Maria Lindgren

 A  Paciente

A mulher acamada não parava de falar e de se mexer. Fazia os gestos habituais com as mãos espalmadas, frenéticas, o pensamento mais rápido do que as palavras a brotarem da voz rouquenha de tanto uso; a língua e os lábios sem encontrar espaço e tempo para uma articulação correta.. Por milagre, o rosto pouco enrugado para uma senhora de mais de setenta anos franzia-se apenas da boca até o pescoço. A testa e as maçãs quase não se mexiam por bondade da natureza, não por placidez  de personalidade

 Ninguém entendia como suportara a dor lancinante do fêmur quebrado. Olha que osso, como dói!  E, pior ainda, carregada nos braços por porteiro forte, depositada na cadeira de uma das últimas fileiras do teatro, conseguira assistir a peça até o final, sem mandar aviso às amigas, sentadas em poltronas das primeiras filas. Não queria interromper-lhes o prazer do espetáculo.

O susto do tombo parecia ter afetado mais aos circundantes e às amigas do que a ela própria. Dores corporais, que bobagem! O que lhe causava malestar mesmo eram as dores psicológicas jamais saradas. Sobretudo, os traumatismos da infância paparicada e da adolescência muito ao contrário.

Só a cabeça fervilhava, entremeada de pensamentos bobos e fragmentos da peça. Que lhe interessava o corpo quebrado, alquebrado, se teria que viver sozinha para sempre!?.Talvez enferma fosse melhor: uma ou outra amiga podia aparecer. Talvez no hospital o emaranhado mental se diluísse, a insônia  cedesse e ela desmaiasse afinal, num sono reparador. Se é que teria de ser hospitalizada!

No leito precirúrgico, a aflição da espera não parecia afetá-la. A fala escorria ininterrupta.; idem, os gestos largos. Furações de veia para exames, mudança do soro... nem mereciam ui, quanto mais ai.  À noite, o mesmo sono nenhum, o que, em hospital, em todo caso, passa despercebido: é comum. São incômodos, ruídos e barulhos: passos apressados, portas que se abrem ou fecham, macas que se arrastam, velcros puxados de aparelhos de pressão, visitas escandalosas, até tocador de flauta e rezadeira, últimas bocas do plano de saúde, juro.

Durante a cirurgia, apreensão dos amigos, calmaria da paciente. Pouco tempo de anestesia, muita morfina, nem vislumbre de dor. Tudo mais que normal.

No poscirúrgico, atordoamento leve, muita fala, primeiras confusões. Desabituada ao marcar de horas de sono, como gente comum, por mais que ela cerrasse olhos ao som de programas televisivos insípidos, nada. Cabeceava apenas. Comida nas horas habituais, absurdo total para rotinas inexistentes..

- Não tenho fome nunca! Quando me apetece, como alguma coisa boa. Jamais antes da madrugada. Como é que posso tomar café, que detesto, almoçar, jantar e cear, afirmava aos gritos às enfermeiras e serventes de olhos arregalados.

 .Na primeira noite após a cirurgia de sucesso invejável – era uma fortaleza natural - debatia-se de tal forma que duas auxiliares de enfermagens, depois de esgotarem ponderações, amarraram-na às grades do leito. Não, por tortura ou procedimento psiquiátrico: por temor de um desastre pós-operatório.

Por dois dias, a paciente pelejou contra fantasmas e vivos. Em tom mais alto do que lhe permitia a rouquidão, exasperava-se com quantos lhe impusessem repouso às mãos e braços, exercícios fisioterápicos, comportamento dócil. Expulsou do quarto os pobres quase-doutores-quase-ginastas: horror declarado a mexer com músculos e articulações.

 Pudera! Jamais se afastava do sofá da sala, televisão ligada dia e noite, a não ser para necessidades cruciais, cineminhas freqüentes e eventuais teatros, quando os pés doídos aceitavam os sapatos de classe e lhe obedeciam as ordens.

No terceiro dia, a paciente teve alta. Correria geral: modernidade dos hospitais de hoje. Três dias no máximo, para “evitar infecção hospitalar”. Empurram o doente para parente, quando pobre, ou enfermeiras particulares, quando abastado. Não importa o grau de enfermidade e sim, a vaga para mais um, em terra de ganância no setor-saúde.

 Ninguém sabia por onde começar a retirada. Várias amigas ensaiaram levá-la para suas próprias casas. Estancaram o oferecimento, por razões múltiplas.

–Eu moro em apart-hotel de dois quartos pequenos. Ela vai precisar de espaço para andar com o andador. Não dá.

- Eu tenho três quartos, mas um é para minha tralha de trabalho que é demais e os outros são minúsculos. Também não como em casa e eu mesma faço tudo. 

.- Eu tenho apartamento grande, mas minha vida é cheia de compromissos. Só tenho empregada três vezes por semana.

- Eu, nem pensar! Tenho filho doente, mas dinheiro, que é bom, neca! Só a porcaria da aposentadoria.

Jogo cruzado pelos ares,  a paciente , no auge da lucidez, deu a última palavra:

- Chega!!! Ninguém precisa se preocupar. Dou um jeito. Vivo sozinha; fico sozinha.

Uma a uma, as amigas foram se retirando. Cabisbaixas. Decididas. Modernas.
Maria Lindgren

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