Maria Lindgren

           A Magia Salvadora 
 
       A viagem ao Egito anunciada pelo marido, Doutor em História, torna-a excitação pura. Mais ainda do que de hábito. - Ariana típica!- proclamavam as amigas. É só aparecer uma chance e você fica logo toda serelepe.

No caso do Egito justificava-se. Afinal, conhecer um país de peso histórico decantado, ver de perto seus monumentos maravilhosos, as pinturas interiores preservadas como novas, e não apenas babar pela beleza egípcia nas telas de cinema, nos livros ou nas fotos dos viajantes amigos, oportunidade inescapável.

O encontro de trabalho seria em Alexandria. Na Alexandria da famosa Biblioteca dos tempos dos Ptolomeus: livrões de capas vetustas, pergaminhos, documentos... Em hieróglifos, então! Para ela, professora de Literatura Portuguesa, bastava. Nem precisava seguir viagem para encher de sabedoria sua alma leitora. 

            Tinha mais, muito mais: iriam ao Cairo, a Luxor... deslizariam pelo Nilo de barco, pelo deserto, de camelo, entrariam nas Pirâmides, ficariam boquiabertos com a Esfinge... Conto de Mil e uma Noites transportado para o Egito. Aventuras de Agatha Christie vividas in loco , sem os assassinatos.

No avião, não lhe caía pálpebra de sono: só de sonho. Impossível não se ver Cleópatra, bela e mimada por Marco Antônio, Elizabeth Taylor no filme de outrora; ou Nefertiti das fotos e seu famoso perfil, olhos oblíquos e jóias, muitas jóias. Ou ainda, montada num camelo em pose e elegância natural de nômade do deserto. Nem se lembrava mais da biblioteca: somente devaneios em palácios suntuosos ou paisagens desérticas.

Na chegada, a ansiedade gostosa só piorava. Ignorou bagagem, pescoço espichado, na curiosidade dos que cultuam o passado longínquo. Malas recolhidas, rumo à Alexandria, em ônibus especial para a comitiva brasileira.

 Pelo caminho, poucos transeuntes homens, a pé ou de bicicletas,  batas compridas a esconder-lhes os sapatos. Raríssimas mulheres, cobertas a mal respirar, véus e mantas, lúgubres muçulmanas, entornavam-lhe fora a esperança de vestes bordadas de ouro e pedrarias, braceletes enormes das antigas rainhas e cortesãs.

O mar azul cobalto do Mediterrâneo acompanhava o trajeto em acintoso azul. Não conseguia, no entanto, tirar-lhe a visão dos edifícios descarnados da orla marítima, em evidente decadência de muito tempo. Desilusão.

Começava a guardar na bolsa os arroubos, quando um dos companheiros de viagem exclamou, ansioso: - Olha lá! Olha lá! Tem gente jogando futebol!

Com efeito: as pernas e os pés de um time amador driblavam, tentavam chutar uma bola de futebol, parecida com as dos times brasileiros. Os jogadores corriam para lá e para cá, enquanto uma pequena platéia, masculina é claro, gritava palavras adivinhadas, de incentivo ou decepção.

O coletivo inteirinho se debruçou às janelas para assistir, um pouco que fosse, ao espetáculo inusitado. Até as senhoras mais senhoras lutavam por um pedaço de janela. O propósito fundamental da viagem qual era mesmo?

 Por mais que implorassem ao motorista apressado, o campinho foi ficando lá atrás, o homem  em recusa de parar: não queria atrasar-se para a entrega da preciosa mercadoria no hotel, este, sim, de luxo. Decepção geral.

O resto de Alexandria foi insípido e incolor. Sobretudo, para as mulheres, obrigadas a ficar dentro do hotel ou, no máximo, desfrutar a visão quadrada da janela do ônibus. Perigo de saltarem sem os parceiros a protege-las: terra de fundamentalistas muçulmanos, de mulher sempre ao lado do senhor seu marido, encapuzada, repleta de mantas, mesmo em eventuais idas à praia com a família. E as estrangeiras, de figurino de verão do nosso mundo, corriam o risco de estupro, de violência. Ou, pelo menos, de uma boa corrida de volta a um refúgio qualquer.

A biblioteca, inteiramente diversa da outra magnífica da Antiguidade, reduziu-se à voz do guia a explicar, de passagem, em inglês: - That is the new library!.

Cairo havia de ser diferente, pensou a moça. Mais moderna, recebia turistas de toda parte. Não seria tão decepcionante assim.

 Pior que era. Logo à entrada,  residências ocre se confundiam com o deserto, na cor, na poeira, no calor escaldante. De magnífico, apenas as mesquitas imponentes e bem cuidadas, em flagrante demonstração do apreço à casa do Deus do Alcorão.

 Era preciso usar roupas bem leves para visitar os pontos históricos ansiados. Pelo menos, bermuda pelo joelho e braços de fora. Ou insolação, na certa.

 Mal sabia ela que as egípcias do Cairo atualizado não diferiam dos outros de Alexandria. Nada de fora, a não ser o rosto. No máximo. Mesmo as moças que dirigiam carros particulares, tudo bem coberto.

Assim que chegaram, o marido, disposto a usufruir as pequenas férias da reunião obrigatória, propôs-lhe um tour de táxi pela cidade. De novo a excitação, o desejo fremente de recolher história viva do mágico rio Nilo, dos monumentos das cidades históricas.

Adentraram um táxi idoso, dos anos 50 do século passado, bem conservado. Interessada na descoberta de vegetação às margens do Nilo, ela nem percebeu o olhar lascivo do chofer, pelo espelho retrovisor, direto aos seu joelhos morenos. Assustou-se, cutucou o marido, colocou a bolsa em disfarce a tapar as pernas, do joelho para baixo. Inútil: o homem passou a admirar-lhe os braços,  ensaiando movimentos eróticos de língua, mais tarde reconhecidos por quantas européias, americanas ou brasileiras passassem por nativos fundamentalistas.

Foi, então, que o marido, num estalo de cabeça, explicou em inglês: - We are Brazilians! Do you like football?

De um pulo, o homem endireitou o olhar enviesado, exclamando: - Yes! Pelé! Pelé!

Daí em diante, tudo às mil maravilhas. O Egito estava salvo.

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