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Perto de mim, um sem número de
maldades, proclamadas ou não. Maldade, para mim, é troço sério.
Posso tentar enumerar algumas, mas, certamente, vou falhar, pois
o número é espantoso, neste nosso mundo moderno.
Atenho-me, pois às maldades que
sofro. Diz respeito às velhas ou quase: ter que perder a vaidade
a muque. Nem menciono as herdeiras pobres das madames. Vou de
remediadas, que é o grupo que me fala de perto.
E lá vêm os exemplos: não se
faz mais roupa de idosa-meio-velha e velha. Enquanto o homem
segue a moda jovem até morrer, anda de bermuda, camiseta e
tênis, pelo menos, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a mulher,
coitada, passou de sessenta, chegou aos setenta, oitenta, tá
danada. Não pode mais seguir moda, nem que o manequim ajude, por
causa das dietas. Há raras lojas de roupas de gorda, mas
existem. Já a idosa corre o risco de ficar ridícula, imitando as
moçoilas, ou tem que recorrer à costureira, profissão em
extinção, a não ser para remendos, que custam os olhos da cara.
Traje de senhora de idade, qual
o quê!
Gasto sola de sapato e nem posso
substituí-lo, a não ser por calçado especial de velha coroca,
daqueles que servem para diabéticas de pés estropiados. Os
mocassins, as sandálias de saltinho baixo, com a dignidade de um
ou dois dedos, praticamente desapareceram do mercado. Ficaram os
fechadinhos tipo sapatilhas e as rasteiras sandalinhas de dedo,
que me fazem bater com o calcanhar no chão e traumatizar minha
desengonçada coluna vertebral. Ou os tênis, com os quais nunca
me acostumei, por não ser desportista de caminhadas: machucam-me
o calcanhar, mesmo com meia. O discreto escarpin preto com
salto, no máximo, cinco sumiu da praça, substituído por ridículo
saltinho mínimo, imitador barato. Salto nove ou dez, até doze,
isso tem. Fino o grosso, aos montes. Para jovens, é claro. Meio
termo, no qual se dizia pousar a virtude, acabou de vez.
E as bolsas?! Com exceção das
Victor Hugo e outras grifes, que não são pra beiço de
ex-professora, bolsonas descomunais ou bolsinhas minúsculas. E,
enquanto as moças usam verdadeiras sacolas de compra leves e bem
molinhas, como se de massa de pastel fininha, as coroonas, sem
encontrar bolsa leve de tamanho regular, têm que usar as
indefectíveis bolsinhas a tiracolo, do tamanho de uma carteira
de notas, nas quais enfiar óculos e carteira de notas é dose.
Calça comprida de cintura no
lugar tá difícil; de cem por cento algodão, que faz menos calor
que as sintéticas, idem; linho, impossível: custa os olhos da
cara e amarrota demais. Saia saiu de moda, é justinha, como nos
idos de 1950, ou compridona como as das hippies. Vestido é acima
do joelho - joelho enrugado não dá - e cheio de babados,
franjas, enviesados, franzidos e que tais. Lá se foram os
vestidos tipo chemise de jersey estampado, próprios para minha
mãe, mais os discretos blazers meus. Blusas de seda pura
estampada, com ar de gente fina idosa, qual o quê. Tragédia
maior ainda é encontrar brinco de pressão para presente de sogra
de 91 anos.
- Brinco de quê mesmo?,
pergunta-me a mocinha das bijuterias.
- De senhora idosa, pra
não dizer velha, que é mal-educado, querida. Antigamente,
ninguém furava a orelha, sabia?
Se a gente quer ir à
piscina ou à praia, esqueça a roupa de banho apropriada: os
biquinis deixam o bum-bum, a barriga e os seios pra todo o mundo
ver. Há que ser escultural para usá-los sem constrangimento. Nem
duas peças decentes há mais na praça e os maiôs inteiros têm um
baita decote atrás, que mostra as pelancas da outrora cintura.
O melhor mesmo é, na hora dos
presentes, atender ao pedido-resposta de minha sogra e dar o meu
melhor abraço, meu beijo mais carinhoso e sincero. E, se a
florista estiver aberta, um belo ramo de rosas vermelhas nunca é
demais.
Maria Lindgren
jmaio/2010 |