A idéia tinha que amadurecer. A filha mal chegara de viagem e
era seu aniversário. A casa não estava, pois, pronta para
qualquer celebração. Nem mesmo, uma modesta reunião. A mala
meio-aberta ao lado da cama, indício de tralhas remexidas sem
guardar. Ver sem pressa o que se traz de fora é um dos grandes
baratos de viajar, sobretudo quando se vai à França.
Como fazer para receber gente que lhe desse prazer, ao mesmo
tempo que não a impedisse de viver as lembranças de um passeio
tão rico?
De repente, a proposta-solução:
- Mãe, porque você não aproveita meu aniversário e reúne as
velhas amigas, minhas tias autênticas e postiças? Adoro contar
minhas aventuras. Elas vão adorar. Não precisa nada de
especial pra comer e beber: umas migas argentinas, um vinho
tinto, uma cerveja... Não vou convidar mais ninguém. Juro.
Cinqüenta anos marcam. Não são para se desperdiçar, deixar
passar sem rastro a idade em que mulheres e homens começam a
aspirar juventude eterna, correndo para cirurgias plásticas,
esteticistas... Procuram ignorar o implacável relógio
que não absolve e, não importa a visão reduzida dos olhos, o
espelho, este mal-educado, que acusa os quilos a mais, os pés
de galinha, as manchas do sol, antes benfeitor.
Na casa da mãe, de farras bem aproveitadas, não faltava na
adega, desde vinhos franceses, italianos, portugueses,
chilenos... até uísque e vodka, importados, é claro. Animação
certa para os convidados de papo fluente. Verdade que não se
cultivava o hábito do champanhe, nem mesmo do prosecco: dava
uma azia danada ao dono da casa.
Inverno de noite adiantada, marcaram o encontro para as cinco
da tarde, ainda que sem chá. As damas começaram a chegar às
quatro e meia, por medo ao Rio de Janeiro de perigos, de
violência. À noite, então... Recebidas com finas taças de
cristal e louça portuguesa herdada da família, apesar dos
guardanapos de papel dos anfitriões modernos, pura alegria.
Roupas caprichadas, línguas soltas, risos postos, sentaram-se
ao redor da mesinha de frente do sofá ou em poltronas, novelas
da tevê postas de lado para dias de desânimo. Uma das tias
morre de amores pelas migas argentinas e a dona da casa trata
de as comprar em grande quantidade, de uma fábrica pertinho de
sua casa.
Tão logo se acomodam as convivas, lá vem o manjar dos deuses
mais simplórios. Quem diria que um pão de forma cortado bem
fininho, de recheios diversificados, pudesse fazer a delícia
de pessoas acostumadas a chás e jantares de classe!
- Estas migas são uma perdição. Não devo comer tanto, mas não
resisto.
E tome de mordiscar, com finura e flagrante satisfação, os
pequenos sanduíches-tentação. Até o fim da festa, ainda se
ouviam quase desculpas pela gula. Faltava o “comer sem culpa”,
a grande frase do mundo atual de emagrecimentos dietéticos.
A aniversariante nada pontual, como de hábito, meditara um bom
tempo para decidir que roupa nova usaria, em meio às
bugigangas francesas, compradas em liquidações de quase luxo,
mais barato que no Rio, sem dúvida. Compensou o atraso com
abraços e beijos efusivos, emendados na verve ao contar
histórias, um de seus melhores traços.
- Paris está caidaça. Cadê a Cidade-Luz de outros tempos?
Imagina que vi lâmpadas de flúor misturadas a outras antigas,
em pleno Arco do Triunfo e na Torre Eiffel. Uma bagunça.
Aliás, o Arco do Triunfo e o Champs Elysés são de uma
cafonice! E os franceses, quem pensa que são elegantes! Gordos
e baixotes; uns verdadeiros anões. Só que tratam os
brasileiros no colo, agora. Nada das grosserias de
antigamente. Culpa de Lula, nosso presidente tão querido no
exterior, com seu país de fantasia. O homem conseguiu
impressionar a União Européia em peso. A comida francesa, quem
disse que é a melhor do mundo? Porcaria, tirando os crepes e
as tortinhas. Sou mais a do Rio; de São Paulo, nem se fala!
Nem o vinho. Os vinhos são fracos demais pra meu gosto: não me
dão nenhum barato. Então, pra que beber, né mesmo? Se é para
degustar, então vou fazer disso profissão.
A mãe concordava que a fama de Lula era verdadeira. Estivera
em Istambul e uma turca, de burca e tudo, lhe deu parabéns por
ser brasileira, em plena praça Taxsim, a mais badalada: -
You are happy! You have Lula!
A festa prosseguia sem atropelos, com pouco ruído, eu diria
que educada mesmo, quando soou a campainha da porta. Novas
visitas, não convidadas: as amigas de infância da nova
cinquentona. Chegaram aos gritos, sem disfarçar a emoção.
Beijos, abraços, presentes e falatório. Aí, sim, uma Festa.
Não podiam esquecer da amiga de toda a vida no aniversário de
cinqüenta anos, idade, aliás, de todas. Cruzaram a Baía de
Guanabara; cruzariam o Amazonas, o Bósforo, qualquer água,
para festejarem juntas uma idade de respeito. Quase meio
século de amizade verdadeira
Fluminenses de Niterói, encantos mil e muita energia, as
“meninas” mudaram o toque de classe da reunião por gargalhadas
espalhafatosas, até altas horas da noite. Acrescente-se que
quase em jejum, pois as migas tinham-se evaporado das
bandejas.
Muito mais do que Paris, a noite do Rio de Janeiro se encheu
de luzes ardentes.