De uma
coisa tinha certeza, só de olhar em torno: percebia claramente
classe média e a baixa, na sociedade brasileira. A
alta, só de ouvir falar. E as nuances não lhe importavam. A não
ser a dos mendigos, variantes dos pobres. Estes, sim, tinham
marca: incomodavam.
Sabia que
a Alta tinha assento fixo nos tronos de ouro, usufruía a vida
com tudo o que de bom ela pudesse presentear. Inclusive,
mulheres-maravilha de lindas, trocadas ao primeiro sinal de
desgaste físico: riscas mínimas ao sorrir, celulites apenas
insinuadas, protuberância abaixo do umbigo que só cego
percebia... Essa gente habitava palácios quase sempre
escondidos, ornamentados com jardins, tratados por
jardineiros fiéis, organizados por qualidade de plantas,
qual o nosso Jardim Botânico. Alguns preferiam apartamentos
gigantescos, com piscina de cachoeira e tudo, em coberturas de
frente para o marzão da Zona Sul do Rio, alem das mansões em
Angra dos Reis. Compras, de preferência no exterior, ou
importados por encomenda. Quando lhes dava na telha, por amor à
praticidade eventual, rumo às lojas hipersuperrequintadas de São
Paulo. Nada de Rio de Janeiro
Segundo
Seu Jailton, a classe baixa era de difícil definição porque
comportava aspirantes à classe média e mendicantes sem classe,
eira, nem beira. Sendo que os últimos ficaram assim,
seguramente, porque não queriam trabalhar, nem para fazer
biscate. Muito melhor pedir uma graninha, beber cachaça, se
estirar nas calçadas. .
A mais
complicada lhe parecia a dele, Seu Jailton, a tal de classe
média bem média. Em geral, seu pessoal fazia de um tudo para ser
da classe alta: entupia-se de dívidas para ter um carro novo,
esquecido de que rico mesmo, nos dias de hoje, só usa
helicóptero. Mandava-se para shoppings, crente que compraria o
último grito da moda, dividida a conta sem juros nos
cartões de crédito – símbolos de status social enfileirados nas
carteiras..
Um belo
dia, entrava na Caixa, acreditando no anúncio, para conseguir a
casa própria, o que o deixava depenado no meio do pagamento, por
conta dos juros. Empenhava jóias mixurucas da família, caso
algum tio as tivesse deixado de herança, ou tentava empréstimo
às vezes, no próprio local de trabalho, para gastar em viagem de
férias. Houve quem fosse até a Nova York, quando o dólar se
equiparou ao real, com passagens pagas em dez vezes.
No dia a
dia, sua classe comprava alimento no supermercado mais barato do
bairro - daqueles cujas marcas ninguém conhece. Mas dava uma
volta no mais caro, nem que fosse para cafezinho de graça. Não
perdia liquidação, mesmo que a fila fosse de três quarteirões,
procurando refugos nos cestões de ofertas. Comia carne de
segunda na moita, disfarçada pelo suor da mulher na cozinha,
entre outras extravagâncias...
É claro
que havia a classe média mais baixa ainda, bem próxima à
classificação de pobre que, coitada, nem a essa mixaria tinha
acesso.. Viagem era de casa para o trabalho e vice-versa, Quinta
da Boa Vista aos domingos, ou outro show gratuito, dádiva
eventual do prefeito. Shopping modesto para espiar as vitrines,
comendo balinhas e bolinhos trazidos de casa, com mate gelado ou
café, nos dias mais abonados do início do mês, e sempre se
espantar com os preços. – Menina, tem vestido que custa o que eu
tiro por mês!
Compras
absolutamente essenciais nas lojas anunciadas nas tevês mais
abertas; roupa herdada dos enjôos da classe média mais abonada
ou conseguida nos mercadões mais longínquos. Como transporte,
trem da Central, ônibus apinhados e van nos dias de festa ou
emergências.... No entanto, se lhes chamassem de pobres,
ofensa na certa. Pior que o velho xingamento de mãe.
De
repente, Seu Jailton, um pensador do comum, viu entrarem na
moda, para discussão dos sabidos, dois tópicos da maior
importância: diminuição da diferença entre ricos e pobres,
conforme anunciado pelo Presidente, e declínio da classe média
brasileira, com uma inflação que podia ameaçar a estabilidade
econômica .do país, apesar das afirmações do Presidente. Seu
Jailton não entendeu nada. Pois então a classe média havia
estado ótima? Ninguém o avisara nas redondezas e nos jornais,
malhadores de tudo o que se faz no Governo.
Tinha na
cabeça, ainda sem vislumbre de Alzheimer, o estardalhaço do tal
de etanol, para libertar de vez o Brasil e matar de inveja os
americanos sequiosos de petróleo. E mais a soja, o trigo, o
milho, o feijão, as vacas não loucas, o petróleo jorrando por
todos os poços recém-abertos, a tecnologia colocada em todas as
escolas brasileiras...Segundo os noticiários de papel, os
falados e ilustrados com imagens ou os computadorizados – Seu
Jailton ainda não tinha chegado ao computador - os preços
subiam ou iam subir, como nos famigerados tempos da inflação.
Como,
Santo Deus! Os estrangeiros perderam a confiança no país e
desistiram de investimentos dados como certos? O álcool
barateado em uma semana, súbito acabou? Os bancos perderam a
estabilidade? O Presidente pediu demissão? A Amazônia virou
condomínio mundial?
Inda por
cima, a classe média americana, que sempre serviu de exemplo
para a nossa, entrou em crise. Seu Jailton lembrou dos tênis, da
calça jeans, das bermudas e bermudões, das camisetas de malha ,
da coca-cola, enfim, de tudo o que o brasileiro absorvera do
americano prático de classe média. Aliás, o brasileiro e o mundo
inteiro, desde que os EEUU viraram heróis da Segunda Guerra
Mundial. Na moda, nada de pompas e pedrarias francesas ou
italianas, a não ser nos casamentos e festas de especial
significado, como as do filme do falecido diretor Robert Altmann.
Assim mesmo, nem para a noiva a classe média brasileira se impõe
mais sacrifícios: alugam-se trajes completos de nubentes,
padrinhos, se duvidar, de convidados. Praticidade e conforto -
herança bendita da americanada esperta. Ou não se casam:
juntam-se. Bela opção econômica
Até os
japoneses foram na onda, um dos povos aparentemente mais
anti-americanos do mundo, inventores do homem-bomba, ora imitado
em larga escala pelos novos inimigos da democracia
americana. E o chinês da Nova China vai pelo mesmo caminho. Os
amarelos de olhinho puxado, tão logo acabou a ditadura dos
uniformes, deixaram os quimonos de luxo para teatro e
solenidades festivas e aderiram à moda americanizada. Destruíram
as lindas casas minimalistas de porta de correr e jardins de
plantas nanicas, para empilhar andares e mais andares em prédios
a furar o céu literalmente, e outros modismos norte-americanos,
tornados permanentes.
Para mal
dos espantos de Seu Jailton, não é que a forte classe mediana
americana da fast-food, em 2008, além da descoberta da
obesidade catastrófica, tem que entrar, por contingência do
destino, na restrição de hamburgers, donuts e
outros alimentos e produtos de consumo que, ontem. literalmente
arrebentavam as sacolas de compras.
Será que
o encanecido deus dólar passou a reverenciar o patricinho euro?
Ou será o simples anúncio da possibilidade do democrata magro,
jovem e negro, Barack Obama, no poder, o motivo do susto dos
consumistas inveterados? Culpa do Bush não é, pois Seu Jailton
nunca mais ouvir falar do homem.
E ai, Seu
Jailton soltou um suspiro, fez uma grande pausa no cérebro
esgotado e se voltou inteiramente para nós brasileiros,
herdeiros dos colonizadores portugueses, dos escravos africanos
e dos índios ex-donos de nossa terra. Qual deles inventou a
classe média?
Sem
titubear, ele próprio respondeu: os danados dos portugueses, com
certeza. Para quê, Senhor?