Maria Lindgren

 A Banalização Do Horror

Tento chorar. Não consigo. Busco indignação, pelo menos. Meu sentimentos não respondem. Recebo hoje pedido de solidariedade aos flagelados das enchentes do Piauí – um dos estados nordestinos menos enfocado em suas belezas. Mas, ainda ontem, recebi imagens de outras enchentes devastadoras no Maranhão – terra onde, dizia a lenda, o português era o mais bem falado do país. Ou em Santa Catarina – aquele Estado de Espírito, do Sul Maravilha. Ou no Amazonas -  onde a água e o verde são o que são, fora a praga dos gananciosos. Ou no Pará – estado da castanha que mais amo. E anteontem, foi o vendaval que cortou os troncos de belas árvores, deixando-os cair em cima de carros e casas logo ali, em subúrbio de São Paulo ou do Rio.

Na mesma noite, dentro da minha casa, sem troncos caídos, nem inundações, tiros do quartel ao lado, pareciam balas de verdade e não, mero treinamento. Aí, sim, pulei de susto no sofá em que me aboletara para ler um livro de literatura, que está nas paradas de sucesso.

Somente então me dei conta da indiferença que reina em meu mundo. Ou será no mundo todo? Como é que me assusto tanto com um ploc mais forte e não me abala o que vejo e ouço em meu dia-a-dia na tevê e no rádio? Onde ficou escondida aquela criatura antes tão sensível?

Recordo-me de meu choro copioso todas as vezes em que via um filme de guerra no cinema. Mar Cruel, um filme inglês da Segunda Guerra Mundial, quase me matou. O afogamento dos tripulantes do navio, estraçalhado pela ação de submarinos alemães, me cortou em mil pedaços as entranhas físicas e morais. E, bem menos antigo, no A lista de Schindler, como torci pelo salvamento dos judeus e como me desesperei com os que foram trucidados em Auschwitz e outros campos de concentração! Que emoção de alívio saber com os europeus, sobretudo, com os judeus, que a guerra mundial tinha acabado e com ela, o extermínio de gente inocente! Que glória ver os kibuts socialistas do Estado de Israel! Seriam os mesmos herdeiros de uma das tradições religiosas mais b onitas os que hoje combatem os palestinos em interminável guerra pela posse da terra?

Lembro-me bem da última reação de imobilidade ante o pavor, que experimentei diante da televisão: no 11 de Setembro de 2001, já lá vão oito anos. A imagem dos aviões qual serra elétrica de science fiction, abrindo fendas no meio do World Trade Center, me deixou imbecilizada, lerda. Quem ousaria tanto? Que novo kamikase louco se jogaria sobre os prédios símbolos do poder norte-americano, junto com passageiros inocentes, obrigados a compartilharem da insanidade, sem promessa de salvação eterna? Cheguei a sentir cheiro de corpos ensangüentados e incendiados, nos dias que se seguiram.  Contra a minha vontade, porque tudo aconteceu “lá neles”.

Em 2005, o Furacão Katrina destruiu, num formidável espirro do mar, a cidade mais simpática dos Estados Unidos, a querida e chique Nova Orleans, berço do jazz negro, lembram? E aí, a onda quase me afogou. Dessa vez, o “lá neles” incluía uma amiga nossa muito querida, que passou fome, sede, frio, perdeu tudo, menos a vida, graças a Deus.

Cenas de desastres ecológicos, de guerras localizadas, de fome ainda experimentada por muitos, de civis, inclusive crianças, mutilados por minas, de assassinatos estrangeiros, entre outras barbaridades “lá neles”, para mim, de uns tempos para cá, passaram a se confundir com a ficção dos filmes, a cada dia mais violentos. Habituei-me a ver jorros de sangue, corpos e dedos cortados, sem crispar minhas mãos, um simples e pequeno mal estar  a despontar no estômago, semelhante ao meu olhar sobre um quadro de Goya ou a Guernica de Picasso. Sem tremor, sem lágrimas, talvez com admiração pelos efeitos especiais tão bem feitos.

E pior, muito pior. Mesmo quando a coisa se dá logo ali, em meu próprio país, penso que não pode ser verdade. Não passa de um copião, que precisa ainda de retoques.

Em compensação, saio do cinema, após filmes ficcionais românticos e documentários bem feitos, com vermelhidão tão patente nos olhos lacrimejantes, que corro a escondê-la debaixo dos óculos. Mal me lembro do filme e as lágrimas voltam a brotar.

Gente, estou ficando é louca.

Maria Lindgren

junho/2009

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