Maria Lindgren

A Visita Do Velho Senhor 

             Hoje, vi o velho senhor. Era ele, o avô. Estava entre nós, no mesmo aposento, com seu jeito curvado e perscrutador de todas as coisas, suas calças folgadas, sua camisa de manga comprida, inverno ou verão, seus sapatos achinelados, seus cabelos escuros que a idade não branqueava.

            Era ele, sem dúvida. Um dos avós de meus filhos, o médico aposentado sempre reconhecido, de grande cultura geral, amante da música clássica, sobretudo, da ópera - pensei escutar a voz de Benjamin Gigli ou Renata Tebaldi, ou mesmo Maria Callas, ao longe, como fundo musical da visita.

            Gato sem pegadas, ele entrou de mansinho, como de hábito. Só que, dessa vez, não passou os dedos em cima de nenhum móvel, para verificar a poeira – mania de prevenir rinites e outras alergias, segundo afirmava. Não fez nenhuma de suas pilhérias. É verdade que a sogra idosa não o acompanhava. Era ela quem mais o incitava (ou excitava) . Chamava-se Rosa: “Rosa no nome, na alma e na figura”, repetia a cada hora em que topava com a senhora, deixando-a danada.

Simplesmente, ele andava. Para lá e para cá, num chão que ninguém via, sem nada dizer. Em dado momento, parece que carregava um livro aberto, sem sequer o olhar - cacoete de leitor contumaz. Não, não segurava nenhuma lente na mão direita, pronta a usar, como sempre fazia, conforme a visão se deteriorava e o desejo de ler se tornava mais agudo.

            Estranhei o fato de meu pai também morto não vir junto, como seria de esperar para dois mortos que se davam tão bem em vida. Perguntei à minha cunhada:

- Por que meu pai não desce também? E ela: - Porque o prédio dele é muito alto.

            Olhei para um edifício em contre-plongé, que nos esmagava quase, formigas na calçada. Acreditei que era de fato difícil para meu pai descer de lá.

Seria o Céu e meu pai não obtivera a permissão para descer, concedida ao outro velho? Teria meu pai transgredido alguma ordem do Senhor, que tanto venerava? Seria Deus injusto?!

Outra vez, me pego em pouca fé. Há que não duvidar, Maria!

Sinto que há mensagem nesta visão. Com dose homeopática de sentimento de culpa, penso na hipótese de meu pai se recusar a aparecer por vontade própria. Afinal, ando falando mal dele, de suas rabugices, de sua irritação constante, desde que voltei de viagem.

Há muito apagara de minhas memórias o seu mau gênio. Enxergava-lhe apenas o lado fascinante de homem rude, dedicado às letras, sem nenhum curso a apoiá-lo, nem o primário da época. Sozinho, descobrira o caminho para um paraíso só dele. Muito diferente, da obrigação pesada de servir em balcão de loja.

O avô da visita, ao contrário, só elogios da filha, E até, de mim. Por isso, o seu à vontade em caminhar de novo entre nós.

Não sei de mais nada. Só que a visão me acompanha o dia todo. Já é noite e lá vou eu sonhar com tudo isso. Não consigo sossego. Juro que domingo rezo pelos dois. Com fervor.

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