Maria Lindgren

Aniversário Ardente

A idéia tinha que amadurecer. A filha mal chegara de viagem e era seu aniversário. A casa não estava, pois, pronta para qualquer celebração. Nem mesmo, uma modesta reunião. A mala meio-aberta ao lado da cama, indício de tralhas remexidas sem guardar. Ver sem pressa o que se traz de fora é um dos grandes baratos de viajar, sobretudo quando se vai à França.

Como fazer para receber gente que lhe desse prazer, ao mesmo tempo que não a impedisse de viver as lembranças de um passeio tão rico?

De repente, a proposta-solução:

- Mãe, porque você não aproveita meu aniversário e reúne  as velhas amigas, minhas tias autênticas e postiças? Adoro contar minhas aventuras. Elas vão adorar. Não precisa nada de especial pra comer e beber: umas migas argentinas, um vinho tinto, uma cerveja... Não vou convidar mais ninguém. Juro.

Cinqüenta anos marcam. Não são para se desperdiçar, deixar passar sem rastro a idade em que mulheres e homens começam a aspirar juventude eterna, correndo para cirurgias plásticas, esteticistas... Procuram ignorar o implacável relógio que não absolve e, não importa a visão reduzida dos olhos, o espelho, este mal-educado, que acusa os quilos a mais, os pés de galinha, as manchas do sol, antes benfeitor.

Na casa da mãe, de farras bem aproveitadas, não faltava na adega, desde vinhos franceses, italianos, portugueses, chilenos... até uísque e vodka, importados, é claro. Animação certa para os convidados de papo fluente. Verdade que não se cultivava o hábito do champanhe, nem mesmo do prosecco: dava uma azia danada ao dono da casa.

Inverno de noite adiantada, marcaram o encontro para as cinco da tarde, ainda que sem chá. As damas começaram a chegar às quatro e meia, por medo ao Rio de Janeiro de perigos, de violência. À noite, então... Recebidas com finas taças de cristal e louça portuguesa herdada da família, apesar dos guardanapos de papel dos anfitriões modernos, pura alegria.

Roupas caprichadas, línguas soltas, risos postos, sentaram-se ao redor da mesinha de frente do sofá ou em poltronas, novelas da tevê postas de lado para dias de desânimo. Uma das tias morre de amores pelas migas argentinas e a dona da casa trata de as comprar em grande quantidade, de uma fábrica pertinho de sua casa.

Tão logo se acomodam as convivas, lá vem o manjar dos deuses mais simplórios. Quem diria que um pão de forma cortado bem fininho, de recheios diversificados, pudesse fazer a delícia de pessoas acostumadas a chás e jantares de classe!

- Estas migas são uma perdição. Não devo comer tanto, mas não resisto.

E tome de mordiscar, com finura e flagrante satisfação, os pequenos sanduíches-tentação. Até o fim da festa, ainda se ouviam quase desculpas pela gula. Faltava o “comer sem culpa”, a grande frase do mundo atual de emagrecimentos dietéticos.    

A aniversariante nada pontual, como de hábito, meditara um bom tempo para decidir que roupa nova usaria, em meio às bugigangas francesas, compradas em liquidações de quase luxo, mais barato que no Rio, sem dúvida. Compensou o atraso com abraços e beijos efusivos, emendados na verve ao contar histórias, um de seus melhores traços.

- Paris está caidaça. Cadê a Cidade-Luz de outros tempos? Imagina que vi lâmpadas de flúor misturadas a outras antigas, em pleno Arco do Triunfo e na Torre Eiffel. Uma bagunça.  Aliás, o Arco do Triunfo e o Champs Elysés são de uma cafonice! E os franceses, quem pensa que são elegantes! Gordos e baixotes; uns verdadeiros anões. Só que tratam os brasileiros no colo, agora. Nada das grosserias de antigamente. Culpa de Lula, nosso presidente tão querido no exterior, com seu país de fantasia. O homem conseguiu impressionar a União Européia em peso. A comida francesa, quem disse que é a melhor do mundo? Porcaria, tirando os crepes e as tortinhas. Sou mais a do Rio; de São Paulo, nem se fala! Nem o vinho. Os vinhos são fracos demais pra meu gosto: não me dão nenhum barato. Então, pra que beber, né mesmo? Se é para degustar, então vou fazer disso profissão.

 A mãe concordava que a fama de Lula era verdadeira. Estivera em Istambul e uma turca, de burca e tudo, lhe deu parabéns por ser brasileira, em plena praça Taxsim, a mais badalada: - You are happy! You have Lula!

A festa prosseguia sem atropelos, com  pouco ruído, eu diria que educada mesmo, quando soou a campainha da porta. Novas visitas, não convidadas: as amigas de infância da nova cinquentona. Chegaram aos gritos, sem disfarçar a emoção. Beijos, abraços, presentes e falatório. Aí, sim, uma Festa. Não podiam esquecer da amiga de toda a vida no aniversário de cinqüenta anos, idade, aliás, de todas. Cruzaram a Baía de Guanabara; cruzariam o Amazonas, o Bósforo, qualquer água, para festejarem juntas uma idade de respeito. Quase meio século de amizade verdadeira

Fluminenses de Niterói, encantos mil e muita energia, as “meninas” mudaram o toque de classe da reunião por gargalhadas espalhafatosas, até altas horas da noite. Acrescente-se que quase em jejum, pois as migas tinham-se evaporado das bandejas.

Muito mais do que Paris, a noite do Rio de Janeiro se encheu de luzes ardentes.

Maria Lindgren

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