Maria Lindgren

 A Degringolada Da Casse Média


Esta história de sociedade de classes é badalada há tanto tempo que até Seu Jailton tinha ouvido falar nisso. Era um simplório, beirando os oitenta, sem curso superior e de pouca leitura. Nunca lera Marx, nem Engels, nem nenhum dos antigos e novos que se preocupam com interpretações sociais. Seu jornal predileto sempre foi um dos mais baratos da cidade.

 De uma coisa tinha certeza, só de olhar em torno: percebia claramente  classe média e a baixa, na sociedade brasileira. A alta, só de ouvir falar. E as nuances não lhe importavam. A não ser a dos mendigos, variantes dos pobres. Estes, sim, tinham marca: incomodavam.

Sabia que a Alta tinha assento fixo nos tronos de ouro, usufruía a vida com tudo o que de bom ela pudesse presentear. Inclusive, mulheres-maravilha de lindas, trocadas ao primeiro sinal de desgaste físico: riscas mínimas ao sorrir, celulites apenas insinuadas, protuberância abaixo do umbigo que só cego percebia... Essa gente habitava palácios quase sempre escondidos, ornamentados com jardins, tratados por jardineiros fiéis, organizados por qualidade de plantas, qual o nosso Jardim Botânico. Alguns preferiam apartamentos gigantescos, com piscina de cachoeira e tudo, em coberturas de frente para o marzão da Zona Sul do Rio, alem das mansões em Angra dos Reis. Compras, de preferência no exterior, ou importados por encomenda. Quando lhes dava na telha, por amor à praticidade eventual, rumo às lojas hipersuperrequintadas de São Paulo. Nada de Rio de Janeiro

Segundo Seu Jailton, a classe baixa era de difícil definição porque comportava aspirantes à classe média e mendicantes sem classe, eira, nem beira. Sendo que os últimos ficaram assim, seguramente, porque não queriam trabalhar, nem para fazer biscate. Muito melhor pedir uma graninha, beber cachaça, se estirar nas calçadas. .

A mais complicada lhe parecia a dele, Seu Jailton, a tal de classe média bem média. Em geral, seu pessoal fazia de um tudo para ser da classe alta: entupia-se de dívidas para ter um carro novo, esquecido de que rico mesmo, nos dias de hoje, só usa helicóptero. Mandava-se para shoppings, crente que compraria o último grito da moda, dividida a conta sem juros nos cartões de crédito – símbolos de status social enfileirados nas carteiras..

 Um belo dia, entrava na Caixa, acreditando no anúncio, para conseguir a casa própria, o que o deixava depenado no meio do pagamento, por conta dos juros. Empenhava jóias mixurucas da família, caso algum tio as tivesse deixado de herança, ou tentava empréstimo às vezes, no próprio local de trabalho, para gastar em viagem de férias. Houve quem fosse até a Nova York, quando o dólar se equiparou ao real, com passagens pagas em dez vezes.

 No dia a dia, sua classe comprava alimento no supermercado mais barato do bairro - daqueles cujas marcas ninguém conhece. Mas dava uma volta no mais caro, nem que fosse para cafezinho de graça. Não perdia liquidação, mesmo que a fila fosse de três quarteirões, procurando refugos nos cestões de ofertas. Comia carne de segunda na moita, disfarçada pelo suor da mulher na cozinha, entre outras extravagâncias...

É claro que havia a classe média mais baixa ainda, bem próxima à classificação de pobre que, coitada, nem a essa mixaria tinha acesso.. Viagem era de casa para o trabalho e vice-versa, Quinta da Boa Vista aos domingos, ou outro show gratuito, dádiva eventual do prefeito. Shopping modesto para espiar as vitrines, comendo balinhas e bolinhos trazidos de casa, com mate gelado ou café, nos dias mais abonados do início do mês, e sempre se espantar com os preços. – Menina, tem vestido que custa o que eu tiro por mês!

 Compras absolutamente essenciais nas lojas anunciadas nas tevês mais abertas; roupa herdada dos enjôos da classe média mais abonada ou conseguida nos mercadões mais longínquos. Como transporte, trem da Central, ônibus apinhados e van nos dias de festa ou emergências.... No entanto, se lhes chamassem de pobres, ofensa na certa. Pior que o velho xingamento de mãe.

De repente, Seu Jailton, um pensador do comum, viu entrarem na moda, para discussão dos sabidos, dois tópicos da maior importância: diminuição da diferença entre ricos e pobres, conforme anunciado pelo Presidente, e declínio da classe média brasileira, com uma inflação que podia ameaçar a estabilidade econômica .do país, apesar das afirmações do Presidente. Seu Jailton não entendeu nada. Pois então a classe média havia estado ótima? Ninguém o avisara nas redondezas e nos jornais, malhadores de tudo o que se faz no Governo.

Tinha na cabeça, ainda sem vislumbre de Alzheimer, o estardalhaço do tal de etanol, para libertar de vez o Brasil e matar de inveja os americanos sequiosos de petróleo. E mais a soja, o trigo, o milho, o feijão, as vacas não loucas, o petróleo jorrando por todos os poços recém-abertos, a tecnologia colocada em todas as escolas brasileiras...Segundo os noticiários de papel, os falados e ilustrados com imagens ou os computadorizados – Seu Jailton ainda não tinha chegado ao computador -  os preços subiam ou iam subir, como nos famigerados tempos da inflação.

 Como, Santo Deus! Os estrangeiros perderam a confiança no país e desistiram de investimentos dados como certos? O álcool barateado em uma semana, súbito acabou? Os bancos perderam a estabilidade? O Presidente pediu demissão? A Amazônia virou condomínio mundial?

Inda por cima, a classe média americana, que sempre serviu de exemplo para a nossa, entrou em crise. Seu Jailton lembrou dos tênis, da calça jeans, das bermudas e bermudões, das camisetas de malha , da coca-cola, enfim, de tudo o que o brasileiro absorvera do americano prático de classe média. Aliás, o brasileiro e o mundo inteiro, desde que os EEUU viraram heróis da Segunda Guerra Mundial. Na moda, nada de pompas e pedrarias francesas ou italianas, a não ser nos casamentos e festas de especial significado, como as do filme do falecido diretor Robert Altmann. Assim mesmo, nem para a noiva a classe média brasileira se impõe mais sacrifícios: alugam-se trajes completos de nubentes, padrinhos, se duvidar, de convidados. Praticidade e conforto - herança bendita da americanada esperta. Ou não se casam: juntam-se. Bela opção econômica

 Até os japoneses foram na onda, um dos povos aparentemente mais anti-americanos do mundo, inventores do homem-bomba, ora imitado em larga escala pelos novos inimigos da democracia americana. E o chinês da Nova China vai pelo mesmo caminho. Os amarelos de olhinho puxado, tão logo acabou a ditadura dos uniformes, deixaram os quimonos de luxo para teatro e solenidades festivas e aderiram à moda americanizada. Destruíram as lindas casas minimalistas de porta de correr e jardins de plantas nanicas, para empilhar andares e mais andares em prédios a furar o céu literalmente, e outros modismos norte-americanos, tornados permanentes.

Para mal dos espantos de Seu Jailton, não é que a forte classe mediana americana da fast-food, em 2008, além da descoberta da obesidade catastrófica, tem que entrar, por contingência do destino, na restrição de hamburgers, donuts e outros alimentos e produtos de consumo que, ontem. literalmente arrebentavam as sacolas de compras.

 Será que o encanecido deus dólar passou a reverenciar o patricinho euro? Ou será o simples anúncio da possibilidade do democrata magro, jovem e negro, Barack Obama, no poder, o motivo do susto dos consumistas inveterados? Culpa do Bush não é, pois Seu Jailton nunca mais ouvir falar do homem.

E ai, Seu Jailton soltou um suspiro, fez uma grande pausa no cérebro esgotado e se voltou inteiramente para nós brasileiros, herdeiros dos colonizadores portugueses, dos escravos africanos e dos índios ex-donos de nossa terra. Qual deles inventou a classe média?

Sem titubear, ele próprio respondeu: os danados dos portugueses, com certeza. Para quê, Senhor?

Maria Lindgren

 

voltar