A
arte deve seguir os ditames políticos de um país ou tem que
denunciar os abusos de poder? Os melhores artistas são os que
empregam sua arte para denunciar os governos ditatoriais, a
sociedade corrupta, enfim, tudo o que de mal se passa na
sociedade em que vivem ou na sociedade mundial? Discussão
antiga, mas nunca esquecida.
Sei que há exemplos de escritores famosos que, alguma
vez, foram favoráveis a ditadores, como o grande poeta
anglo-americano Ezra Pound, que se deixou seduzir pelo
fascismo, pasmem. Apesar de ser, sem dúvida, um dos maiores
poetas modernos de todas as literaturas. E foi ele mesmo que
escreveu contra todas as formas de opressão:
“Go
my song, to the lonely and unsatisfied/ Go also to the
nerve-racked, go to the enslaved by convention/ Bear to them
my contempt for their oppression...”
Em
geral, tendo a preferir a Arte chamada pelos franceses de “engagée”,
que não traduzo porque não gosto da palavra em português.
Aceito, com certa relutância, os neutros da corrente “arte
pela arte”, que não se manifestam e tratam de temas gerais.
Desprezo, isso, sim, os que se aliam aos ditadores, como no
caso da cineasta alemã Lenny Reinfestald, embora reconheça que
seus documentários sobre o nazismo são de boa qualidade. Amiga
de Hitler, não!
Até 1985, ano da reinstalação da democracia no Brasil,
era impossível para mim não sentir a Arte,que combatia a
ditadura e defendia os valores democráticos, ainda que não
participasse diretamente de nenhum movimento político.
Daí que a cantora argentina Mercedes Sosa se tornou um emblema
para as gerações que viveram sob o jugo da tirania. Conseguiu
aliar seu canto ao movimento político chamado da esquerda, sem
prejuízo de sua Arte. E sua morte, no domingo, 4 de outubro de
2009 – uma data para se lembrar – nos encheu os olhos de
lágrimas de verdade.
Para nós, brasileiros, como para argentinos, chilenos,
peruanos ou nicaragüenses, sua voz poderosa e firme “
brotando como um musguito en la piedra”, a entoar Gracias
a la vida, apesar das tristezas infligidas por uma das piores
ditaduras que foi a da Argentina dos militares e pelo exílio
quando já não podia mais, seu corpo grande e seu rosto
emoldurado por cabelos tão belos quanto seus sentimentos, não
serão esquecidos jamais.
Sobretudo, Mercedes Sosa é importante para aqueles que
sofreram de perto os absurdos ditatoriais, inclusive prisão,
tortura, desaparecimento e morte, que precisavam gritar seus
protestos e seu pranto, mas não podiam.
Nossos melhores compositores e cantores brasileiros, como
Chico Buarque, Fagner, João Bosco e outros tinham que usar de
subterfúgios para dizer, em palavras disfarçadas, o que lhes
ia no coração, levando as pessoas a se conscientizarem de
algum modo. A censura forte e burra dos meios de comunicação,
felizmente não percebia o que Mercedes e seus amigos nos
queriam transmitir em canto e versos, dando-nos de presente
seus espetáculos inesquecíveis, pela energia que nos devolviam
a cada vez, tornando-nos mais decididos, mais fortes, mais
unidos para defender nossas convicções.
A América Latina, com sua língua diferente da nossa, mas comum
a todos os demais países, entendeu a mensagem, se foi
juntando, transformada em uma só pátria, de um só objetivo,
deixando de lado os norte americanos e europeus, quiçá pela
primeira vez.
O eco da voz da grande cantora Mercedes Sosa retumba em nossos
corações libertários. Segue seu caminho, Mercedes! Deixe-nos
suas canções e vá, com a certeza de que não a esqueceremos
nunca.
Maria
Lindgren