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Tento chorar. Não consigo. Busco indignação, pelo menos. Meu
sentimentos não respondem. Recebo hoje pedido de solidariedade
aos flagelados das enchentes do Piauí – um dos estados
nordestinos menos enfocado em suas belezas. Mas, ainda ontem,
recebi imagens de outras enchentes devastadoras no Maranhão –
terra onde, dizia a lenda, o português era o mais bem falado do
país. Ou em Santa Catarina – aquele Estado de Espírito, do Sul
Maravilha. Ou no Amazonas - onde a água e o verde são o que
são, fora a praga dos gananciosos. Ou no Pará – estado da
castanha que mais amo. E anteontem, foi o vendaval que cortou os
troncos de belas árvores, deixando-os cair em cima de carros e
casas logo ali, em subúrbio de São Paulo ou do Rio.
Na mesma noite, dentro da minha casa, sem troncos caídos, nem
inundações, tiros do quartel ao lado, pareciam balas de verdade
e não, mero treinamento. Aí, sim, pulei de susto no sofá em que
me aboletara para ler um livro de literatura, que está nas
paradas de sucesso.
Somente então me dei conta da indiferença que reina em meu
mundo. Ou será no mundo todo? Como é que me assusto tanto com um
ploc mais forte e não me abala o que vejo e ouço em meu
dia-a-dia na tevê e no rádio? Onde ficou escondida aquela
criatura antes tão sensível?
Recordo-me de meu choro copioso todas as vezes em que via um
filme de guerra no cinema. Mar Cruel, um filme inglês da Segunda
Guerra Mundial, quase me matou. O afogamento dos tripulantes do
navio, estraçalhado pela ação de submarinos alemães, me cortou
em mil pedaços as entranhas físicas e morais. E, bem menos
antigo, no A lista de Schindler, como torci pelo salvamento dos
judeus e como me desesperei com os que foram trucidados em
Auschwitz e outros campos de concentração! Que emoção de alívio
saber com os europeus, sobretudo, com os judeus, que a guerra
mundial tinha acabado e com ela, o extermínio de gente inocente!
Que glória ver os kibuts socialistas do Estado de
Israel! Seriam os mesmos herdeiros de uma das tradições
religiosas mais b onitas os que hoje combatem os palestinos em
interminável guerra pela posse da terra?
Lembro-me bem da última reação de imobilidade ante o pavor, que
experimentei diante da televisão: no 11 de Setembro de 2001, já
lá vão oito anos. A imagem dos aviões qual serra elétrica de
science fiction, abrindo fendas no meio do World Trade
Center, me deixou imbecilizada, lerda. Quem ousaria tanto? Que
novo kamikase louco se jogaria sobre os prédios
símbolos do poder norte-americano, junto com passageiros
inocentes, obrigados a compartilharem da insanidade, sem
promessa de salvação eterna? Cheguei a sentir cheiro de corpos
ensangüentados e incendiados, nos dias que se seguiram. Contra
a minha vontade, porque tudo aconteceu “lá neles”.
Em 2005, o Furacão Katrina destruiu, num formidável espirro do
mar, a cidade mais simpática dos Estados Unidos, a querida e
chique Nova Orleans, berço do jazz negro, lembram? E aí, a onda
quase me afogou. Dessa vez, o “lá neles” incluía uma amiga nossa
muito querida, que passou fome, sede, frio, perdeu tudo, menos a
vida, graças a Deus.
Cenas de desastres ecológicos, de guerras localizadas, de fome
ainda experimentada por muitos, de civis, inclusive crianças,
mutilados por minas, de assassinatos estrangeiros, entre outras
barbaridades “lá neles”, para mim, de uns tempos para cá,
passaram a se confundir com a ficção dos filmes, a cada dia mais
violentos. Habituei-me a ver jorros de sangue, corpos e dedos
cortados, sem crispar minhas mãos, um simples e pequeno mal
estar a despontar no estômago, semelhante ao meu olhar sobre um
quadro de Goya ou a Guernica de Picasso. Sem tremor, sem
lágrimas, talvez com admiração pelos efeitos especiais tão bem
feitos.
E pior, muito pior. Mesmo quando a coisa se dá logo ali, em meu
próprio país, penso que não pode ser verdade. Não passa de um
copião, que precisa ainda de retoques.
Em compensação, saio do cinema, após filmes ficcionais
românticos e documentários bem feitos, com vermelhidão tão
patente nos olhos lacrimejantes, que corro a escondê-la debaixo
dos óculos. Mal me lembro do filme e as lágrimas voltam a
brotar.
Gente, estou ficando é louca.
Maria Lindgren
junho/2009 |