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A arara, ave da família das Psittacidae, como o papagaio,
o periquito e outras mais, só consegue falar uma imitação de
palavras e aos berros, já se sabe. Todos os dias,
invariavelmente às seis da manhã, o prédio todo ouvia: Joéu,
Joéu, Joéu...: nome do dono da casa. O homem, palavrões prontos,
pulava em fúria, queria estrangular a ave, propriedade de sua
mulher.
Nunca o fez. Temia o escândalo que
o bicho falante encenaria. Pior que porco na matança. Problema
certo para ele, síndico eleito, bem escolhido.
Prédio metido a chique é um
trabalhão. Em rua sossegada, sem saída, no Leblon, então...!
Qualquer barulhinho... danou-se. Reclamação aos potes: por fax,
por email, em pessoa.
Até por causa de uma moradora
fogosa do apartamento de cima, ao deixar a luxúria se manifestar
em gemidos altos, o síndico foi chamado. O homem tinha, pois,
que dar bom exemplo. Nada de escândalos.
No belo apartamento do terceiro
andar, uma senhora de nome complicado – Mitzi -, de aparência
normal, ainda bonita, bem posta na vida, sem grandes
perturbações familiares, vivia o silêncio quase absoluto de
viúva sem filhos, mãe idosa e empregadas discretas.
As raras visitas para o chá
britânico das cinco sussurravam, à imitação dos ingleses de boa
estirpe. Pessoas de alta classe e baixa excitação. Ruído mesmo,
só durante os poucos aniversários festejados ou nas festas
habituais do calendário. Mesmo assim, a senhora insinuava vozes
baixas a quantos dela se lembravam.
A vida de Mitzi, no entanto, nem
sempre fora assim tranqüila. Dera-lhe contragostos e aventuras,
sem dúvida. O marido contraíra doença inexplicável e falecera
sem ái. Em silêncio, pois. Com mais de sessenta anos, não cabia
a Mitzi se lamuriar muito, nem alto. Deixou descerem algumas
pequenas lágrimas, enxugou-as após os funerais, e só.
A relação matrimonial de
quarenta anos, transformara-se na habitual e esperada
convivência de irmãos pacíficos, sem brigas, ressentimentos ou
competições. Os arroubos sexuais mais barulhentos duraram uns
dez anos, no máximo. Foram dissolvendo-se com naturalidade.
Mitzi aproveitara-os bem com o marido e, por que não admitir,
com um ou outro admirador, sem conseqüência.
Agora, vivia seu cerco de
porcelanas finas, pratarias e jóias, presentes do marido
abastado e apaixonado, de um ou outro gentleman
admirador, com recato e muito sossego..
Nunca necessitara, nem desejara
outra carreira, se não a de inspecionar o lar sem filhos, ler
enquanto fazia soar, em surdina, seus Mozarts, Chopins e
Debussys.
Sinais mudos de tédio
anunciados ao longe, Mitzi, moça ou senhora de menos de
sessenta, viajava. Com marido ou amiga de posses. Passatempo
predileto. Passava seis meses ininterruptos no Brasil, seis
outros em passeios pela Europa ou, como concessão, a: Nova York
ou Boston.
Paris jamais lhe negaceara
braços acolhedores: ótimas compras, teatros, jantares... À
exceção de um único dia difícil, em que o marido, deixado no
Brasil, tivera que operar, de urgência, a vesícula. Cônscia de
seus deveres conjugais, pegou um táxi, esbaforida, e rumou para
a missa do Sacre Coeur. Tinham-lhe dito que era a igreja
mais milagreira de Paris. Verdade: o esposo se restabeleceu
logo, logo. Pelo menos, foi o Mitzi pensou, para não ter que
interromper a viagem e poder afastar a nuvem cinza a lhe enevoar
os intentos.
No próprio país, saía aos fins
de semana para as montanhas de Itatiaia ou, por favor ao marido,
às praias de Búzios, de um tempo privilegiado de poucos
turistas.
A pouco e pouco, qual monstro do
filme Alien e seus tentáculos viscosos e viciados, a idade a
agarrava, obrigava Mitzi a diminuir os passeios, aquietar-se.
Atacaram-lhe as hérnias de disco que a obrigavam a sair uma vez
por semana, pelo menos, para massagem, acupuntura e outros
tratamentos.
Os sons típicos da cidade ou da
casa deixavam-na em exasperação de pessoa deprimida latente.
Não herdara da mãe a pendência
para nenhum tipo de arte silenciosa. A mãe sabia costurar bem
e, se não era pintora famosa; pintava flores em porcelana para
presentear as amigas.
Mitzi lia um pouco mais que o
comum das brasileiras, é verdade. Mas não se sentia atraída pela
escrita, nem mesmo pelas artes plásticas, que lhe poderiam
oferecer prazer sem som. Mesmo a música mais suave começava a
irrita-la, sobretudo, ao sentir a dor impiedosa. O mexe-mexe da
arrumação de casa, a respiração ofegante da mãe, o mastigar das
pessoas à hora das refeições, tudo a deixava exasperada.
De positivo, somente seu sono de
pedra, por longas horas. Jamais se levantava antes das dez da
manhã. Portanto, seus ouvidos nunca eram molestados ao dormir.
E é aí que entra a arara da
vizinha e seus estridulantes apelos pelo Joel, às seis da manhã.
Enquanto a mãe de Mitzi, surda de um dos ouvidos, chorava de
aflição na cabeça por conta dos gritos da arara, a filha
ressonava.
À tarde, talvez por consideração
à Mitzi, a arara não emudecia em sua confortável gaiola. Comia,
bebia e dormitava, como qualquer dama de muita idade.
Num dia extremamente nublado, no
entanto, a ave trocou de horário matinal: dormiu demais. Em
lugar das seis da manhã, acordou o dono às dez. Atrasou o homem
para o trabalho. Foi aí que Mitzi escutou o “Joéu” repetido,
quase angustiado.
Encantou-se, quando deveria
horrorizar-se. Passou a acordar com o despertador de penas
coloridas. Impreterivelmente às seis da manhã, hora ajustada
outra vez pela arara. Apesar de não ver as a ave palradora,
adorava o despertar cedo e ruidoso. Alegrava-a..
Joel, no entanto, cada vez mais
ensandecido, certa manhã de ressaca, fez calar a arara:
despachou-a para bem longe. Ou matou-a, não ficou claro. Nenhum
som, de novo. Nem do sino da igreja próxima a chamar para a
missa, nem de trabalhador braçal a bater martelo. Nada.
Mitzi passou a acordar às onze
ou mais tarde ainda, uma ponta de agonia a mexer-lhe no humor.
Além de atrasar dentista, médico, almoço, jornada toda, enfim.
Daí em diante, prece diária pelo
retorno da arara. Sem resultado, começou a implorar à mãe,
pródiga de presentes para a filha, como se fosse para Mitzi
menina:
- Mãe, compra uma arara só para
mim! Faço anos semana este mês, não se esqueça! Não é papagaio,
não é periquito. É a-ra-ra.
A mãe, lúcida, olhou-a com a
naturalidade de quem conhece caprichos. Respondeu que sim,
compraria à prestação, porque hoje, minha filha, nada se compra
à vista. Quantas prestações, ninguém contou. Nem a senhora de
idade, que detestava pensar no futuro.
Passados alguns dias de mortal
sofrimento, Mitzi despertou às dez em ponto, sem sino, sem
martelo, sem música. A voz esganiçada e estridente de uma bonita
arara vermelha, de bico amarelo e asas azuis, gritava-lhe, à
porta do quarto: Miiitz, Miiitz, Miiitz... O paraíso, afinal!
Maria
Lindgren |