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A mulher acamada não parava de
falar e de se mexer. Fazia os gestos habituais com as mãos
espalmadas, frenéticas, o pensamento mais rápido do que as
palavras a brotarem da voz rouquenha de tanto uso; a língua e os
lábios sem encontrar espaço e tempo para uma articulação
correta.. Por milagre, o rosto pouco enrugado para uma senhora
de mais de setenta anos franzia-se apenas da boca até o pescoço.
A testa e as maçãs quase não se mexiam por bondade da natureza,
não por placidez de personalidade
Ninguém entendia como suportara
a dor lancinante do fêmur quebrado. Olha que osso, como dói! E,
pior ainda, carregada nos braços por porteiro forte, depositada
na cadeira de uma das últimas fileiras do teatro, conseguira
assistir a peça até o final, sem mandar aviso às amigas,
sentadas em poltronas das primeiras filas. Não queria
interromper-lhes o prazer do espetáculo.
O susto do tombo parecia ter
afetado mais aos circundantes e às amigas do que a ela própria.
Dores corporais, que bobagem! O que lhe causava malestar mesmo
eram as dores psicológicas jamais saradas. Sobretudo, os
traumatismos da infância paparicada e da adolescência muito ao
contrário.
Só a cabeça fervilhava,
entremeada de pensamentos bobos e fragmentos da peça. Que lhe
interessava o corpo quebrado, alquebrado, se teria que viver
sozinha para sempre!?.Talvez enferma fosse melhor: uma ou outra
amiga podia aparecer. Talvez no hospital o emaranhado mental se
diluísse, a insônia cedesse e ela desmaiasse afinal, num sono
reparador. Se é que teria de ser hospitalizada!
No leito precirúrgico, a aflição
da espera não parecia afetá-la. A fala escorria ininterrupta.;
idem, os gestos largos. Furações de veia para exames, mudança do
soro... nem mereciam ui, quanto mais ai. À noite, o mesmo sono
nenhum, o que, em hospital, em todo caso, passa despercebido: é
comum. São incômodos, ruídos e barulhos: passos apressados,
portas que se abrem ou fecham, macas que se arrastam, velcros
puxados de aparelhos de pressão, visitas escandalosas, até
tocador de flauta e rezadeira, últimas bocas do plano de saúde,
juro.
Durante a cirurgia, apreensão
dos amigos, calmaria da paciente. Pouco tempo de anestesia,
muita morfina, nem vislumbre de dor. Tudo mais que normal.
No poscirúrgico, atordoamento
leve, muita fala, primeiras confusões. Desabituada ao marcar de
horas de sono, como gente comum, por mais que ela cerrasse olhos
ao som de programas televisivos insípidos, nada. Cabeceava
apenas. Comida nas horas habituais, absurdo total para rotinas
inexistentes..
- Não tenho fome nunca!
Quando me apetece, como alguma coisa boa. Jamais antes da
madrugada. Como é que posso tomar café, que detesto,
almoçar, jantar e cear, afirmava aos gritos às enfermeiras e
serventes de olhos arregalados.
.Na primeira noite após a
cirurgia de sucesso invejável – era uma fortaleza natural -
debatia-se de tal forma que duas auxiliares de enfermagens,
depois de esgotarem ponderações, amarraram-na às grades do
leito. Não, por tortura ou procedimento psiquiátrico: por temor
de um desastre pós-operatório.
Por dois dias, a paciente
pelejou contra fantasmas e vivos. Em tom mais alto do que lhe
permitia a rouquidão, exasperava-se com quantos lhe impusessem
repouso às mãos e braços, exercícios fisioterápicos,
comportamento dócil. Expulsou do quarto os pobres
quase-doutores-quase-ginastas: horror declarado a mexer com
músculos e articulações.
Pudera! Jamais se afastava do
sofá da sala, televisão ligada dia e noite, a não ser para
necessidades cruciais, cineminhas freqüentes e eventuais
teatros, quando os pés doídos aceitavam os sapatos de classe e
lhe obedeciam as ordens.
No terceiro dia, a paciente teve
alta. Correria geral: modernidade dos hospitais de hoje. Três
dias no máximo, para “evitar infecção hospitalar”. Empurram o
doente para parente, quando pobre, ou enfermeiras particulares,
quando abastado. Não importa o grau de enfermidade e sim, a vaga
para mais um, em terra de ganância no setor-saúde.
Ninguém sabia por onde começar
a retirada. Várias amigas ensaiaram levá-la para suas próprias
casas. Estancaram o oferecimento, por razões múltiplas.
–Eu moro em apart-hotel de dois
quartos pequenos. Ela vai precisar de espaço para andar com o
andador. Não dá.
- Eu tenho três quartos, mas um
é para minha tralha de trabalho que é demais e os outros são
minúsculos. Também não como em casa e eu mesma faço tudo.
.- Eu tenho apartamento grande,
mas minha vida é cheia de compromissos. Só tenho empregada três
vezes por semana.
- Eu, nem pensar! Tenho filho
doente, mas dinheiro, que é bom, neca! Só a porcaria da
aposentadoria.
Jogo cruzado pelos ares, a
paciente , no auge da lucidez, deu a última palavra:
- Chega!!! Ninguém precisa se
preocupar. Dou um jeito. Vivo sozinha; fico sozinha.
Uma a uma, as amigas foram se
retirando. Cabisbaixas. Decididas. Modernas.
Maria Lindgren |