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Um espanto sua força e firmeza
sem titubeios! A senhora de oitenta e muitos anos passou por
mim, do outro lado da calçada.
Costas curvas, empurrava um carrinho
de mão, daqueles de jardineiro antigo, repleto de bugigangas:
móveis desmontados, abajures, espelhos...Amontoavam-se em
equilíbrio instável.
- Gente, será que estou vendo
certo? Acho que eu conheço aquela mulher - exclamei, à saída do
instituto de línguas.
- É D. Nuche, a dona do bric à
brac ali defronte. A loja vai acabar.
- O que que ela está fazendo
com aquele carrinho de mão, que nem se usa mais?
- A mudança. Faz aos pouquinhos.
Só tem ela e o filho pra levar tudo. Dizem que ela foi obrigada
a sair porque vem coisa mais nova, mais moderna. Vamos sentir
falta dela!.
De minha parte,
nunca entendi porque se insistir num bric-a-brac, em área
de moradia. Muito mais adequado ao Centro do Rio de Janeiro.
Vizinho ao restaurante chique do bairro mais valorizado da
cidade, a loja desafinava, tecla espúria em piano de cauda.
Nem eu, nem ninguém. Mas a loja
mantinha-se firme, por mais de trinta anos. Sem nenhum tipo de
reforma, salvo a parede da entrada, emplastrada de massa
grosseira, em saliências e reentrâncias. Moda besta essa de
1950! Tão logo os pintores adequavam parede e brocha de tinta
branca, surgiam, aqui e acolá, tons desajeitados de sujeira
marrom.
A rua, apesar das árvores
acolhedoras, nada tinha de ecológico: recendia a gás carbônico,
deixava perceber-se um pó residual, por conta do trânsito pesado
e por falta de prefeitura, que lhe jogasse uma água, de vez em
quando.
A um metro do chão, a vitrine
da loja. Ou melhor, um quadrado de vidro embaçado pelo
descaso. Não expunha as mercadorias. Ao contrário, deformava-as:
falta de limpeza, organização e tino comercial.
Os móveis, empilhados uns sobre
os outros, dificultavam a escolha e a valorização das peças sem
exibição. Para achar algo que prestasse, o cliente enfrentava
odor de mofo e poeira, à procura de peças, qual bombeiros em
busca de sobreviventes de hecatombes.
O próprio estabelecimento era
complicado de achar. Rua vazia, pouquíssimos pedestres, em
quarteirão pequeno, meio que passagem de tráfego. À noite ainda
vá: o restaurante famoso recebia boa quantidade de cavalheiros e
damas. Em geral, políticos endinheirados e um ou outro jovem
executivo, a caminho da balada em boate logo adiante.
O único lugar mais movimentado,
uma das casas antigas, transformada em instituto de línguas. O
entra e sai de alunos, no ano letivo coincidente com o das
escolas comuns, fingia normalidade, com o abre-portas, depois de
tocar a campainha.
Como, então, se explicava a
permanência da loja sem exposição, sem anúncio, sem dono
visível? Questão misteriosa. Por certo, alguém falava para outro
alguém, que falava para outro, numa cadeia que, enfim, bateu em
mim.
- Você que adora velharias, vai
até a loja da D.Nuche! É tudo barato e de ótima qualidade: peças
antigas, mesmo. Não se assuste com a bagunça!
No escuro do interior da loja, a
custo se enxergava o quadro quase sempre estático: D.Nuche em
sua escrivaninha. Óculos redondos dos bem antigos; na mão
esquerda, um livro amarelado de poemas, na direita, um cálice de
licor; diante dela, caneta pronta a escrever no papel.
Senhora idosa, puro século XIX.
Inverno ou verão, roupas compridas e xale, cabelo longo, liso,
preso por travessas grandes, em coque malfeito. Mechas de louro
escuro em meio aos cabelos brancos: baita confusão. Não viviam
alisamentos, escovas e que-mais dos cabeleireiros.
Ela não se levantava. Deixava o
freguês andar por entre as peças como pudesse, olhar e
escarafunchar tudo, até que, de repente, algo de valor. Aí, sim,
A dona chamava o filho saído do nada, para dar o preço e ajudar
no resgate do móvel, na pilha gigantesca.
Um dia, um étager
pomposo, de vidro bisoté; noutro, uma vitrine de bolos de
padaria ou um abajur inusitado.
Todo o tempo, D Nuche falava,
enquanto bebericava . E tomava anotações
- Tomo conta da loja para
ganhar uns trocados, mas sou mesmo é escritora..
De imediato, larguei de lado a
procura das peças, pus-me a conversar com a senhora, atraída
pela palavra escritora.
- Que tipo de texto a senhora
faz?
- Poesia, é claro. Quem pode
viver sem poesia! Olha aqui a que estou lendo: Rimbaud, minha
filha, o famoso poeta maldito. Leio no original. Detesto
tradução. Não pretendo ser tão maldita quanto ele, mas me
esforço. Só o fato da gente criar já é muito. E não posso parar
de ler. Acho que quem não lê, não escreve.
Palavras rápidas em português de
erres e entonação de língua alemã ou similar.
Sem retrucar, à espera de uma
deixa, concordei com as sábias palavras da dona do bric a
brac. Que graça tem a vida sem poesia?
- Eu também escrevo - ousei
dizer. - Mas, igual à senhora, não vivo do que escrevo. É muito
difícil no Brasil.
- É, meu bem: escrever também é
difícil. Por isso, eu tenho sempre à mão meu licor ou um vinho
do Porto, para ajudar na inspiração. Faça o mesmo. Você vai ver:
fica tudo mais claro, o pensamento rola no papel.
Esqueço a compra. Passo bem uma
hora na conversa com D. Nuche. Aprendo muito. Melhoro de humor,
de vontade de escrever. Para quê antiguidades?
Ao cair da tarde, decido mostrar
a que vim: pego um abajur de vidro cor de rosa bem trabalhado,
com filetes de miçanga verde limão, em toda a volta, à guisa de
franja. Em baixo da luz, uma estatueta de menina em bronze
parece bem protegida..Ou colocada em evidência, não sei.
Identifico-me com ela.
Colocada em posição nobre, em
cima do mais nobre dos meus móveis, o abajur dá uma luz rosada,
para as visitas boquiabertas de inveja.
Para onde foi D. Nuche, ninguém
nunca me contou. Contaram até o ponto em que, ao final da
mudança, parou uma kombi, à porta da loja. Mas a senhora já
estava longe, com seu carrinho de mão obsoleto..
Inspirada em D Nuche, sua
escrivaninha, sua bebida doce e seu carrinho de cacarecos,
escrevo. Entristeço-me. Penso no valor descoberto do bric a brac,
que perdi para sempre.
Mas prometo a mim mesma: todas
as vezes que me der na telha escrever, pego um licorzinho ou um
vinho do Porto. Vou beber minha inspiração, em pequenos goles.
Como D. Nuche.
Maria Lindgren |