Maria Lindgren

A dona do bric-a-brac

Um espanto sua força e firmeza sem titubeios! A senhora de oitenta e muitos anos passou por mim, do outro lado da calçada.
        Costas curvas, empurrava um carrinho de mão, daqueles de jardineiro antigo, repleto de bugigangas: móveis desmontados, abajures, espelhos...Amontoavam-se em equilíbrio instável.

- Gente, será que estou vendo certo? Acho que eu conheço aquela mulher - exclamei, à saída do instituto de línguas.

-  É D. Nuche, a dona do bric à brac ali defronte. A loja vai acabar.

-  O que que ela está fazendo com aquele carrinho de mão, que nem se usa mais?

- A mudança. Faz aos pouquinhos. Só tem ela e o filho pra levar tudo. Dizem que ela foi obrigada a sair porque vem coisa mais nova, mais moderna. Vamos sentir falta dela!.

            De minha parte, nunca entendi porque se insistir num bric-a-brac, em área de moradia. Muito mais adequado ao Centro do Rio de Janeiro. Vizinho ao restaurante chique do bairro mais valorizado da cidade, a loja desafinava, tecla espúria em piano de cauda.

Nem eu, nem ninguém. Mas a loja mantinha-se firme, por mais de trinta anos. Sem  nenhum tipo de reforma, salvo a parede da entrada, emplastrada de massa grosseira, em saliências e reentrâncias. Moda besta essa de 1950! Tão logo os pintores adequavam parede e brocha de tinta branca, surgiam, aqui e acolá, tons desajeitados de sujeira marrom.

A rua, apesar das árvores acolhedoras, nada tinha de ecológico: recendia a gás carbônico, deixava perceber-se um pó residual, por conta do trânsito pesado e por falta de prefeitura, que lhe jogasse uma água, de vez em quando.

A um metro do chão, a vitrine da loja. Ou melhor, um quadrado de vidro embaçado pelo descaso. Não expunha as mercadorias. Ao contrário, deformava-as: falta de limpeza, organização e tino comercial.

Os móveis, empilhados uns sobre os outros, dificultavam a escolha e a valorização das peças sem exibição. Para achar algo que prestasse, o cliente enfrentava odor de mofo e poeira, à procura de peças, qual  bombeiros em busca de sobreviventes de hecatombes.

O próprio estabelecimento era complicado de achar. Rua vazia, pouquíssimos pedestres, em quarteirão pequeno, meio que passagem de tráfego. À noite ainda vá: o restaurante famoso recebia boa quantidade de cavalheiros e damas. Em geral, políticos endinheirados e um ou outro jovem executivo, a caminho da balada em boate logo adiante.

O único lugar mais movimentado, uma das casas antigas, transformada em instituto de línguas. O entra e sai de alunos, no ano letivo coincidente com o das escolas comuns, fingia normalidade, com o abre-portas, depois de tocar a campainha.

Como, então, se explicava a permanência da loja sem exposição, sem anúncio, sem dono visível? Questão misteriosa. Por certo, alguém falava para outro alguém, que falava para outro, numa cadeia que, enfim,  bateu em mim.

- Você que adora velharias, vai até a loja da D.Nuche! É tudo barato e de ótima qualidade: peças antigas, mesmo. Não se assuste com a bagunça!

No escuro do interior da loja, a custo se enxergava o quadro quase sempre estático: D.Nuche em sua escrivaninha. Óculos redondos dos bem antigos; na mão esquerda, um livro amarelado de poemas, na direita, um cálice de licor; diante dela, caneta pronta a escrever no papel.

Senhora idosa, puro século XIX. Inverno ou verão, roupas compridas e xale, cabelo longo, liso, preso por travessas grandes, em coque malfeito. Mechas de louro escuro em meio aos cabelos brancos: baita confusão. Não viviam alisamentos, escovas e que-mais dos cabeleireiros. 

Ela não se levantava. Deixava o freguês andar por entre as peças como pudesse, olhar e escarafunchar tudo, até que, de repente, algo de valor. Aí, sim, A dona chamava o filho saído do nada, para dar o preço e ajudar no resgate do móvel, na pilha gigantesca.

Um dia, um étager pomposo, de vidro bisoté; noutro, uma vitrine de bolos de padaria  ou um abajur inusitado.

Todo o tempo, D Nuche falava, enquanto bebericava . E tomava anotações

-  Tomo conta da loja para ganhar uns trocados, mas sou mesmo é escritora..

De imediato, larguei de lado a procura das peças, pus-me a conversar com a senhora, atraída pela palavra escritora.

- Que tipo de texto a senhora faz?

- Poesia, é claro. Quem pode viver sem poesia! Olha aqui a que estou lendo: Rimbaud, minha filha, o famoso poeta maldito. Leio no original. Detesto tradução. Não pretendo ser tão maldita quanto ele, mas me esforço. Só o fato da gente criar já é muito. E não posso parar de ler. Acho que quem não lê, não escreve.

Palavras rápidas em português de erres  e entonação de língua alemã ou similar.

Sem retrucar, à espera de uma deixa, concordei com as sábias palavras da dona do bric a brac. Que graça tem a vida sem poesia?

- Eu também escrevo - ousei dizer. - Mas, igual à senhora, não vivo do que escrevo. É muito difícil no Brasil.

- É, meu bem: escrever também é difícil. Por isso, eu tenho sempre à mão meu licor ou um vinho do Porto, para ajudar na inspiração. Faça o mesmo. Você vai ver: fica tudo mais claro, o pensamento rola no papel.

Esqueço a compra. Passo bem uma hora na conversa com D. Nuche. Aprendo muito. Melhoro de humor, de vontade de escrever. Para quê antiguidades?

Ao cair da tarde, decido mostrar a que vim: pego um abajur de vidro cor de rosa bem trabalhado, com filetes de miçanga verde limão, em toda a volta, à guisa de franja. Em baixo da luz, uma estatueta de menina em bronze parece  bem protegida..Ou colocada em evidência, não sei. Identifico-me com ela.

Colocada em posição nobre, em cima do mais nobre dos meus móveis, o abajur dá uma luz rosada, para as visitas boquiabertas de inveja.

Para onde foi D. Nuche, ninguém nunca me contou. Contaram até o ponto em que, ao final da mudança, parou uma kombi, à porta da loja. Mas a senhora já estava longe, com seu carrinho de mão obsoleto..

Inspirada em D Nuche, sua escrivaninha, sua bebida doce e seu carrinho de cacarecos, escrevo. Entristeço-me. Penso no valor descoberto do bric a brac, que perdi para sempre.

Mas prometo a mim mesma: todas as vezes que me der na telha escrever, pego um licorzinho ou um vinho do Porto. Vou beber minha inspiração, em pequenos goles. Como D. Nuche.
Maria Lindgren

voltar