Maria Lindgren

A Traiçao  De Obama

 Ouço aturdida a notícia do Prêmio Nobel da Paz concedido, com pompa e circunstância, a Barack Obama, presidente do país líder no mundo. Logo agora que ele começa a se comportar meio esquisito, a desiludir os próprios norteamericanos.

 Com as guerras ainda em franca atividade, a crise econômica interna ainda não resolvida e as promessas de campanha ainda não cumpridas, baixa a porcentagem de sua popularidade para 46%, muito mais cedo do que eu supunha, quando escrevi o texto Um negro de alma negra, na esperança de que o preconceito do país racista e belicoso, apesar de pseudopuritano, tivesse acabado de vez. E que, com Obama em lugar do famigerado Bush, o mundo ocidental capitalista e “globalizado” se tornasse um pouco menos asqueroso.

De repente, em plena primavera brasileira, a notícia do Prêmio Nobel da Paz para o presidente bonito, elegante, simpático, culto e negro. Apesar da continuação dos conflitos no Afeganistão; do aumento do contingente de rapazes norte-americanos no Iraque, na suposta defesa da democracia contra o terrorismo; apesar da prisão de Guantânamo não ter desaparecido do mapa do horror, com as devidas desculpas aos muitos que lá sofrem torturas e injustiças; apesar da aberração do bloqueio à Cuba não ter sido resolvida; apesar da indústria bélica norte-americana crescer a cada dia; apesar dos incentivos maquiavélicos oferecidos aos que se alistam para morrer ou voltar estropiados, sem pernas, braços e o que mais, por não terem melhor opção de qualidade de vida. De vida?

O Prêmio Nobel da Paz sempre me pareceu objeto de admiração, embora não concordasse com a escolha de alguns dos ganhadores, para mim, não tão simpáticos, como Gorbachev, Jimmy Carter, Al Gore e outros. Da minha lista de gente que merecia a honraria estão nomes do porte de Albert Schweitzer, Martin Luther King, Madre Tereza de Calcutá, Nelson Mandela.

Como comparar esta gente maravilhosa com Barack Obama? Que feitos grandiosos realizou o moço para merecer glórias, em geral, dadas a homens eminentes, de ações inquestionavelmente meritórias? Que paz é essa que ninguém viu na prática?

Acho que ele próprio ficou constrangido com o equívoco ou intenções ocultas dos suecos. Tanto que, no seu discurso, estava visivelmente sem palavras para justificar a guerra ou guerras “anti-terrorismo” ou “anti-democráticas” em que os nossos vizinhos de continente se metem direta ou indiretamente, sem nenhuma coerência.

Usou, em flagrante desconforto, a expressão “guerra justa”, na esperança de que alguém ache justa a invasão de países, o massacre de civis e militares, do país invadido, transformado em ruínas fumegantes e pedaços de seres humanos, e dos próprios soldados americanos.

Senti uma enorme aflição ao ver minha esperança negra em papel tão ridículo. E, mais ainda, cheguei à conclusão de que tais prêmios tão badalados pelo mundo afora, não passam, muitas vezes, de grossa tapeação.

Logo eu, que descendo de suecos. Que baita decepção!

Maria Lindgren 


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