Maria Lindgren

 A Maldade Mata A Gente

            Perto de mim, um sem número de maldades, proclamadas ou não. Maldade, para mim, é troço sério. Posso tentar enumerar algumas, mas, certamente, vou falhar, pois o número é espantoso, neste nosso mundo moderno.

Atenho-me, pois às maldades que sofro. Diz respeito às velhas ou quase: ter que perder a vaidade a muque. Nem menciono as herdeiras pobres das madames. Vou de remediadas, que é o grupo que me fala de perto.

 E lá vêm os exemplos: não se faz mais roupa de idosa-meio-velha e velha. Enquanto o homem segue a moda jovem até morrer, anda de bermuda, camiseta e tênis, pelo menos, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a mulher, coitada, passou de sessenta, chegou aos setenta, oitenta, tá danada. Não pode mais seguir moda, nem que o manequim ajude, por causa das dietas. Há raras lojas de roupas de gorda, mas existem. Já a idosa corre o risco de ficar ridícula, imitando as moçoilas, ou tem que recorrer à costureira, profissão em extinção, a não ser para remendos, que custam os olhos da cara.

Traje de senhora de idade, qual o quê!

Gasto sola de sapato e nem posso substituí-lo, a não ser por calçado especial de velha coroca, daqueles que servem para diabéticas de pés estropiados. Os mocassins, as sandálias de saltinho baixo, com a dignidade de um ou dois dedos, praticamente desapareceram do mercado. Ficaram os fechadinhos tipo sapatilhas e as rasteiras sandalinhas de dedo, que me fazem bater com o calcanhar no chão e traumatizar minha desengonçada coluna vertebral. Ou os tênis, com os quais nunca me acostumei, por não ser desportista de caminhadas: machucam-me o calcanhar, mesmo com meia. O discreto escarpin preto com salto, no máximo, cinco sumiu da praça, substituído por ridículo saltinho mínimo, imitador barato. Salto nove ou dez, até doze, isso tem. Fino o grosso, aos montes. Para jovens, é claro. Meio termo, no qual se dizia pousar a virtude, acabou de vez.

 E as bolsas?! Com exceção das Victor Hugo e outras grifes, que não são pra beiço de ex-professora, bolsonas descomunais ou bolsinhas minúsculas.  E, enquanto as moças usam verdadeiras sacolas de compra leves e bem molinhas, como se de massa de pastel fininha, as coroonas, sem encontrar bolsa leve de tamanho regular, têm que usar as indefectíveis bolsinhas a tiracolo, do tamanho de uma carteira de notas, nas quais enfiar óculos e carteira de notas é dose.

 Calça comprida de cintura no lugar tá difícil; de cem por cento algodão, que faz menos calor que as sintéticas, idem; linho, impossível: custa os olhos da cara e amarrota demais. Saia saiu de moda, é justinha, como nos idos de 1950, ou compridona como as das hippies. Vestido é acima do joelho -  joelho enrugado não dá - e cheio de babados, franjas, enviesados, franzidos e que tais. Lá se foram os vestidos tipo chemise de jersey estampado, próprios para minha mãe, mais os discretos blazers meus. Blusas de seda pura estampada, com ar de gente fina idosa, qual o quê. Tragédia maior ainda é encontrar brinco de pressão para presente de sogra de 91 anos.

- Brinco de quê mesmo?, pergunta-me a mocinha das bijuterias.

         - De senhora idosa, pra não dizer velha, que é mal-educado, querida. Antigamente, ninguém furava a orelha, sabia?

            Se a gente quer ir à piscina ou à praia, esqueça a roupa de banho apropriada: os biquinis deixam o bum-bum, a barriga e os seios pra todo o mundo ver. Há que ser escultural para usá-los sem constrangimento. Nem duas peças decentes há mais na praça e os maiôs inteiros têm um baita decote atrás, que mostra as pelancas da outrora cintura.

O melhor mesmo é, na hora dos presentes, atender ao pedido-resposta de minha sogra e dar o meu melhor abraço, meu beijo mais carinhoso e sincero. E, se a florista estiver aberta, um belo ramo de rosas vermelhas nunca é demais.

Maria Lindgren

jmaio/2010

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