|
Hoje, vi o velho senhor. Era ele, o avô. Estava entre nós, no
mesmo aposento, com seu jeito curvado e perscrutador de todas as
coisas, suas calças folgadas, sua camisa de manga comprida,
inverno ou verão, seus sapatos achinelados, seus cabelos escuros
que a idade não branqueava.
Era ele, sem dúvida. Um
dos avós de meus filhos, o médico aposentado sempre reconhecido,
de grande cultura geral, amante da música clássica, sobretudo,
da ópera - pensei escutar a voz de Benjamin Gigli ou Renata
Tebaldi, ou mesmo Maria Callas, ao longe, como fundo musical da
visita.
Gato sem pegadas, ele
entrou de mansinho, como de hábito. Só que, dessa vez, não
passou os dedos em cima de nenhum móvel, para verificar a poeira
– mania de prevenir rinites e outras alergias, segundo afirmava.
Não fez nenhuma de suas pilhérias. É verdade que a sogra idosa
não o acompanhava. Era ela quem mais o incitava (ou excitava) .
Chamava-se Rosa: “Rosa no nome, na alma e na figura”,
repetia a cada hora em que topava com a senhora, deixando-a
danada.
Simplesmente, ele andava. Para
lá e para cá, num chão que ninguém via, sem nada dizer. Em dado
momento, parece que carregava um livro aberto, sem sequer o
olhar - cacoete de leitor contumaz. Não, não segurava nenhuma
lente na mão direita, pronta a usar, como sempre fazia, conforme
a visão se deteriorava e o desejo de ler se tornava mais agudo.
Estranhei o fato de meu
pai também morto não vir junto, como seria de esperar para dois
mortos que se davam tão bem em vida. Perguntei à minha cunhada:
- Por que meu pai não desce
também? E ela: - Porque o prédio dele é muito alto.
Olhei para um edifício
em contre-plongé, que nos esmagava quase, formigas na
calçada. Acreditei que era de fato difícil para meu pai descer
de lá.
Seria o Céu e meu pai não
obtivera a permissão para descer, concedida ao outro velho?
Teria meu pai transgredido alguma ordem do Senhor, que tanto
venerava? Seria Deus injusto?!
Outra vez, me pego em pouca fé.
Há que não duvidar, Maria!
Sinto que há mensagem nesta
visão. Com dose homeopática de sentimento de culpa, penso na
hipótese de meu pai se recusar a aparecer por vontade própria.
Afinal, ando falando mal dele, de suas rabugices, de sua
irritação constante, desde que voltei de viagem.
Há muito apagara de minhas
memórias o seu mau gênio. Enxergava-lhe apenas o lado fascinante
de homem rude, dedicado às letras, sem nenhum curso a apoiá-lo,
nem o primário da época. Sozinho, descobrira o caminho para um
paraíso só dele. Muito diferente, da obrigação pesada de servir
em balcão de loja.
O avô da visita, ao contrário,
só elogios da filha, E até, de mim. Por isso, o seu à vontade em
caminhar de novo entre nós.
Não sei de mais nada. Só que a
visão me acompanha o dia todo. Já é noite e lá vou eu sonhar com
tudo isso. Não consigo sossego. Juro que domingo rezo pelos
dois. Com fervor. |