de penas coloridas. Impreterivelmente às seis da manhã, hora ajustada outra vez pela arara.  Apesar de não ver as  a ave palradora, adorava o despertar cedo e ruidoso. Alegrava-a..

Joel, no entanto, cada vez mais ensandecido, certa manhã de ressaca, fez calar a arara: despachou-a para bem longe. Ou matou-a, não ficou claro. Nenhum som, de novo. Nem do sino da igreja próxima a chamar para a missa, nem de trabalhador braçal a bater martelo. Nada.

Mitzi passou a acordar às onze ou mais tarde ainda, uma ponta de agonia a mexer-lhe no humor. Além de atrasar dentista, médico, almoço, jornada toda, enfim.

Daí em diante, prece diária pelo retorno da arara. Sem resultado, começou a implorar à mãe, pródiga de presentes para a filha, como se fosse para Mitzi menina:

 - Mãe, compra uma arara só para mim! Faço anos semana este mês, não se esqueça! Não é papagaio, não é periquito. É a-ra-ra.

A mãe, lúcida, olhou-a com a naturalidade de quem conhece caprichos. Respondeu que sim, compraria à prestação, porque hoje, minha filha, nada se compra à vista. Quantas prestações, ninguém contou. Nem a senhora de idade, que detestava pensar no futuro.

Passados alguns dias de mortal sofrimento, Mitzi despertou às dez em ponto, sem sino, sem martelo, sem música. A voz esganiçada e estridente de uma bonita arara vermelha, de bico amarelo e asas azuis, gritava-lhe,  à porta do quarto: Miiitz, Miiitz, Miiitz... O paraíso, afinal!

Maria Lindgren

voltar